Ginecologia

Colposcopia: o que é, quando é indicada, como é feita e o que esperar dos resultados

📅 Atualizado em maio de 2026 ⏱ Leitura: 12 minutos 👩‍⚕️ Revisado por especialista em ginecologia

Receber a indicação de uma colposcopia costuma gerar ansiedade — especialmente quando surge após um Papanicolau alterado ou um resultado positivo para HPV de alto risco. Mas entender o que é esse exame, por que ele foi pedido e o que acontece durante o procedimento transforma o medo em segurança. A colposcopia é um exame diagnóstico fundamental no rastreamento do câncer do colo do útero e, na maioria das vezes, seus achados são tranquilizadores ou levam a um tratamento simples e eficaz.

📋 Em resumo

  • O que é: exame visual ampliado do colo do útero, vagina e vulva com o colposcópio — não é cirurgia
  • Quando é indicada: Papanicolau alterado (ASC-US com HPV+, ASC-H, LSIL, HSIL, AGC), HPV 16/18 positivo, lesão visível ao exame clínico
  • Como é feita: aplicação de ácido acético e lugol no colo, visualização ampliada, biópsia dirigida das áreas suspeitas
  • Dói? O exame em si é indolor; a biópsia causa leve cólica momentânea
  • Resultado: achados normais, baixo grau (NIC 1) ou alto grau (NIC 2/3) — orienta o tratamento
  • Pós-exame: corrimento escuro (por causa do lugol) e leve sangramento por alguns dias são esperados

O que é a colposcopia

A colposcopia é um exame ginecológico realizado no consultório que utiliza um aparelho óptico de magnificação — o colposcópio — para examinar em detalhe o colo do útero, a vagina e a vulva. O colposcópio funciona como um microscópio binocular de longa distância: fica a cerca de 30 cm da paciente e amplia a visão de 4 a 40 vezes, permitindo ao ginecologista enxergar estruturas vasculares, padrões epiteliais e alterações que seriam invisíveis a olho nu.

A colposcopia não é cirurgia, não requer anestesia geral e não afasta a mulher de suas atividades. É um exame diagnóstico — o objetivo é identificar e mapear áreas suspeitas no colo do útero para, quando necessário, coletar biópsias e direcionar o tratamento com precisão.

Quando a colposcopia é indicada

A colposcopia nunca é o primeiro passo — ela é sempre indicada após um resultado alterado em exames de rastreamento, ou diante de achados clínicos suspeitos:

Papanicolau alterado

  • ASC-US com HPV de alto risco positivo: células escamosas atípicas de significado indeterminado com HPV presente — a colposcopia define se há lesão subjacente
  • ASC-H: células atípicas em que não se pode excluir lesão de alto grau — colposcopia imediata obrigatória
  • LSIL (lesão intraepitelial de baixo grau): colposcopia recomendada, especialmente se persistente ou em mulheres acima de 25 anos
  • HSIL (lesão intraepitelial de alto grau): colposcopia imediata — risco significativo de NIC 2/3 ou carcinoma subjacente
  • AGC (células glandulares atípicas): requer colposcopia com biópsia endocervical, e avaliação endometrial em mulheres acima de 35 anos ou com sangramento
  • Suspeita de carcinoma invasivo: colposcopia imediata com biópsia

Teste de HPV DNA alterado

  • HPV 16 ou 18 positivo: encaminhamento direto para colposcopia, independentemente do resultado do Papanicolau — esses genótipos do HPV têm risco oncogênico muito elevado
  • Outros genótipos de alto risco positivos com Papanicolau alterado: colposcopia indicada

Achados clínicos

  • Lesão visível no colo do útero ao exame especular (irregularidade, ulceração, crescimento anômalo)
  • Sangramento pós-coital recorrente após investigação inicial negativa
  • Condilomas cervicais ou vaginais de aspecto atípico
  • Acompanhamento pós-tratamento de NIC 2/3 (colposcopia de controle)

Papanicolau alterado ou HPV positivo?

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Como se preparar para a colposcopia

  • Não realizar o exame durante a menstruação — o sangue dificulta a visualização do colo. Agendar para pelo menos 5 dias após o fim do fluxo.
  • Evitar relações sexuais nas 48 horas anteriores
  • Não usar duchas vaginais, cremes ou medicamentos intravaginais nas 48 horas antes
  • Não é necessário jejum
  • Pode-se tomar um analgésico leve (ibuprofeno 400 mg ou paracetamol) 30–60 minutos antes do exame para reduzir o desconforto da biópsia, se houver
  • Levar um absorvente — pode haver pequeno sangramento após a biópsia
  • Informar ao médico sobre uso de anticoagulantes, gravidez ou alergia ao iodo

Como é feita a colposcopia — passo a passo

O exame dura entre 10 e 20 minutos no total. A paciente se posiciona da mesma forma que no Papanicolau — em decúbito dorsal com os pés nos estribos.

