As Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) — anteriormente chamadas de DSTs (Doenças Sexualmente Transmissíveis) — são infecções causadas por vírus, bactérias, fungos ou protozoários transmitidos principalmente pelo contato sexual. A OMS estima que ocorrem mais de 1 milhão de novas infecções curáveis por dia no mundo. No Brasil, sífilis, HPV, herpes, clamídia e gonorreia estão entre as mais prevalentes. Muitas são assintomáticas — e por isso frequentemente não diagnosticadas. Conhecer os sintomas, fazer rastreamento regular e usar preservativo são as principais ferramentas de proteção.
| IST | Agente | Principal via de transmissão | Tratamento / Cura |
|---|---|---|---|
| Sífilis | Treponema pallidum | Sexual / vertical | Penicilina — curável |
| HPV | Papilomavírus humano | Contato pele a pele / sexual | Sem cura — vacina preventiva |
| Herpes genital | HSV-1 / HSV-2 | Contato direto com lesão / assintomático | Aciclovir / valaciclovir — sem cura |
| Clamídia | Chlamydia trachomatis | Sexual / vertical | Azitromicina / doxiciclina — curável |
| Gonorreia | Neisseria gonorrhoeae | Sexual / vertical (conjuntivite neonatal) | Ceftriaxona — curável |
| Tricomoníase | Trichomonas vaginalis | Sexual | Metronidazol — curável |
| HIV | Vírus HIV | Sexual / sanguínea / vertical | TARV — sem cura, controlável |
| Hepatite B | HBV | Sexual / sanguínea / vertical | Vacina preventiva — tratamento disponível |
📋 Principais ISTs e seus agentes
- Sífilis: Treponema pallidum (bactéria) — curável com penicilina
- HPV: Papilomavírus humano (vírus) — prevenível com vacina
- Herpes genital: HSV-2 e HSV-1 (vírus) — sem cura, mas controlável
- Clamídia: Chlamydia trachomatis (bactéria) — curável; frequentemente assintomática
- Gonorreia: Neisseria gonorrhoeae (bactéria) — curável; resistência crescente
- HIV: Vírus da Imunodeficiência Humana — sem cura, mas tratável e controlável
- Hepatite B: HBV (vírus) — prevenível com vacina; tratamento disponível
- Hepatite C: HCV (vírus) — cura em >95% com DAA
- Tricomoníase: Trichomonas vaginalis (protozoário) — curável com metronidazol
Por que as mulheres são mais vulneráveis às ISTs
Biologicamente, as mulheres têm maior risco de adquirir ISTs no contato sexual com parceiros infectados, comparado ao inverso:
- A mucosa vaginal tem área de exposição maior que a uretra masculina
- Sêmen permanece na vagina por horas após a relação — contato prolongado
- Microlesões cervicais e vaginais facilitam a entrada de patógenos
- Muitas ISTs são mais frequentemente assintomáticas em mulheres — atraso no diagnóstico
- Complicações como DIP, infertilidade e câncer cervical são exclusivas da anatomia feminina
Rastreio de ISTs no pré-natal ou em consulta ginecológica
A Dra. Gabriella Dourado realiza rastreamento completo de ISTs em São Paulo, com orientação sobre prevenção, tratamento e acompanhamento do parceiro.
Agendar rastreio de ISTs →Sífilis: a grande simuladora
A sífilis é causada pela espiroqueta Treponema pallidum e tem estágios bem definidos. Está em ressurgência no Brasil — especialmente a sífilis congênita (transmissão para o bebê). O rastreamento adequado durante o pré-natal é essencial para a prevenção.
Fases da sífilis
Sífilis primária (10–90 dias após infecção)
- Cancro duro (úlcera de Hunter): úlcera única, indolor, de borda endurecida, fundo limpo — genitais, vagina, colo do útero, ânus, lábios
- Linfonodomegalia regional indolor
- Resolve espontaneamente em 3–6 semanas mesmo sem tratamento — mas a infecção continua
Sífilis secundária (6 semanas–6 meses após primária)
- Roséola sifilítica: exantema maculopapular que acomete palmas e plantas (característico!)
- Condiloma plano (latum) — lesões úmidas nas genitais e períneo
- Alopecia em "traça"
- Adenopatia generalizada
- Febre, mal-estar, cefaleia
- Altamente contagiosa
Sífilis latente (sem sintomas)
Após a fase secundária, a sífilis entra em período de latência — recente (<1 ano) ou tardia (>1 ano). Sem sintomas, mas a sorologia é positiva. Transmissão possível na fase latente recente.
