O ultrassom morfológico do segundo trimestre — também chamado de morfológico fetal, ecografia morfológica ou "ultrassom das 20 semanas" — é o exame de imagem mais completo realizado durante a gestação. Seu objetivo é avaliar detalhadamente a anatomia do bebê, verificar o crescimento fetal, analisar as condições da placenta e do líquido amniótico e rastrear anomalias estruturais que possam requerer acompanhamento especializado ou intervenção.
📋 Em resumo
- Período ideal: entre 20 e 24 semanas de gestação
- Duração: 30 a 60 minutos (varia conforme a posição e cooperação do bebê)
- Via de realização: principalmente transabdominal; pode complementar com transvaginal
- Preparo: em geral nenhum — não precisa de jejum, e a bexiga cheia não é requisito universal
- Detecta: boa parte das malformações estruturais maiores — mas a taxa varia muito conforme o tipo de anomalia, e nenhum percentual único vale para todas
- Também avalia: o colo uterino (cervicometria) e, conforme o protocolo, o Doppler das artérias uterinas
- Não substitui: o rastreamento do 1º trimestre (translucência nucal) nem a ecocardiografia fetal
Por que o morfológico do 2º trimestre é tão importante?
O ultrassom morfológico do 2º trimestre é o exame que avalia em detalhe a anatomia do bebê — órgão por órgão —, em geral entre 20 e 24 semanas. É o principal exame para detectar malformações fetais durante a gravidez.
Entre 20 e 24 semanas, os órgãos do bebê já estão completamente formados e têm tamanho suficiente para serem avaliados com precisão pelo ultrassom. É a janela ideal para identificar a grande maioria das malformações estruturais — cardíacas, cerebrais, esqueléticas, urinárias, abdominais e de face.
A detecção pré-natal de anomalias não apenas permite o planejamento do parto no local adequado (com UTI neonatal, cirurgia pediátrica ou cardiologia infantil disponíveis), como possibilita, em casos muito selecionados, o encaminhamento para centros de terapia fetal. Entre os tratamentos intrauterinos estabelecidos estão a cirurgia fetal para mielomeningocele e a fetoscopia com laser para a síndrome de transfusão feto-fetal.
Qual a diferença entre morfológico e ultrassom obstétrico comum?
São exames com profundidade e objetivos diferentes. O ultrassom obstétrico de rotina é um exame mais rápido, repetido várias vezes ao longo do pré-natal, focado em acompanhar o essencial; o morfológico é o exame anatômico detalhado, realizado em uma janela específica.
- Ultrassom obstétrico comum (rotina): confirma a vitalidade e os batimentos, a idade gestacional, o número de fetos, a posição, o crescimento e o volume de líquido amniótico. Dura poucos minutos e pode ser feito em vários momentos da gestação.
- Ultrassom morfológico: avalia sistematicamente cada órgão e estrutura do bebê (cérebro, coração, face, coluna, rins, membros etc.) para rastrear malformações. É mais demorado (30–60 min), exige equipamento de alta resolução e, idealmente, um especialista em medicina fetal.
Em resumo: todo morfológico é um ultrassom obstétrico, mas nem todo ultrassom obstétrico é um morfológico. Um não substitui o outro — eles se somam ao longo do pré-natal.
Quando realizar o exame?
No Brasil, a recomendação é realizar o exame entre 20 e 24 semanas, com preferência pelas semanas 20–22 — período em que há bom equilíbrio entre o tamanho das estruturas e as condições técnicas para avaliá-las.
Vale saber que diretrizes internacionais admitem uma janela um pouco mais ampla, em torno de 18 a 24 semanas. Ou seja: um exame feito com 19 semanas não é "inadequado" — apenas algumas estruturas ficam mais fáceis de avaliar um pouco depois. E, passadas as 24 semanas, o exame continua sendo possível, embora o bebê ocupe mais espaço e certas visualizações fiquem mais difíceis.
Em gestações de alto risco (gemelaridade, histórico de malformações, doenças maternas), o médico pode solicitar o exame em momento diferente ou repetições periódicas.