1. Introdução do espéculo

Um espéculo vaginal é introduzido para expor o colo do útero. O médico remove qualquer muco ou secreção com gaze seca para permitir visualização clara.

2. Avaliação sem reagentes

O colposcópio é posicionado e o colo é avaliado antes da aplicação de qualquer reagente, identificando vascularização, coloração e a zona de transformação — a região crítica entre o epitélio escamoso e o colunar, onde a maioria das lesões se desenvolve.

3. Aplicação de ácido acético 3–5%

Uma solução de ácido acético (vinagre) é aplicada no colo com gaze ou spray. Após 1 a 2 minutos, o médico observa as reações do epitélio:

  • Epitélio normal: não reage — permanece rosado e translúcido
  • Acetobranqueamento: áreas com proliferação celular anormal tornam-se brancas — quanto mais intenso, denso e com bordas mais nítidas, maior a suspeita de lesão de alto grau. Isso ocorre porque o ácido acético coagula as proteínas citoplasmáticas das células com alta relação núcleo/citoplasma (células displásicas).

O ácido acético pode causar leve ardor passageiro — completamente normal.

4. Avaliação dos padrões vasculares

Com filtro verde no colposcópio (que realça os vasos sanguíneos), o médico avalia o padrão vascular do colo:

  • Pontilhado (punctação): vasos vistos em corte transversal, como pontos vermelhos sobre fundo branco — pontos finos são de baixo grau; pontos grosseiros e irregulares sugerem alto grau
  • Mosaico: vasos que delimitam "ladrilhos" no epitélio — mosaico regular/fino é de baixo grau; mosaico grosseiro e irregular sugere alto grau
  • Vasos atípicos: padrão caótico, com ramificações irregulares, calibre variável — sinal de suspeita de invasão

5. Teste de Schiller (aplicação de lugol)

Solução de lugol (iodo) é aplicada após o ácido acético:

  • Epitélio normal (rico em glicogênio): cora de marrom escuro uniforme — iodo positivo
  • Áreas displásicas e carcinoma in situ: pobres em glicogênio, não coram — ficam amarelas ou alaranjadas (iodo negativas ou Schiller positivo)
  • O lugol delimita com precisão a extensão das lesões e orienta o posicionamento das biópsias

O lugol causa coloração marrom intensa da mucosa vaginal — a gestante deve saber que o corrimento escuro nos dias seguintes é completamente normal e esperado.

6. Biópsia dirigida

Quando áreas suspeitas são identificadas, o médico coleta pequenos fragmentos com uma pinça de biópsia (punch) ou cureta de Kevorkian (para o canal cervical). A biópsia é dirigida — colhida exatamente nas áreas mais suspeitas identificadas pelos reagentes.

  • A coleta causa um leve beliscão e possível cólica momentânea — a maioria das mulheres descreve como "pontada rápida"
  • Pode haver leve sangramento; o médico aplica solução hemostática (Monsel ou nitrato de prata) para controlar
  • Geralmente 1 a 3 fragmentos são coletados, dos locais mais suspeitos

Se não houver áreas suspeitas ao colposcópio, a biópsia pode não ser necessária — o médico decide conforme os achados.

A classificação colposcópica (IFCPC 2011)

A nomenclatura internacional da IFCPC (International Federation for Cervical Pathology and Colposcopy) padroniza os achados colposcópicos:

Achado colposcópico Grau Correlação histológica Conduta
Epitélio escamoso normal, ZT tipo 1/2/3 Normal Sem lesão Seguimento conforme rastreamento
Acetobranqueamento tênue, pontilhado/mosaico fino Grau 1 (baixo grau) NIC 1 / HPV Biópsia dirigida; seguimento em 12 meses
Acetobranqueamento denso, mosaico/pontilhado grosseiro, sinal da borda interna Grau 2 (alto grau) NIC 2 / NIC 3 Biópsia + tratamento (CAF/LEEP)
Vasos atípicos, ulceração, necrose, lesão friável Suspeita de invasão Carcinoma invasivo Biópsia urgente + encaminhamento oncológico
Condiloma, pólipo, inflamação, endometriose cervical Miscelâneos Variável — geralmente benigno Depende do achado específico

