Como o mioma aparece ao ultrassom
O mioma uterino (leiomioma) é uma neoplasia benigna originada das células musculares lisas do miométrio. Ao ultrassom, apresenta características típicas que permitem o diagnóstico na maioria dos casos:
- Ecotextura: habitualmente hipoecogênico (mais escuro que o miométrio circundante), podendo ser isoecogênico ou heterogêneo em miomas maiores ou com degeneração
- Formato: arredondado ou ovalado, bem delimitado, com pseudocápsula
- Sombra acústica posterior: presente quando há calcificações — imagem muito característica
- Vascularização ao Doppler: padrão periférico em anel ("ring of fire") é típico; vascularização central sugere outros diagnósticos
- Efeito de massa: pode deslocar, comprimir ou distorcer a cavidade endometrial e o contorno uterino
Classificação FIGO: de 0 a 8
A classificação FIGO (Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia) padroniza a descrição dos miomas de acordo com a relação com a cavidade uterina e a parede do útero. É a nomenclatura mais utilizada atualmente e deve constar no laudo ultrassonográfico.
| Tipo FIGO | Localização | Descrição | Principal impacto clínico |
|---|---|---|---|
| 0 | Submucoso pediculado | Inteiramente dentro da cavidade uterina, preso por pedículo | Sangramento intenso, infertilidade, histeroscopia indicada |
| 1 | Submucoso < 50% intramural | Mais da metade do nódulo projeta-se para dentro da cavidade uterina | Sangramento, distorção da cavidade |
| 2 | Submucoso ≥ 50% intramural | Menos da metade na cavidade; a maior parte do nódulo está no miométrio | Sangramento, pode ser tratado por histeroscopia |
| 3 | Intramural (contato endometrial) | Inteiramente no miométrio, mas em contato com o endométrio | Sangramento, pode impactar implantação |
| 4 | Intramural puro | Inteiramente no miométrio, sem contato com cavidade ou serosa | Dor pélvica, aumento do útero; menor impacto na fertilidade |
| 5 | Subseroso ≥ 50% intramural | A maior parte do nódulo está no miométrio; menos da metade projeta-se para fora (serosa) | Compressão de órgãos adjacentes |
| 6 | Subseroso < 50% intramural | A maior parte do nódulo projeta-se para fora do útero; menos de 50% no miométrio | Aumento do volume uterino, compressão |
| 7 | Subseroso pediculado | Preso à superfície uterina por pedículo, sem contato com miométrio | Pode torcer (torção do pedículo) — dor aguda |
| 8 | Outros | Cervical, ligamentar ou parasita (sem conexão com útero) | Variável conforme localização |
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Agendar consulta →Os três tipos principais: submucoso, intramural e subseroso
Mioma submucoso (FIGO 0, 1 e 2)
É o tipo de maior relevância clínica, mesmo quando pequeno. Ao crescer em direção à cavidade uterina, distorce o endométrio, prejudica a implantação do embrião e causa sangramento uterino anormal — frequentemente menorragia (cólica e fluxo intenso).
Ao ultrassom transvaginal, o laudo deve informar a porcentagem do nódulo dentro da cavidade e a distância entre o nódulo e a serosa — dados essenciais para planejar a histeroscopia.
Mioma intramural (FIGO 3, 4 e 5)
O mais comum. Localizado dentro da parede muscular do útero, pode aumentar muito o volume uterino sem invadir a cavidade. Miomas intramurais grandes (≥ 4–5 cm) podem causar compressão, dor pélvica, sensação de peso, compressão vesical (polaciúria) e dificuldade intestinal.
Miomas intramurais próximos à cavidade (tipo 3) podem impactar a fertilidade mesmo sem distorção franca — esse é um ponto de debate na literatura, e cada caso deve ser avaliado individualmente.
Mioma subseroso (FIGO 5, 6 e 7)
Cresce para fora do útero, em direção à cavidade abdominal. Geralmente não causa sangramento, pois está distante do endométrio. Os sintomas predominantes são compressão de órgãos vizinhos (bexiga, reto) e aumento do volume abdominal.