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Cabeça e encéfalo
O cérebro fetal é avaliado em diferentes planos de corte. O médico analisa:
- Ventrículos laterais: mede-se o átrio do ventrículo lateral. Abaixo de 10 mm está dentro do esperado; a partir de 10 mm caracteriza-se ventriculomegalia, que pede investigação. Vale a precisão: ventriculomegalia é uma medida aumentada, não é sinônimo de hidrocefalia
- Plexos coróides: estruturas que produzem o líquor. Cistos são achados comuns e, quando isolados e com rastreamento cromossômico já de baixo risco, são considerados variantes benignas — não exigem novo rastreamento, ultrassom de controle nem avaliação específica após o nascimento só por causa deles
- Cerebelo: avaliação do diâmetro trans-cerebelar e do vermis cerebelar (importante para rastrear malformação de Dandy-Walker e hipoplasia cerebelar)
- Cisterna magna: espaço posterior ao cerebelo, cujo aumento pode indicar anomalias do fosso posterior
- Corpo caloso: estrutura que conecta os dois hemisférios cerebrais; sua ausência (agenesia do corpo caloso) pode passar despercebida sem avaliação dirigida
- Circunferência cefálica (CC): medida utilizada para estimar a idade gestacional e detectar micro ou macrocefalia
Face
- Perfil fetal: avaliação do nariz, lábios, queixo e fronte
- Lábio superior: rastreamento de fissura labial (lábio leporino)
- Órbitas e cristalinos oculares
- Osso nasal (marcador soft para síndrome de Down)
Coluna vertebral
A coluna é avaliada em cortes longitudinais e transversais em toda sua extensão — cervical, torácica, lombar e sacral. O objetivo é rastrear defeitos do tubo neural, especialmente a espinha bífida (mielomeningocele), caracterizada pela ausência de fechamento dos arcos vertebrais com herniação do tecido nervoso.
Sinais indiretos no cérebro (sinal do limão e da banana) frequentemente levantam a suspeita antes mesmo da visualização direta da lesão vertebral.
Coração
A avaliação cardíaca básica no morfológico inclui:
- Corte de quatro câmaras: avalia simetria entre átrios e ventrículos, septo interventricular e septo interatrial
- Vias de saída: aorta e artéria pulmonar — cruzando em ângulo reto, com diâmetros semelhantes
- Três vasos e traqueia: rastreia anomalias dos grandes vasos
- Posição e eixo cardíaco: o coração deve estar à esquerda (levocardia), ocupando cerca de 1/3 do tórax
Tórax e pulmões
- Avaliação da circunferência torácica e da relação pulmão/coração
- Rastreamento de hérnias diafragmáticas (deslocamento de vísceras abdominais para o tórax)
- Derrames pleurais fetais
- Malformações pulmonares (malformação adenomatóide cística, sequestro pulmonar)
Abdome e órgãos abdominais
- Estômago: deve ser visível como estrutura anecoica (escura) no quadrante superior esquerdo — sua ausência pode indicar atresia de esôfago
- Fígado e vesícula biliar
- Intestinos: hiperecogenicidade do intestino é marcador soft para fibrose cística, infecções e anomalias cromossômicas
- Parede abdominal: rastreamento de onfalocele (hérnia pelo cordão umbilical) e gastrosquise (hérnia pela parede lateral)
- Circunferência abdominal (CA): importante parâmetro de crescimento fetal
Sistema urinário
- Rins: presença, tamanho, ecogenicidade e localização; rastreamento de agenesia renal, rins policísticos e hidronefrose
- Bexiga: deve ser identificada como estrutura anecoica na pelve
- Líquido amniótico: produzido principalmente pela urina fetal após as 18 semanas; alterações no volume (oligodrâmnio ou polidrâmnio) podem indicar problemas renais, rotura de membranas ou outras condições
Membros e esqueleto
- Presença e comprimento dos ossos longos: úmero, rádio, ulna, fêmur, tíbia e fíbula
- Mãos e pés: presença dos dedos, posição dos pés (rastreamento de pé torto congênito)
- Displasias esqueléticas: um encurtamento importante dos ossos longos levanta a suspeita. Algumas formas graves já se reconhecem no segundo trimestre; outras, como a acondroplasia, costumam se tornar evidentes apenas mais tarde na gestação — um bom exemplo de por que o morfológico não vê tudo
Cordão umbilical e placenta
- Inserção do cordão: na parede abdominal fetal e na placenta
- Número de vasos do cordão: o normal são três (duas artérias e uma veia); a artéria umbilical única isolada pode ser variante normal, mas requer seguimento
- Localização da placenta: rastreamento de placenta prévia (placenta cobrindo ou próxima ao colo do útero), que pode requerer cesariana e ser causa de sangramento
- Aspecto placentário: espessura, lacunas e demais características
- Atenção especial: quando há placenta baixa ou prévia em quem já fez cesárea ou outra cirurgia uterina, o examinador procura sinais que possam sugerir acretismo placentário — situação que muda o planejamento do parto e costuma exigir avaliação especializada
Biometria fetal
As quatro medidas biométricas padrão — diâmetro biparietal (DBP), circunferência cefálica (CC), circunferência abdominal (CA) e comprimento do fêmur (CF) — são combinadas em fórmulas para estimar o peso fetal e avaliar se o crescimento está adequado para a idade gestacional — rastreando a restrição de crescimento fetal.