Sífilis terciária (anos–décadas depois)
- Gomas sifilíticas (lesões granulomatosas) — pele, ossos, mucosas
- Neurossífilis — meningite, comprometimento neurológico, demência
- Cardiovascular — aneurisma de aorta, insuficiência aórtica
Sífilis congênita
Transmissão da mãe infectada para o feto (principalmente no 2º e 3º trimestres). Causa aborto, natimorto, prematuridade, sepse neonatal, malformações ósseas, surdez, cegueira — um dos maiores problemas de saúde pública no Brasil atualmente.
Diagnóstico e tratamento
- Diagnóstico: VDRL (teste não treponêmico — triagem e seguimento) + FTA-Abs ou TPHA (treponêmico — confirmatório)
- Tratamento: penicilina benzatina (única opção para sífilis congênita e gestante)
- Primária/Secundária/Latente recente: penicilina benzatina 2.400.000 UI IM dose única
- Latente tardia/Terciária: penicilina benzatina 2.400.000 UI IM, 3 doses semanais
- Neurossífilis: penicilina G cristalina EV por 10–14 dias
- Tratar parceiros
- VDRL de controle em 3, 6 e 12 meses após tratamento
- Rastreamento no pré-natal: VDRL no 1º, 2º e 3º trimestres
HPV: o mais prevalente
O HPV (Papilomavírus Humano) é a IST mais comum no mundo — estima-se que 80% das pessoas sexualmente ativas serão infectadas em algum momento da vida. A maioria das infecções é transitória e eliminada pelo sistema imune em 1–2 anos. Veja nosso artigo completo sobre HPV.
- HPV de baixo risco: tipos 6 e 11 — condilomas acuminados (verrugas genitais)
- HPV de alto risco: tipos 16 e 18 — câncer de colo, vaginal, vulvar, anal, orofaríngeo, peniano
- Vacina: nonavalente (Gardasil 9) — tipos 6, 11, 16, 18, 31, 33, 45, 52, 58; altamente eficaz antes da exposição
- Rastreamento: Papanicolaou + teste HPV (co-teste)
Herpes genital: a mais comum ulceração genital
O herpes genital é causado principalmente pelo HSV-2 (Herpes simplex vírus tipo 2), mas também pelo HSV-1 (via sexo oral). Afeta cerca de 500 milhões de pessoas no mundo (OMS) — e a grande maioria não sabe que tem.
Apresentação clínica
- Primoinfecção: vesículas agrupadas sobre base eritematosa → úlceras rasas, dolorosas — vulva, vagina, colo, períneo, ânus, coxas; febre, mal-estar, adenopatia; dura 2–3 semanas
- Recorrências: surtos repetidos (4–5 vezes/ano no 1º ano), tipicamente mais brandos, com pródromo de ardência/formigamento; frequência diminui com o tempo
- Assintomático (mais comum): maioria das pessoas infectadas nunca tem sintomas óbvios — mas pode transmitir pelo "shed" viral assintomático
Diagnóstico e tratamento
- Diagnóstico: clínico na fase ativa; PCR do swab da lesão (mais sensível); sorologia IgG HSV-2 (infecção passada)
- Tratamento episódico: aciclovir 400 mg 3×/dia por 7–10 dias (primoinfecção) ou 5 dias (recorrência); ou valaciclovir 1 g 2×/dia
- Tratamento supressivo: aciclovir 400 mg 2×/dia continuamente — para quem tem recorrências frequentes (≥6/ano) ou transmissão ao parceiro; reduz recorrências em 70–80% e transmissão em 50%
- Gestação: herpes neonatal é raro mas grave — aciclovir supressivo a partir de 36 semanas em gestantes com herpes genital; cesariana se lesões ativas no momento do parto
⚠️ Herpes não tem cura — mas tem tratamento eficaz
O vírus do herpes permanece latente nos gânglios nervosos para sempre. No entanto, o tratamento antiviral reduz a frequência, a intensidade e a duração dos surtos, e diminui o risco de transmissão. Herpes não é "o fim" da vida sexual — com informação e tratamento, é muito bem manejável.
Clamídia: a silenciosa
A Chlamydia trachomatis é a IST bacteriana mais prevalente no mundo. No Brasil, dados subestimam sua real prevalência porque 70–80% das mulheres infectadas são assintomáticas. A clamídia não tratada pode causar infertilidade por obstrução das trompas.
