Ultrassonografia

Mioma no laudo de ultrassom: tipos, localizações e classificação FIGO

📅 Atualizado em maio de 2026 ⏱ Leitura: 7 minutos 👩‍⚕️ Revisado por especialista em Ginecologia e Ultrassonografia

Como o mioma aparece ao ultrassom

O mioma uterino (leiomioma) é uma neoplasia benigna originada das células musculares lisas do miométrio. Ao ultrassom, apresenta características típicas que permitem o diagnóstico na maioria dos casos:

  • Ecotextura: habitualmente hipoecogênico (mais escuro que o miométrio circundante), podendo ser isoecogênico ou heterogêneo em miomas maiores ou com degeneração
  • Formato: arredondado ou ovalado, bem delimitado, com pseudocápsula
  • Sombra acústica posterior: presente quando há calcificações — imagem muito característica
  • Vascularização ao Doppler: padrão periférico em anel ("ring of fire") é típico; vascularização central sugere outros diagnósticos
  • Efeito de massa: pode deslocar, comprimir ou distorcer a cavidade endometrial e o contorno uterino
Importante: Miomas muito grandes ou com degeneração (hialina, cística, hemorrágica, calcificada) podem ter aparência atípica ao ultrassom. Nesses casos, a ressonância magnética complementa a avaliação e diferencia mioma de adenomiose ou sarcoma.

Classificação FIGO: de 0 a 8

A classificação FIGO (Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia) padroniza a descrição dos miomas de acordo com a relação com a cavidade uterina e a parede do útero. É a nomenclatura mais utilizada atualmente e deve constar no laudo ultrassonográfico.

Tipo FIGO Localização Descrição Principal impacto clínico
0 Submucoso pediculado Inteiramente dentro da cavidade uterina, preso por pedículo Sangramento intenso, infertilidade, histeroscopia indicada
1 Submucoso < 50% intramural Mais da metade do nódulo projeta-se para dentro da cavidade uterina Sangramento, distorção da cavidade
2 Submucoso ≥ 50% intramural Menos da metade na cavidade; a maior parte do nódulo está no miométrio Sangramento, pode ser tratado por histeroscopia
3 Intramural (contato endometrial) Inteiramente no miométrio, mas em contato com o endométrio Sangramento, pode impactar implantação
4 Intramural puro Inteiramente no miométrio, sem contato com cavidade ou serosa Dor pélvica, aumento do útero; menor impacto na fertilidade
5 Subseroso ≥ 50% intramural A maior parte do nódulo está no miométrio; menos da metade projeta-se para fora (serosa) Compressão de órgãos adjacentes
6 Subseroso < 50% intramural A maior parte do nódulo projeta-se para fora do útero; menos de 50% no miométrio Aumento do volume uterino, compressão
7 Subseroso pediculado Preso à superfície uterina por pedículo, sem contato com miométrio Pode torcer (torção do pedículo) — dor aguda
8 Outros Cervical, ligamentar ou parasita (sem conexão com útero) Variável conforme localização

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Os três tipos principais: submucoso, intramural e subseroso

Mioma submucoso (FIGO 0, 1 e 2)

É o tipo de maior relevância clínica, mesmo quando pequeno. Ao crescer em direção à cavidade uterina, distorce o endométrio, prejudica a implantação do embrião e causa sangramento uterino anormal — frequentemente menorragia (cólica e fluxo intenso).

Ao ultrassom transvaginal, o laudo deve informar a porcentagem do nódulo dentro da cavidade e a distância entre o nódulo e a serosa — dados essenciais para planejar a histeroscopia.

Mioma intramural (FIGO 3, 4 e 5)

O mais comum. Localizado dentro da parede muscular do útero, pode aumentar muito o volume uterino sem invadir a cavidade. Miomas intramurais grandes (≥ 4–5 cm) podem causar compressão, dor pélvica, sensação de peso, compressão vesical (polaciúria) e dificuldade intestinal.

Miomas intramurais próximos à cavidade (tipo 3) podem impactar a fertilidade mesmo sem distorção franca — esse é um ponto de debate na literatura, e cada caso deve ser avaliado individualmente.