| Medida | Sigla | O que avalia | Importância clínica |
|---|---|---|---|
| Diâmetro biparietal | DBP | Largura da cabeça fetal | Estima IG; rastreia micro e macrocefalia |
| Circunferência cefálica | CC | Perímetro total da cabeça | Mais precisa que DBP para estimar IG |
| Circunferência abdominal | CA | Perímetro do abdome fetal | Melhor parâmetro de crescimento e nutrição fetal |
| Comprimento do fêmur | CF | Comprimento do osso da coxa | Rastreia displasias esqueléticas; complementa estimativa de IG |
Colo do útero e Doppler: o que o morfológico avalia além do bebê
Esta parte costuma passar despercebida — inclusive porque quase todo texto sobre morfológico descreve órgão por órgão do bebê e para por aí. Mas o protocolo brasileiro atual inclui duas avaliações que não são do feto, e sim das condições da gestação.
Cervicometria: a medida do colo uterino
Durante o morfológico, mede-se o comprimento do colo do útero — a chamada cervicometria, feita por via transvaginal, que é a técnica adequada para isso. A medida pela barriga não substitui.
O objetivo é identificar o colo curto, principal marcador de risco de parto prematuro. Em gestação única, um comprimento igual ou menor que 25 mm antes de 24 semanas associa-se a risco aumentado — e, o mais importante: é uma situação em que existe o que fazer. Identificar o colo curto permite intervenções que podem mudar o desfecho.
💡 Por que isso importa tanto
É a diferença entre um exame que apenas informa e um exame que muda conduta. Boa parte do que o morfológico encontra no bebê não tem tratamento intrauterino. O colo curto, sim, tem manejo — e por isso a recomendação brasileira de 2025 trata a cervicometria como parte importante do exame.
Doppler das artérias uterinas
Conforme o protocolo do serviço, o exame também pode incluir a dopplervelocimetria das artérias uterinas, que avalia a resistência ao fluxo de sangue entre o útero e a placenta.
Quando essa resistência está aumentada — o índice de pulsatilidade médio acima do percentil 95 para a idade gestacional —, há maior risco de pré-eclâmpsia e de restrição de crescimento fetal. Não é um diagnóstico: é uma sinalização que permite acompanhar de perto quem precisa.
Uma ressalva de contexto: a inclusão do Doppler uterino no morfológico é uma ênfase do protocolo brasileiro. As diretrizes internacionais não a incorporam da mesma forma no exame anatômico de rotina — o que explica por que ele nem sempre aparece em laudos de outros países ou em textos traduzidos.
O que acontece quando um achado suspeito é encontrado?
A detecção de um achado anômalo no morfológico não significa, necessariamente, que o bebê terá um problema sério. Mas vale separar duas situações bem diferentes, porque a conduta muda:
🔎 Marcador isolado × malformação estrutural
Marcadores "soft" isolados — como foco ecogênico no coração, cisto de plexo coroide ou pielectasia — têm baixo valor preditivo sozinhos. E aqui há uma atualização importante: o peso deles depende do rastreamento genético já feito. Depois de um NIPT de baixo risco, vários marcadores isolados não indicam, por si sós, novo teste cromossômico nem amniocentese.