Manifestações
- Muitas vezes assintomática — a principal razão para o rastreamento
- Corrimento mucopurulento (cervicite)
- Sangramento pós-coital
- Disúria
- DIP (Doença Inflamatória Pélvica): extensão para endométrio, trompas, ovários — dor pélvica, febre, leucorreia purulenta
- Perihepatite (síndrome de Fitz-Hugh-Curtis): dor em hipocôndrio direito — confundida com hepatite ou pleurite
Complicações não tratadas
- Infertilidade por fator tubário (oclusão)
- Gravidez ectópica
- Dor pélvica crônica
- Artrite reativa (síndrome de Reiter)
Diagnóstico e tratamento
- Diagnóstico: NAAT (PCR) — gold standard; swab endocervical ou amostra de urina; cultura raramente usada
- Rastreamento: recomendado anualmente para mulheres sexualmente ativas com <25 anos, e para mulheres mais velhas com múltiplos parceiros
- Tratamento: azitromicina 1 g oral dose única OU doxiciclina 100 mg 2×/dia por 7 dias (mais eficaz, recomendado pelo CDC)
- Tratar parceiro(s)
- Testar para outras ISTs
Gonorreia: resistência crescente
A gonorreia, causada pela Neisseria gonorrhoeae, é a 2ª IST bacteriana mais prevalente. Preocupa pela resistência crescente a antibióticos — a OMS incluiu a gonorreia multidroga-resistente entre as principais ameaças antimicrobianas do mundo.
Manifestações em mulheres
- 50% assintomáticas
- Cervicite: corrimento mucopurulento, sangramento pós-coital
- Uretrite: disúria
- DIP: doença mais grave — dor pélvica, febre
- Bartholinite: inflamação/abscesso da glândula de Bartholin
- Infecção disseminada gonocócica (rara): artrite, dermatite, endocardite
- Conjuntivite gonocócica neonatal — oftalmoplegia, cegueira se não tratada
Diagnóstico e tratamento
- Diagnóstico: NAAT (PCR) — mais sensível e específico; cultura (para teste de sensibilidade antimicrobiana)
- Tratamento (MS Brasil 2022): ceftriaxona 500 mg IM dose única — monoterapia (esquema atual após retirada da azitromicina combinada)
- Tratar parceiro(s) simultaneamente
- Testar para clamídia, sífilis, HIV
- Controle de cura em 1–2 semanas
HIV: prevenir, testar, tratar
O HIV (Vírus da Imunodeficiência Humana) causa a AIDS (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida). No Brasil, estima-se 900.000 pessoas vivendo com HIV — 30% sem diagnóstico. Hoje, com o tratamento antirretroviral (TARV), uma pessoa com HIV diagnosticada e tratada precocemente tem expectativa de vida normal.
Transmissão
- Sexual (principal via): anal receptivo > vaginal receptivo > outros
- Sanguínea: compartilhamento de seringas, transfusão
- Vertical: mãe para filho (gestação, parto, amamentação) — prevenível com TARV
Fases da infecção
- Infecção aguda (síndrome retroviral aguda): 2–4 semanas após a infecção; febre, faringite, adenopatia, exantema — frequentemente não reconhecida
- Fase assintomática: anos sem sintomas; o vírus se replica e destrói lentamente as células CD4
- AIDS: CD4 <200 células/mm³ ou doença definidora de AIDS (pneumocistose, toxoplasmose cerebral, tuberculose disseminada, linfoma)
Diagnóstico
- Teste rápido: resultado em 30 minutos — disponível no SUS
- ELISA + Western blot/Imunoblot: confirmatório
- Carga viral + CD4: após diagnóstico — avalia progressão e resposta ao tratamento
- Rastreamento: recomendado para todas as gestantes (1º e 3º trimestres) e para pessoas sexualmente ativas de risco
Prevenção combinada
- Preservativo: reduz risco em >90%
- PrEP (Profilaxia Pré-Exposição): tenofovir/emtricitabina diário para pessoas de alto risco — eficácia >99% quando tomado corretamente; disponível no SUS
- PEP (Profilaxia Pós-Exposição): em até 72h após exposição de risco — disponível no SUS nas UBS
- TasP (Treatment as Prevention): pessoa com HIV em TARV com carga viral indetectável não transmite sexualmente (U=U: Indetectável = Intransmissível)
- TARV para gestante: elimina a transmissão vertical para menos de 1%
Hepatite B: a vacinável
A hepatite B (HBV) pode ser transmitida sexualmente, por sangue e verticalmente. É 50–100 vezes mais infecciosa que o HIV pelo contato sexual. Há vacina altamente eficaz no calendário básico do SUS — 3 doses.
