A pré-eclâmpsia e a eclâmpsia fazem parte de um espectro de distúrbios hipertensivos da gestação e são responsáveis por aproximadamente 76.000 mortes maternas e 500.000 mortes fetais por ano no mundo. No Brasil, os distúrbios hipertensivos da gestação são a principal causa de mortalidade materna. Compreender seus critérios diagnósticos, sinais de gravidade e princípios de manejo é essencial para toda gestante e profissional de saúde — especialmente em gestações de alto risco.
📋 Definições Fundamentais
- Pré-eclâmpsia: hipertensão (PA ≥140/90 mmHg) + proteinúria (>300 mg/24h) após a 20ª semana — ou critérios de gravidade sem proteinúria
- Eclâmpsia: pré-eclâmpsia + convulsões tônico-clônicas generalizadas sem outra causa neurológica
- Pré-eclâmpsia grave: PA ≥160/110 mmHg + sinais de lesão de órgão-alvo (rins, fígado, SNC, pulmão, placenta)
- Síndrome HELLP: Hemolysis, Elevated Liver enzymes, Low Platelets — variante grave
- Resolução: o único tratamento definitivo é o parto
Diferenças entre Pré-eclâmpsia, Eclâmpsia e Síndrome HELLP
| Condição | Critério principal | Laboratório | Manejo |
|---|---|---|---|
| Pré-eclâmpsia | PA ≥ 140/90 mmHg após 20ª semana + proteinúria ou critério de gravidade | Proteinúria; plaquetas e creatinina podem ser normais | Anti-hipertensivos; parto conforme IG e gravidade |
| Eclâmpsia | Pré-eclâmpsia + convulsões tônico-clônicas sem outra causa neurológica | Semelhante à pré-eclâmpsia grave | Sulfato de magnésio IV + anti-hipertensivo + parto após estabilização |
| Síndrome HELLP | Hemólise + elevação de transaminases + plaquetopenia (<100.000/mm³) | LDH elevado; TGO/TGP >2×; plaquetas baixas; bilirrubina elevada | Corticoide (se <34 sem); parto após estabilização; transfusão se necessário |
Fisiopatologia: o que causa a pré-eclâmpsia?
A pré-eclâmpsia resulta de uma placentação anormal. Na gestação normal, as células do trofoblasto invadem profundamente as artérias espirais maternas, transformando-as em vasos de baixa resistência com alto fluxo. Na pré-eclâmpsia, essa invasão é superficial — as artérias espirais permanecem de alta resistência, levando a:
- Isquemia uteroplacentária → liberação de fatores antiangiogênicos (sFlt-1, endoglina solúvel)
- Desequilíbrio entre fatores pró e antiangiogênicos → disfunção endotelial sistêmica
- Vasoespasmo generalizado → hipertensão, proteinúria, edema
- Ativação da coagulação → síndrome HELLP
Os marcadores angiogênicos (sFlt-1/PlGF ratio) têm grande valor preditivo e diagnóstico — especialmente no diagnóstico diferencial com hipertensão crônica.
Gestação com pressão alta ou risco de pré-eclâmpsia?
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Agendar consulta →Fatores de risco para pré-eclâmpsia
Fatores de risco — triagem do 1º trimestre (FIGO/FMF)
Alto risco (≥1 fator):
- Pré-eclâmpsia em gestação anterior
- Hipertensão crônica
- Diabetes mellitus tipo 1 ou 2
- Doença renal crônica
- Doenças autoimunes (LES, SAAF)
- Gestação múltipla
Risco moderado (combinação de ≥2):
- Nuliparidade, IMC >30, idade >35 anos
- Intervalo interpartal >10 anos
- História familiar de pré-eclâmpsia (mãe ou irmã)
Prevenção com aspirina no 1º trimestre
A triagem combinada do 1º trimestre (PA média, doppler das artérias uterinas, PAPP-A, PlGF, características maternas) permite identificar gestantes com risco elevado. Para essas mulheres, a aspirina em baixa dose (100–150 mg/dia, à noite), iniciada antes de 16 semanas, reduz o risco de pré-eclâmpsia pré-termo em 62% (estudo ASPRE). É uma das intervenções preventivas mais importantes da obstetrícia moderna.
- Quem deve tomar: gestantes com ≥1 fator de alto risco ou ≥2 fatores de risco moderado (ver fatores acima).
- Quando iniciar: idealmente entre 12 e 16 semanas — quanto mais cedo dentro dessa janela, maior o efeito protetor.
- Até quando usar: mantida até cerca de 36 semanas, conforme orientação do obstetra.