Mioma subseroso (FIGO 5, 6 e 7)

Cresce para fora do útero, em direção à cavidade abdominal. Geralmente não causa sangramento, pois está distante do endométrio. Os sintomas predominantes são compressão de órgãos vizinhos (bexiga, reto) e aumento do volume abdominal.

O mioma subseroso pediculado (tipo 7) tem risco de torção do pedículo — urgência cirúrgica que se manifesta com dor pélvica aguda intensa.

Qual classificação FIGO costuma precisar de cirurgia?

Importante: não é o número FIGO isolado que indica cirurgia — a decisão depende dos sintomas. Mas a classificação ajuda a prever quais tipos costumam ser tratados e por qual via:

  • FIGO 0, 1 e 2 (submucosos): mesmo pequenos, são os que mais causam sangramento e impacto na fertilidade — frequentemente tratados, e a via de escolha é a histeroscopia (sem cortes).
  • FIGO 3 e 4 (intramurais): operados quando são grandes, sintomáticos (dor, compressão) ou quando impactam a fertilidade — geralmente por miomectomia laparoscópica ou laparotômica.
  • FIGO 5 e 6 (subserosos): cirurgia indicada principalmente por compressão de órgãos ou aumento importante do volume.
  • FIGO 7 (subseroso pediculado): o risco de torção do pedículo pode, por si só, motivar a remoção.
  • Qualquer tipo assintomático: em geral, apenas acompanhamento — não se opera mioma só porque ele existe.

O tamanho não define a indicação, mas sim a via cirúrgica (histeroscopia, laparoscopia ou laparotomia). Veja os detalhes no artigo principal sobre tratamento do mioma uterino.

Mioma FIGO 3 causa infertilidade?

O mioma FIGO 3 é intramural, mas encosta no endométrio sem invadir a cavidade uterina. Por essa proximidade, ele pode reduzir as taxas de implantação em alguns estudos — mas o tema é controverso na literatura, e o impacto é menor do que o dos miomas submucosos (FIGO 0–2), que distorcem a cavidade.

Na prática:

  • Como o FIGO 3 não distorce a cavidade, muitas mulheres engravidam normalmente.
  • A indicação de retirar o nódulo antes de tentar engravidar (inclusive antes de uma fertilização in vitro) é individualizada — considera o tamanho, os sintomas e o histórico reprodutivo.

Ou seja: ter um FIGO 3 não significa infertilidade — significa que vale uma avaliação especializada quando há dificuldade para engravidar.

Mioma FIGO 4 é perigoso?

Não. O FIGO 4 é o mioma intramural puro — totalmente dentro da parede muscular, sem contato com a cavidade nem com a superfície externa. É um tumor benigno e, na maioria das vezes, de baixo impacto:

  • Costuma ser assintomático quando pequeno e não distorce a cavidade — tem pouco efeito sobre a fertilidade.
  • Quando grande, pode causar sensação de peso, aumento do volume do útero, cólicas e compressão da bexiga ou do intestino.
  • Não vira câncer: o leiomiossarcoma é uma entidade rara e distinta, não a evolução de um mioma comum.

Em resumo, "perigoso" não é o termo certo: o FIGO 4 só requer tratamento se causar sintomas. Caso contrário, o acompanhamento periódico com ultrassom é suficiente.

O que o laudo ultrassonográfico deve descrever

Um laudo bem elaborado de útero com miomatose deve conter, para cada nódulo identificado:

Dado Por que é importante
Número de nódulos Útero multifibromatoso pode requerer histerectomia; único nódulo pode ser tratado por miomectomia
Localização (tipo FIGO) Define impacto clínico e via de tratamento
Dimensões em três planos (mm) Essencial para acompanhamento evolutivo e planejamento cirúrgico
Ecotextura (hipo/iso/heterogêneo) Heterogeneidade pode indicar degeneração — altera o manejo
Calcificações Sombra acústica é marcador de mioma antigo e geralmente inativo
Distância da serosa e da cavidade Para miomas submucosos: define acesso histeroscópico vs. laparoscópico
Volume uterino total Útero aumentado modifica via de acesso cirúrgico e resposta ao tratamento hormonal