- HBsAg (antígeno de superfície): marcador de infecção ativa
- Anti-HBs: anticorpo protetor (pós-vacinação ou cura)
- Hepatite B crônica (HBsAg >6 meses): risco de cirrose e carcinoma hepatocelular
- Tratamento: tenofovir ou entecavir (hepatite crônica); interferona pegilada
- Gestação: TARV para gestante com alta carga viral; imunoglobulina + vacina para o recém-nascido ao nascimento previne transmissão vertical em >95%
Hepatite C: a curável
A hepatite C (HCV) tem transmissão principalmente sanguínea (compartilhamento de seringas, tatuagens, piercing). A transmissão sexual é possível, mas menos eficiente que o HBV. Hoje, o HCV tem cura em >95% dos casos com os antivirais de ação direta (DAA) em 8–12 semanas de tratamento.
- Rastreamento: Anti-HCV para pessoas com histórico de uso de drogas IV, transfusão antes de 1993, parceiro infectado
- Tratamento: sofosbuvir/daclatasvir ou sofosbuvir/ledipasvir — disponível no SUS
- Não há vacina para HCV
ISTs na gestação: cuidados especiais
As ISTs na gestação têm implicações para a mãe e para o bebê:
- Sífilis: rastreamento obrigatório no 1º, 2º e 3º trimestres — sífilis congênita é prevenível com tratamento materno adequado
- HIV: TARV reduz transmissão vertical para <1%
- Hepatite B: vacina + imunoglobulina ao RN
- Herpes: aciclovir supressivo a partir de 36 semanas; cesariana se lesão ativa no parto
- HPV: condilomas podem crescer na gestação; não indicar tratamento agressivo
- Clamídia/Gonorreia: tratar (azitromicina ou ceftriaxona); pode causar corioamnionite, parto prematuro, infecção neonatal
- Tricomoníase: metronidazol — pode ser usado em qualquer trimestre da gestação; associada a parto prematuro
Prevenção: estratégias combinadas
Preservativo (camisinha)
O preservativo masculino, quando usado corretamente e consistentemente, reduz o risco de transmissão de ISTs bacterianas em 50–90% e de ISTs virais em 60–90%. O preservativo feminino também é eficaz. Não protege completamente contra herpes e HPV (transmitidos por contato pele-a-pele nas áreas não cobertas).
Vacinas disponíveis
- HPV: nonavalente (Gardasil 9) — meninas 9–14 anos no calendário SUS; disponível até 45 anos em privado
- Hepatite B: 3 doses; disponível no SUS para todas as idades
- Hepatite A: 2 doses; disponível no SUS
- Pesquisa em andamento: vacinas para HIV, herpes e gonorreia
PrEP e PEP
- PrEP: medicamento diário para prevenir HIV — indicado para pessoas de alto risco (múltiplos parceiros, parceiro HIV+, uso de drogas IV). Disponível gratuitamente no SUS nas UBS
- PEP: após exposição de risco (relação desprotegida com pessoa HIV+, violência sexual) — iniciar em até 72h; duração de 28 dias. Disponível 24h nas UBS e prontos-socorros
Rastreamento regular
Recomendações para mulheres sexualmente ativas:
- VDRL anual (sífilis) — pessoas de risco; toda gestante
- Papanicolaou regular — rastreamento de HPV e câncer de colo uterino
- Clamídia/gonorreia: anual para mulheres <25 anos e para adultas com múltiplos parceiros
- HIV: pelo menos uma vez na vida adulta; anual para pessoas de risco; toda gestante
- Hepatite B: HBsAg e anti-HBs; toda gestante
- Hepatite C: para pessoas de risco
- HPV/Papanicolaou: a partir de 25 anos, conforme protocolo
💡 Testagem rápida para ISTs no SUS
O Ministério da Saúde oferece testes rápidos para HIV, sífilis, hepatite B e hepatite C nas Unidades Básicas de Saúde (UBS). São gratuitos, com resultado em 30 minutos. Sem necessidade de encaminhamento — qualquer pessoa pode solicitar. A testagem é o primeiro passo para o diagnóstico e tratamento precoces.
Corrimento sempre significa IST?