Diagnóstico da pré-eclâmpsia
O diagnóstico requer dois critérios: hipertensão gestacional (PA ≥140/90 mmHg confirmada em 2 medidas com intervalo de 4h) após a 20ª semana + qualquer dos seguintes:
- Proteinúria >300 mg em urina de 24h (ou proteinúria/creatinina ≥0,3)
- Plaquetas <100.000/mm³
- Creatinina >1,1 mg/dL (sem doença renal prévia)
- TGO/TGP elevados (2x o limite superior da normalidade)
- Edema pulmonar
- Sintomas neurológicos de nova instalação (cefaleia intensa, distúrbio visual)
📊 Critérios diagnósticos — valores de referência
| Critério | Valor |
|---|---|
| Pressão arterial (diagnóstico) | ≥ 140/90 mmHg após 20 sem |
| Pressão arterial (gravidade) | ≥ 160/110 mmHg |
| Proteinúria | ≥ 300 mg/24h ou relação P/Cr ≥ 0,3 |
| Plaquetas | < 100.000/mm³ |
| Creatinina | > 1,1 mg/dL (sem doença renal prévia) |
| TGO / TGP (transaminases) | > 2× o limite superior da normalidade |
Critérios de gravidade — pré-eclâmpsia com características graves
- PA sistólica ≥160 mmHg ou diastólica ≥110 mmHg (em 2 medidas com 15 min de intervalo)
- Trombocitopenia (<100.000/mm³)
- Insuficiência renal (creatinina >1,1 mg/dL ou 2x o basal)
- Disfunção hepática (2x o limite superior + dor em hipocôndrio direito/epigástrio)
- Edema pulmonar
- Cefaleia intensa de novo início, escotomas, fotofobia ou amaurose
- Restrição de crescimento fetal (RCIU) grave
O papel do PlGF e da relação sFlt-1/PlGF
Além da pressão e dos exames clássicos, os marcadores angiogênicos hoje ajudam a confirmar ou afastar a pré-eclâmpsia — especialmente quando o diagnóstico é duvidoso (por exemplo, distinguir pré-eclâmpsia de hipertensão crônica ou de outras causas de proteinúria):
- PlGF (fator de crescimento placentário): produzido por uma placenta saudável. Na pré-eclâmpsia, a placenta doente produz pouco PlGF — por isso ele fica baixo.
- sFlt-1: fator antiangiogênico liberado pela placenta isquêmica — fica elevado na pré-eclâmpsia.
- Relação sFlt-1/PlGF: combina os dois numa única medida. Um valor ≤ 38 tem alto valor preditivo negativo — ou seja, ajuda a afastar a pré-eclâmpsia pelas próximas ~1 a 4 semanas, evitando internações desnecessárias. Valores altos reforçam o diagnóstico e antecipam a vigilância.
Esses marcadores não substituem a avaliação clínica, mas agregam objetividade — uma ferramenta cada vez mais usada na medicina fetal para individualizar a conduta.
Eclâmpsia: reconhecimento e tratamento imediato
A eclâmpsia é o surgimento de convulsões tônico-clônicas generalizadas em gestante com pré-eclâmpsia (ou, raramente, sem diagnóstico prévio de hipertensão). É uma emergência obstétrica.
Pródromo convulsivo (nem sempre presente)
- Cefaleia intensa e progressiva
- Distúrbios visuais (escotomas, amaurose, diplopia)
- Dor epigástrica ou em hipocôndrio direito
- Hiperreflexia com clônus
- Agitação psicomotora
Manejo imediato da eclâmpsia
- Decúbito lateral esquerdo — proteger vias aéreas, prevenir aspiração
- Oxigênio suplementar (máscara 8–10 L/min)
- Sulfato de magnésio IV: dose de ataque 4–6 g em 15–20 min, seguida de 1–2 g/h de manutenção — anticonvulsivante de 1ª linha; previne recorrência em 58%
- Anti-hipertensivo de ação rápida se PA ≥160/110: hidralazina IV, labetalol IV, nifedipino oral
- Monitoramento contínuo: PA, SpO2, diurese (sonda vesical), reflexos tendíneos (toxicidade por Mg)
- Avaliação fetal (cardiotocografia, deceleração é comum durante convulsão — geralmente transitória)
- Resolução da gestação — após estabilização materna
Síndrome HELLP
Complicação grave da pré-eclâmpsia (5–10% dos casos), caracterizada por:
- Hemolysis: hemólise microangiopática (esquizócitos no esfregaço, LDH elevado, bilirrubina indireta aumentada)
- ELevated Liver enzymes: TGO/TGP >2x o normal
- LP: Low Platelets — plaquetas <100.000/mm³
Pode surgir sem hipertensão ou proteinúria importantes (10–20% dos casos). Manejo: corticoide (betametasona para maturidade fetal se <34 semanas), estabilização e parto. Transfusão de plaquetas se <50.000 ou <100.000 antes de cesárea.