📊 O que cada resultado significa (em linguagem simples)

Resultado O que significa
NormalSem lesões — seguimento de rotina
NIC 1Alteração leve (baixo grau) — costuma regredir sozinha; acompanhamento
NIC 2Alteração moderada (alto grau) — geralmente tratada
NIC 3Alteração acentuada / carcinoma in situ (alto grau) — exige tratamento
Câncer invasorRaro — encaminhamento à oncologia ginecológica

NIC = neoplasia intraepitelial cervical. "Alto grau" não significa câncer — significa uma lesão que merece tratamento para impedir que evolua para câncer no futuro.

Cuidados após a colposcopia e biópsia

  • Corrimento escuro (marrom/preto): causado pelo lugol — normal por 2 a 5 dias
  • Pequeno sangramento ou corrimento rosado: esperado por 1 a 3 dias após a biópsia
  • Cólicas leves: comuns nas primeiras horas; paracetamol ou ibuprofeno aliviam
  • Evitar relações sexuais por 5 a 7 dias após a biópsia
  • Não usar tampão interno por 5 a 7 dias
  • Banho de chuveiro liberado normalmente; evitar imersão em banheira ou piscina por 5 dias
⚠️ Procure atendimento se apresentar: sangramento vaginal intenso (mais que uma menstruação normal), febre acima de 38°C, dor pélvica intensa e progressiva, ou corrimento com odor fétido — que podem indicar infecção ou sangramento significativo no local da biópsia.

Interpretando o resultado: do laudo colposcópico à conduta

O resultado final da colposcopia combina os achados visuais com a histologia da biópsia (quando coletada). O laudo histológico do fragmento é o definitivo:

  • Negativo para NIC / HPV apenas (coilocitose): seguimento com Papanicolau e/ou HPV DNA em 12 meses
  • NIC 1 (baixo grau): a maioria regride espontaneamente em 1–2 anos. Conduta: seguimento com Papanicolau e colposcopia em 12 meses. Tratamento não é necessário na maioria dos casos.
  • NIC 2 (alto grau moderado): risco intermediário de progressão. Em mulheres acima de 25 anos: tratamento geralmente indicado (CAF/LEEP). Em adolescentes e mulheres jovens que desejam engravidar: seguimento pode ser considerado com colposcopia a cada 6 meses.
  • NIC 3 / carcinoma in situ (alto grau grave): tratamento obrigatório com CAF/LEEP ou conização a frio. Seguimento rigoroso pós-tratamento com HPV DNA e colposcopia.
  • Carcinoma microinfiltrativo (estádio IA1): conização a frio para avaliação completa das margens; histerectomia ou tratamento conservador conforme profundidade de invasão e desejo de fertilidade.
  • Carcinoma invasivo: encaminhamento para oncologia ginecológica. Saiba mais sobre o câncer do colo do útero e seu estadiamento.

Colposcopia na gravidez

A colposcopia é segura durante a gestação e deve ser realizada quando indicada — especialmente se há suspeita de NIC 3 ou carcinoma invasivo, que não podem aguardar o pós-parto. O objetivo durante a gestação é excluir invasão: se o diagnóstico for de NIC 1 ou 2, o tratamento é postergado para o puerpério (pelo menos 6 semanas após o parto).

A biópsia durante a gravidez deve ser realizada com cautela — apenas quando estritamente necessária para afastar invasão — pois o colo gestante é mais vascularizado e o risco de sangramento é maior. Conização e CAF/LEEP são contraindicadas durante a gestação (exceto suspeita firme de carcinoma invasivo).

A colposcopia não é o fim do rastreamento — é uma etapa mais próxima da resposta definitiva. Na maioria das vezes, o que ela encontra é tratável com um procedimento simples. Chegar a ela já é sinal de que a prevenção está funcionando.

Perguntas Frequentes

A colposcopia dói?

O exame em si é indolor — o colposcópio fica fora do corpo e apenas visualiza o colo. A aplicação do ácido acético pode causar um leve ardor passageiro. Se for necessária biópsia, você sentirá uma pontada rápida e possível cólica momentânea, semelhante a uma cólica menstrual. Tomar um analgésico 30 minutos antes ajuda a reduzir o desconforto.

Por que meu Papanicolau deu alterado e agora preciso de colposcopia?