Não. Essa é uma das maiores confusões — a maioria dos corrimentos vaginais não é causada por IST:
- Corrimento fisiológico (normal): claro ou esbranquiçado, sem odor forte nem coceira; muda de aspecto ao longo do ciclo.
- Candidíase: corrimento branco e espesso ("leite coalhado"), com coceira intensa — causada por um fungo; não é IST. Veja as vulvovaginites.
- Vaginose bacteriana: corrimento acinzentado com odor de "peixe" — é um desequilíbrio da flora vaginal, não uma IST clássica.
- Aí sim, corrimentos que podem ser IST: clamídia e gonorreia (mucopurulento, cervicite) e tricomoníase (amarelo-esverdeado, bolhoso, com odor).
Como a distinção exige avaliação, vale procurar o ginecologista diante de odor forte, cor amarelada/esverdeada, coceira intensa, sangramento ou dor. Entenda melhor no artigo sobre corrimento vaginal.
Posso ter IST mesmo usando camisinha?
Sim — a camisinha reduz muito o risco, mas não o elimina por completo. As principais situações em que a infecção ainda pode ocorrer:
- Transmissão pele a pele: herpes e HPV passam pelo contato de áreas não cobertas pelo preservativo (base do pênis, bolsa escrotal, vulva, região perianal).
- Uso inconsistente ou tardio: colocar a camisinha só perto da ejaculação deixa um período de exposição.
- Uso incorreto ou ruptura: lubrificação inadequada, produto vencido ou rompimento durante a relação.
- Sexo oral sem proteção: várias ISTs se transmitem por essa via (veja a seguir).
Por isso, a proteção ideal é combinada: preservativo + vacinação (HPV e hepatite B) + rastreamento regular.
Quanto tempo após a relação os exames detectam uma IST?
Cada IST tem um "período de janela" — o intervalo entre a infecção e o momento em que o exame consegue detectá-la. Testar cedo demais pode dar um falso-negativo. Os tempos aproximados:
| IST (exame) | Período de janela aproximado |
|---|---|
| HIV (teste de 4ª geração) | ~2 a 6 semanas |
| Sífilis (VDRL) | ~1 a 3 semanas (até 6) |
| Clamídia e gonorreia (PCR/NAAT) | ~1 a 2 semanas |
| Hepatite B (HBsAg) | ~4 a 8 semanas |
| Hepatite C (anti-HCV) | ~8 a 11 semanas |
Por isso, em geral, repete-se o exame após a janela para confirmar um resultado negativo. Atenção: diante de uma exposição de risco ao HIV, a PEP deve ser iniciada em até 72 horas, sem esperar qualquer exame.
Quais ISTs podem ser transmitidas pelo sexo oral?
Várias — o sexo oral sem proteção pode transmitir ISTs em ambas as direções (da boca para os genitais e vice-versa):
- Herpes: o HSV-1 (oral) é causa frequente de herpes genital pelo sexo oral, e vice-versa.
- Gonorreia: pode infectar a garganta (gonorreia faríngea), muitas vezes sem sintomas.
- Sífilis: o cancro pode surgir nos lábios, boca ou garganta.
- HPV: associado ao câncer de orofaringe.
- Clamídia: também pode causar infecção faríngea, geralmente silenciosa.
- HIV: risco bem menor que na relação vaginal ou anal, mas não nulo — sobretudo havendo lesões ou sangramento na boca.
Como muitas infecções de garganta não dão sintomas, o rastreamento é importante. Para reduzir o risco, pode-se usar preservativo ou barreira de látex no sexo oral, além da vacinação contra o HPV.
Doença Inflamatória Pélvica (DIP): a complicação mais grave
A DIP é a infecção ascendente das ISTs bacterianas (principalmente clamídia e gonorreia) para o trato genital superior — endométrio (endometrite), trompas (salpingite), ovários (ooforite) e peritônio pélvico (pelviperitonite). O corrimento vaginal purulento é um dos sinais de alerta da DIP.