Conduta obstétrica: quando antecipar o parto
O parto é o único tratamento definitivo. A decisão de antecipar depende da idade gestacional e da gravidade:
- ≥37 semanas + qualquer pré-eclâmpsia: parto indicado
- 34–37 semanas + pré-eclâmpsia grave: parto após estabilização
- <34 semanas + pré-eclâmpsia grave: corticoide para maturidade pulmonar + sulfato de magnésio + tentar prolongar 24–48h para corticoide completar — parto se deterioração materna ou fetal
- <34 semanas sem critérios de gravidade: internação + monitoramento intensivo — pode aguardar
- Eclâmpsia ou HELLP: parto após estabilização, independentemente da IG
A via de parto (vaginal vs. cesariana) é definida pela idade gestacional, condições cervicais e bem-estar fetal — não pela doença hipertensiva em si.
Cuidados pós-parto
A pré-eclâmpsia pode se manifestar ou piorar nas primeiras 48h pós-parto. Pontos importantes:
- Manter anti-hipertensivos oral (metildopa, nifedipino, captopril) por pelo menos 6 semanas
- Sulfato de magnésio por 24–48h pós-parto em casos graves/eclâmpsia
- Monitoramento de PA pelo menos 2x/dia nas primeiras 72h
- Risco aumentado de cardiopatia, AVC e doença renal na vida futura — seguimento cardiológico recomendado
- Após o parto, avaliar possível depressão pós-parto — complicação frequente em gestações de alto risco
- Risco de recorrência: 15–25% em gestações futuras
Perguntas Frequentes
Qual a diferença entre pré-eclâmpsia e eclâmpsia?
A pré-eclâmpsia é uma síndrome da gestação caracterizada por pressão alta e lesão de órgãos, que surge após a 20ª semana. A eclâmpsia é a pré-eclâmpsia que evolui para convulsões — é uma complicação grave da pré-eclâmpsia. Toda eclâmpsia passa por uma fase de pré-eclâmpsia, mas nem toda pré-eclâmpsia evolui para eclâmpsia.
Como sei se minha pressão na gravidez é preocupante?
Qualquer pressão igual ou acima de 140/90 mmHg após a 20ª semana de gestação deve ser avaliada pelo obstetra. Pressão acima de 160/110 mmHg é uma emergência — procure pronto-socorro imediatamente. Cefaleia intensa, visão embaçada ou piscando e dor no estômago junto com pressão alta são sinais de gravidade.
Para que serve o sulfato de magnésio na eclâmpsia?
O sulfato de magnésio é o anticonvulsivante de escolha na eclâmpsia — ele interrompe e previne novas convulsões com eficácia superior a outros medicamentos. É dado em dose de ataque endovenosa seguida de manutenção. Não controla a pressão arterial diretamente, para isso usam-se outros medicamentos.
A aspirina na gravidez realmente previne pré-eclâmpsia?
Sim, em mulheres com risco elevado. Para quem tem fatores de risco, a aspirina em baixa dose (100–150 mg/dia, à noite), iniciada antes de 16 semanas, reduz o risco de pré-eclâmpsia pré-termo em até 62%. É uma das intervenções preventivas mais importantes da obstetrícia atual e deve ser prescrita pelo obstetra.
Tive pré-eclâmpsia — meu próximo parto também vai ter?
O risco de recorrência é de 15 a 25%. Em gestações futuras, o acompanhamento deve ser intensificado: rastreamento combinado do 1º trimestre, uso preventivo de aspirina e pré-natal com obstetra especializado em gravidez de alto risco. Muitas mulheres com história de pré-eclâmpsia têm gestações subsequentes sem complicações.
O que é a síndrome HELLP e é pior que pré-eclâmpsia?
A síndrome HELLP é uma complicação grave da pré-eclâmpsia, com destruição de glóbulos vermelhos, elevação de enzimas do fígado e queda de plaquetas. Ocorre em 5 a 10% dos casos de pré-eclâmpsia e exige resolução do parto após estabilização materna. É considerada uma das formas mais graves dos distúrbios hipertensivos gestacionais.
A pré-eclâmpsia pode aparecer só depois do parto?
Sim. A pré-eclâmpsia pode surgir ou piorar nas primeiras 48 horas pós-parto. Por isso, o monitoramento da pressão continua no puerpério e os anti-hipertensivos são mantidos por pelo menos 6 semanas. Qualquer pressão alta, cefaleia intensa ou sintomas visuais no pós-parto devem ser comunicados imediatamente ao médico.
Pré-natal de alto risco exige acompanhamento especializado
Se você tem fatores de risco para pré-eclâmpsia ou histórico em gestação anterior, a triagem do 1º trimestre e o acompanhamento por obstetra especializado podem salvar vidas. A Dra. Gabriella Dourado oferece pré-natal completo com rastreamento de pré-eclâmpsia em São Paulo.
Agendar pré-natal de alto risco →Conteúdo informativo. Este artigo não substitui a consulta médica. Para avaliação individualizada, procure um obstetra de sua confiança.
Referências: FEBRASGO, American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG), International Society for the Study of Hypertension in Pregnancy (ISSHP), Fetal Medicine Foundation (FMF).