Degeneração do mioma: quando o laudo fica atípico

Miomas volumosos podem sofrer degeneração — alteração da sua composição interna por suprimento sanguíneo insuficiente. O tipo de degeneração modifica a aparência ao ultrassom:

  • Degeneração hialina: mais comum; aspecto homogêneo, ecotextura reduzida
  • Degeneração cística: áreas anecoicas (escuras) dentro do nódulo, sem vascularização — não confundir com cisto ovariano
  • Degeneração hemorrágica (carnosa): frequente na gestação; conteúdo heterogêneo, doloroso — conservadora na maioria dos casos
  • Degeneração calcificada: calcificações com sombra acústica — mioma "antigo", geralmente inativo, sem necessidade de intervenção
  • Degeneração sarcomatosa: rara (< 1%), mas importante. Sinal de alerta: crescimento rápido, especialmente na pós-menopausa
Sinal de alerta: Mioma que cresce rapidamente na pós-menopausa — período em que deveria regredir — precisa de investigação para excluir leiomiossarcoma ou STUMP. A ressonância magnética é o exame de escolha nessa situação.

Mioma na gestação: o que o ultrassom monitora

Miomas podem crescer durante a gravidez por estímulo estrogênico, especialmente no 1º e 2º trimestres. O principal risco é a degeneração hemorrágica (carnosa) — que causa dor intensa, mas é tratada conservadoramente com analgesia.

O ultrassom obstétrico deve registrar:

  • Localização do mioma em relação à placenta (mioma retroplacentário aumenta risco de descolamento)
  • Miomas no segmento inferior: podem obstruir o canal de parto e indicar cesárea
  • Evolução do tamanho ao longo da gestação

Perguntas frequentes

O que significa mioma intramural no ultrassom?

Mioma intramural está localizado dentro da parede muscular do útero, sem contato com a cavidade uterina nem com a superfície externa. É o tipo mais comum. Ao ultrassom aparece como nódulo hipoecogênico no miométrio, podendo distorcer o contorno uterino quando grande.

Qual a diferença entre mioma subseroso e submucoso?

O subseroso cresce para fora do útero (não causa sangramento, mas pode comprimir órgãos). O submucoso cresce para dentro, distorce a cavidade endometrial e é o principal responsável por sangramento intenso e infertilidade — relevante mesmo quando pequeno.

O que é a classificação FIGO de miomas?

Sistema da Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia que numera os miomas de 0 a 8 conforme a relação com a cavidade uterina e a parede do útero. Define impacto clínico e orienta o tipo de tratamento mais adequado.

Mioma submucoso sempre causa sangramento?

Não necessariamente, mas é o tipo com maior potencial para isso. Mesmo miomas submucosos pequenos podem causar menorragia (fluxo intenso) por distorção e hipervascularização do endométrio.

Como o radiologista descreve o mioma no laudo?

O laudo deve conter: localização com classificação FIGO, número de nódulos, dimensões em três planos, ecotextura, presença de calcificações, distância da serosa e da cavidade endometrial, e volume uterino total.

Ultrassom transvaginal é melhor para avaliar mioma?

Sim, especialmente para miomas submucosos. O transdutor intracavitário tem melhor resolução para avaliar a relação com a cavidade endometrial — fundamental para a classificação FIGO e o planejamento de histeroscopia. Para miomas grandes ou úteros muito aumentados, o ultrassom abdominal complementa.

Mioma cresce na menopausa?

Geralmente não — miomas dependem de estrogênio e tendem a regredir após a menopausa. Se crescer nessa fase, é sinal de alerta para investigação de degeneração sarcomatosa — rara, mas possível. A ressonância magnética é o exame de escolha.

Mioma Uterino: Avaliação Especializada com Ultrassonografia de Alta Resolução

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Conteúdo informativo. Este artigo não substitui a consulta médica. Para avaliação individualizada, procure um especialista em ginecologia de sua confiança.

Referências: FIGO Fibroid Subclassification System, ACOG Practice Bulletin n.228, FEBRASGO, Munro MG et al. (2011 FIGO), Stewart EA et al. (NEJM 2015).