O Papanicolau é um exame de rastreamento — ele identifica células com alterações que precisam de investigação mais detalhada. A colposcopia é o próximo passo: ela examina o colo com aumento óptico para localizar e avaliar essas áreas com precisão. Na maioria dos casos, os achados são de baixo grau ou benignos.

Se meu HPV deu positivo para o tipo 16 ou 18, preciso de colposcopia mesmo com Papanicolau normal?

Sim. Os genótipos HPV 16 e 18 têm risco oncogênico muito elevado, e as diretrizes indicam colposcopia diretamente, mesmo que o Papanicolau não mostre alterações. O rastreamento combinado por HPV DNA pode detectar infecções antes de qualquer alteração celular visível no Papanicolau.

Minha colposcopia mostrou NIC 1. Isso significa que vou ter câncer?

Não. NIC 1 é uma lesão de baixo grau causada pelo HPV, e mais de 70% dos casos regridem espontaneamente em 1 a 2 anos sem nenhum tratamento. O acompanhamento é feito com Papanicolau e colposcopia repetidos em 12 meses. Tratamento imediato não costuma ser necessário na maioria das mulheres adultas.

Posso fazer colposcopia estando grávida?

Sim, a colposcopia é segura na gestação e deve ser realizada quando indicada. O objetivo durante a gravidez é descartar invasão. Se o resultado for NIC 1 ou 2, o tratamento é adiado para após o parto. A biópsia em grávidas só é feita quando estritamente necessária, pois o colo está mais vascularizado.

Depois da biópsia, como fica o corrimento?

É normal ter corrimento escuro (marrom ou preto) por 2 a 5 dias após o exame — causado pelo lugol (iodo) aplicado durante o procedimento. Também pode haver leve sangramento ou corrimento rosado por 1 a 3 dias. Se o sangramento for intenso, houver febre ou dor forte, procure seu médico.

Quanto tempo demora para sair o resultado da biópsia da colposcopia?

O resultado histopatológico da biópsia geralmente fica pronto em 7 a 15 dias úteis, dependendo do laboratório. O laudo final combina os achados visuais da colposcopia com o resultado do tecido analisado pelo patologista, determinando a conduta mais adequada.

Quanto tempo demora a colposcopia?

O exame completo dura em média 10 a 20 minutos, incluindo a aplicação dos reagentes (ácido acético e lugol) e, se necessária, a biópsia dirigida. É um procedimento de consultório — você vai embora logo após.

Preciso de anestesia para fazer a colposcopia?

Não. A colposcopia não exige anestesia — o exame é indolor e o colposcópio nem encosta no corpo. Mesmo quando há biópsia, a coleta causa apenas uma pontada rápida, geralmente sem necessidade de anestesia. Um analgésico simples tomado 30 a 60 minutos antes ajuda a reduzir o desconforto.

Posso trabalhar e ter relações sexuais depois da colposcopia?

Pode retomar o trabalho e as atividades normais no mesmo dia — a colposcopia não exige afastamento. Já as relações sexuais devem ser evitadas por 5 a 7 dias apenas quando foi feita biópsia, para permitir a cicatrização do local e reduzir o risco de sangramento. Sem biópsia, não há restrição.

A colposcopia detecta câncer?

A colposcopia ajuda a identificar áreas suspeitas e a direcionar a biópsia, mas quem confirma o diagnóstico de câncer é o exame do tecido (histopatológico) coletado na biópsia. O grande valor da colposcopia é detectar lesões pré-cancerosas (NIC) ainda na fase em que o tratamento é simples e impede a evolução para câncer.

Todo HPV precisa de colposcopia?

Não. A maioria das infecções por HPV é transitória e regride sozinha, sem necessidade de colposcopia. O exame é indicado em situações específicas: HPV dos tipos 16 ou 18, HPV de alto risco associado a Papanicolau alterado, ou alterações citológicas que exijam investigação. Seu médico define a conduta conforme o tipo de HPV e o resultado do Papanicolau.

Papanicolau alterado ou HPV positivo? A colposcopia esclarece.

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Conteúdo informativo. Este artigo não substitui a consulta médica. Para avaliação individualizada, procure um ginecologista.

Referências: IFCPC (International Federation for Cervical Pathology and Colposcopy) — Nomenclatura 2011, FEBRASGO, SPTGIC (Sociedade Brasileira de Patologia do Trato Genital Inferior e Colposcopia), American Society for Colposcopy and Cervical Pathology (ASCCP 2019 Guidelines), INCA.