O mioma subseroso pediculado (tipo 7) tem risco de torção do pedículo — urgência cirúrgica que se manifesta com dor pélvica aguda intensa.
Qual classificação FIGO costuma precisar de cirurgia?
Importante: não é o número FIGO isolado que indica cirurgia — a decisão depende dos sintomas. Mas a classificação ajuda a prever quais tipos costumam ser tratados e por qual via:
- FIGO 0, 1 e 2 (submucosos): mesmo pequenos, são os que mais causam sangramento e impacto na fertilidade — frequentemente tratados, e a via de escolha é a histeroscopia (sem cortes).
- FIGO 3 e 4 (intramurais): operados quando são grandes, sintomáticos (dor, compressão) ou quando impactam a fertilidade — geralmente por miomectomia laparoscópica ou laparotômica.
- FIGO 5 e 6 (subserosos): cirurgia indicada principalmente por compressão de órgãos ou aumento importante do volume.
- FIGO 7 (subseroso pediculado): o risco de torção do pedículo pode, por si só, motivar a remoção.
- Qualquer tipo assintomático: em geral, apenas acompanhamento — não se opera mioma só porque ele existe.
O tamanho não define a indicação, mas sim a via cirúrgica (histeroscopia, laparoscopia ou laparotomia). Veja os detalhes no artigo principal sobre tratamento do mioma uterino.
Mioma FIGO 3 causa infertilidade?
O mioma FIGO 3 é intramural, mas encosta no endométrio sem invadir a cavidade uterina. Por essa proximidade, ele pode reduzir as taxas de implantação em alguns estudos — mas o tema é controverso na literatura, e o impacto é menor do que o dos miomas submucosos (FIGO 0–2), que distorcem a cavidade.
Na prática:
- Como o FIGO 3 não distorce a cavidade, muitas mulheres engravidam normalmente.
- A indicação de retirar o nódulo antes de tentar engravidar (inclusive antes de uma fertilização in vitro) é individualizada — considera o tamanho, os sintomas e o histórico reprodutivo.
Ou seja: ter um FIGO 3 não significa infertilidade — significa que vale uma avaliação especializada quando há dificuldade para engravidar.
Mioma FIGO 4 é perigoso?
Não. O FIGO 4 é o mioma intramural puro — totalmente dentro da parede muscular, sem contato com a cavidade nem com a superfície externa. É um tumor benigno e, na maioria das vezes, de baixo impacto:
- Costuma ser assintomático quando pequeno e não distorce a cavidade — tem pouco efeito sobre a fertilidade.
- Quando grande, pode causar sensação de peso, aumento do volume do útero, cólicas e compressão da bexiga ou do intestino.
- Não vira câncer: o leiomiossarcoma é uma entidade rara e distinta, não a evolução de um mioma comum.
Em resumo, "perigoso" não é o termo certo: o FIGO 4 só requer tratamento se causar sintomas. Caso contrário, o acompanhamento periódico com ultrassom é suficiente.