Diagnóstico clínico (critérios mínimos do CDC)
Pelo menos um dos seguintes em mulher sexualmente ativa sem outra causa:
- Sensibilidade à mobilização do colo uterino (cervical motion tenderness)
- Sensibilidade uterina
- Sensibilidade anexial
Tratamento
- Ambulatorial (DIP leve a moderada): ceftriaxona 500 mg IM dose única + doxiciclina 100 mg 2×/dia por 14 dias ± metronidazol 500 mg 2×/dia por 14 dias
- Hospitalar (DIP grave): cefoxitina + doxiciclina EV; ou clindamicina + gentamicina EV
- Tratar parceiro(s)
- Abstinência sexual até conclusão do tratamento e cura
Abordagem clínica de IST: o que acontece na consulta
- Anamnese: vida sexual (número de parceiros, uso de preservativo, últimas relações), sintomas atuais, ISTs anteriores, história de DIP
- Exame físico: pele (exantemas, úlceras), gânglios, vulva, vagina, colo, útero e anexos
- Coleta de material: swabs para cultura/NAAT; amostras de sangue para sorologias
- Tratamento: abordagem sindrômica (tratar antes mesmo do resultado laboratorial em casos claros) ou baseada em diagnóstico laboratorial
- Notificação: sífilis, AIDS, hepatites B e C são de notificação compulsória
- Orientação e prevenção: educação sobre uso de preservativo, testagem de parceiros, rastreamento regular
Perguntas Frequentes
Posso ter uma IST sem nunca ter sentido nenhum sintoma?
Sim, é bastante comum. Infecções como clamídia (em 70–80% das mulheres), gonorreia (em 50%) e sífilis latente podem estar presentes por meses ou anos sem qualquer sinal. O HIV também costuma passar anos sem sintomas evidentes. Por isso, o rastreamento periódico é fundamental para quem tem vida sexual ativa, independentemente de se sentir bem.
Se eu receber tratamento para uma IST bacteriana, posso me infectar de novo?
Sim. Sífilis, clamídia e gonorreia são curáveis, mas não geram imunidade permanente — uma nova exposição pode causar reinfecção. É fundamental tratar o(a) parceiro(a) ao mesmo tempo para evitar o efeito "ping-pong" de reinfecção mútua.
O que é PrEP e quem pode usar?
A PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) é um medicamento diário que previne a infecção pelo HIV com eficácia superior a 99% quando tomado corretamente. É indicada para pessoas com risco elevado, como mulheres com parceiro HIV positivo não tratado, múltiplos parceiros sem uso consistente de preservativo, ou usuárias de drogas injetáveis. Está disponível gratuitamente nas Unidades Básicas de Saúde do SUS.
Sífilis na gravidez é grave? Como prevenir?
A sífilis na gestação é uma das principais emergências de saúde pública no Brasil. Sem tratamento, pode causar aborto, natimorto, malformações ósseas, surdez e cegueira no bebê. A boa notícia é que é 100% prevenível: o rastreamento com VDRL deve ser feito no 1º, 2º e 3º trimestres, e o tratamento com penicilina durante a gestação protege o bebê.
Herpes genital tem cura?
Não tem cura — o vírus permanece latente nos gânglios nervosos para sempre. No entanto, com o tratamento antiviral (aciclovir ou valaciclovir), é possível reduzir muito a frequência, a intensidade e a duração dos surtos, além de diminuir o risco de transmissão ao parceiro. Muitas pessoas com herpes têm vida sexual ativa e saudável com as orientações corretas.
Clamídia pode causar infertilidade?
Sim, quando não tratada. A clamídia pode se disseminar silenciosamente para as trompas de Falópio, causando inflamação (DIP) e fibrose que leva à obstrução tubária. É uma das principais causas de infertilidade por fator tubário e de gravidez ectópica em mulheres jovens. O rastreamento anual é recomendado para mulheres sexualmente ativas com menos de 25 anos.
Tenho HIV e faço tratamento — posso transmitir para meu parceiro?
Quando o tratamento antirretroviral está funcionando bem e a carga viral está indetectável, a transmissão sexual é praticamente zero. Esse conceito é chamado de U=U (Indetectável = Intransmissível) e é reconhecido pela OMS. Isso não elimina a importância do acompanhamento médico regular e do uso de preservativo para proteção contra outras ISTs.
Rastreamento de ISTs: cuide da sua saúde sexual
Muitas ISTs são silenciosas — e o diagnóstico precoce faz toda a diferença para o tratamento e para a prevenção de complicações. A Dra. Gabriella Dourado realiza consultas de saúde sexual com rastreamento completo em São Paulo, com toda a discrição e cuidado.
Conhecer a Dra. Gabriella Dourado →Conteúdo informativo. Este artigo não substitui a consulta médica. Para avaliação individualizada, procure um ginecologista ou infectologista de sua confiança.
Referências: Ministério da Saúde do Brasil, FEBRASGO, Centers for Disease Control and Prevention (CDC), Organização Mundial da Saúde (OMS), European Centre for Disease Prevention and Control (ECDC), Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).