O que o laudo ultrassonográfico deve descrever
Um laudo bem elaborado de útero com miomatose deve conter, para cada nódulo identificado:
| Dado | Por que é importante |
|---|---|
| Número de nódulos | Útero multifibromatoso pode requerer histerectomia; único nódulo pode ser tratado por miomectomia |
| Localização (tipo FIGO) | Define impacto clínico e via de tratamento |
| Dimensões em três planos (mm) | Essencial para acompanhamento evolutivo e planejamento cirúrgico |
| Ecotextura (hipo/iso/heterogêneo) | Heterogeneidade pode indicar degeneração — altera o manejo |
| Calcificações | Sombra acústica é marcador de mioma antigo e geralmente inativo |
| Distância da serosa e da cavidade | Para miomas submucosos: define acesso histeroscópico vs. laparoscópico |
| Volume uterino total | Útero aumentado modifica via de acesso cirúrgico e resposta ao tratamento hormonal |
Degeneração do mioma: quando o laudo fica atípico
Miomas volumosos podem sofrer degeneração — alteração da sua composição interna por suprimento sanguíneo insuficiente. O tipo de degeneração modifica a aparência ao ultrassom:
- Degeneração hialina: mais comum; aspecto homogêneo, ecotextura reduzida
- Degeneração cística: áreas anecoicas (escuras) dentro do nódulo, sem vascularização — não confundir com cisto ovariano
- Degeneração hemorrágica (carnosa): frequente na gestação; conteúdo heterogêneo, doloroso — conservadora na maioria dos casos
- Degeneração calcificada: calcificações com sombra acústica — mioma "antigo", geralmente inativo, sem necessidade de intervenção
- Degeneração sarcomatosa: rara (< 1%), mas importante. Sinal de alerta: crescimento rápido, especialmente na pós-menopausa
Mioma na gestação: o que o ultrassom monitora
Miomas podem crescer durante a gravidez por estímulo estrogênico, especialmente no 1º e 2º trimestres. O principal risco é a degeneração hemorrágica (carnosa) — que causa dor intensa, mas é tratada conservadoramente com analgesia.
O ultrassom obstétrico deve registrar:
- Localização do mioma em relação à placenta (mioma retroplacentário aumenta risco de descolamento)
- Miomas no segmento inferior: podem obstruir o canal de parto e indicar cesárea
- Evolução do tamanho ao longo da gestação
Perguntas frequentes
O que significa mioma intramural no ultrassom?
Mioma intramural está localizado dentro da parede muscular do útero, sem contato com a cavidade uterina nem com a superfície externa. É o tipo mais comum. Ao ultrassom aparece como nódulo hipoecogênico no miométrio, podendo distorcer o contorno uterino quando grande.
Qual a diferença entre mioma subseroso e submucoso?
O subseroso cresce para fora do útero (não causa sangramento, mas pode comprimir órgãos). O submucoso cresce para dentro, distorce a cavidade endometrial e é o principal responsável por sangramento intenso e infertilidade — relevante mesmo quando pequeno.
O que é a classificação FIGO de miomas?
Sistema da Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia que numera os miomas de 0 a 8 conforme a relação com a cavidade uterina e a parede do útero. Define impacto clínico e orienta o tipo de tratamento mais adequado.
Mioma submucoso sempre causa sangramento?
Não necessariamente, mas é o tipo com maior potencial para isso. Mesmo miomas submucosos pequenos podem causar menorragia (fluxo intenso) por distorção e hipervascularização do endométrio.
Como o radiologista descreve o mioma no laudo?
O laudo deve conter: localização com classificação FIGO, número de nódulos, dimensões em três planos, ecotextura, presença de calcificações, distância da serosa e da cavidade endometrial, e volume uterino total.
Ultrassom transvaginal é melhor para avaliar mioma?
Sim, especialmente para miomas submucosos. O transdutor intracavitário tem melhor resolução para avaliar a relação com a cavidade endometrial — fundamental para a classificação FIGO e o planejamento de histeroscopia. Para miomas grandes ou úteros muito aumentados, o ultrassom abdominal complementa.
Mioma cresce na menopausa?
Geralmente não — miomas dependem de estrogênio e tendem a regredir após a menopausa. Se crescer nessa fase, é sinal de alerta para investigação de degeneração sarcomatosa — rara, mas possível. A ressonância magnética é o exame de escolha.
Mioma Uterino: Avaliação Especializada com Ultrassonografia de Alta Resolução
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Agendar ultrassonografia ginecológica →Conteúdo informativo. Este artigo não substitui a consulta médica. Para avaliação individualizada, procure um especialista em ginecologia de sua confiança.
Referências: FIGO Fibroid Subclassification System, ACOG Practice Bulletin n.228, FEBRASGO, Munro MG et al. (2011 FIGO), Stewart EA et al. (NEJM 2015).