Malformação estrutural é outra conversa. Nesse caso, o caminho é aconselhamento genético e a oferta de exame diagnóstico — habitualmente amniocentese com análise cromossômica, incluindo microarray. O NIPT, aqui, não substitui o diagnóstico: ele rastreia bem as trissomias comuns, mas não cobre boa parte das alterações associadas a malformações.
Diante de um achado suspeito, as condutas mais comuns são:
- Repetição do exame: para confirmar ou descartar o achado
- Encaminhamento para especialista em medicina fetal: para avaliação aprofundada com equipamento e experiência específicos
- Ecocardiografia fetal: quando há suspeita de cardiopatia
- Ressonância magnética fetal: complemento para anomalias do sistema nervoso central
- Amniocentese: nessa idade gestacional, é o procedimento diagnóstico habitual quando há indicação de investigação genética
Como se preparar para o exame?
O preparo para o morfológico do 2º trimestre é simples:
- Em geral, nenhum preparo é necessário. Alguns serviços pedem a bexiga parcialmente cheia conforme a técnica usada — mas isso não é uma regra universal. Vale confirmar ao agendar
- Não é necessário jejum
- Não precisa comer doce antes. A ideia de que açúcar "acorda" o bebê e melhora as imagens é popular, mas não é recomendação de nenhuma diretriz — e mais movimento nem sempre ajuda: às vezes o examinador precisa exatamente que o bebê fique parado na posição certa
- Levar os exames anteriores e o cartão de pré-natal
Preciso repetir o morfológico?
Na maioria das gestações, uma única avaliação morfológica bem feita é suficiente. A repetição é indicada em situações específicas:
- Exame incompleto: quando a posição do bebê, a quantidade de líquido ou o índice de massa corporal materno impedem a visualização de todas as estruturas, repete-se para completar a avaliação.
- Achado suspeito: um marcador ou alteração pode exigir reavaliação para confirmar, descartar ou acompanhar a evolução.
- Gestação de alto risco: gemelaridade, diabetes, histórico de malformação ou doenças maternas podem justificar exames adicionais ou seriados.
Repetir o morfológico não é, por si só, motivo para alarme — muitas vezes é apenas para obter imagens que faltaram. O médico orienta o melhor momento conforme cada caso.
O morfológico detecta síndrome de Down?
O morfológico não é um teste diagnóstico para a síndrome de Down — ele avalia a anatomia, não os cromossomos. O que ele pode identificar são os chamados "marcadores soft": pequenos sinais que, sozinhos, têm baixo valor, mas que em conjunto aumentam a suspeita de alterações cromossômicas. Os principais são:
- Osso nasal ausente ou encurtado
- Dobra nucal espessada
- Intestino hiperecogênico
- Focos ecogênicos no coração, dilatação leve dos rins (pielectasia), fêmur/úmero curtos
O rastreamento cromossômico propriamente dito é feito pelo rastreamento combinado do 1º trimestre (translucência nucal + sangue) ou pelo NIPT. Já a confirmação diagnóstica da síndrome de Down exige um exame invasivo — a amniocentese (no 2º trimestre). Ou seja: o morfológico levanta suspeitas, mas não diagnostica nem descarta a síndrome de Down sozinho.
O morfológico detecta tudo? Um exame normal garante um bebê saudável?
É importante ter expectativas realistas. O ultrassom morfológico, mesmo realizado por especialistas experientes com equipamentos de última geração, não detecta 100% das anomalias fetais. A taxa de detecção varia conforme:
- O tipo de anomalia (cardiopatias complexas têm taxas de detecção menores que gastrosquise, por exemplo)
- A posição fetal durante o exame
- O índice de massa corporal materno (obesidade dificulta a penetração do ultrassom)
- A experiência do examinador e a qualidade do equipamento
- A idade gestacional no momento do exame
Vale precisar melhor o que "não detecta tudo" significa, porque a formulação comum exagera. Muitas cardiopatias complexas são, sim, diagnosticadas antes do nascimento — a dificuldade está em lesões pequenas, em algumas que evoluem ao longo da gestação e em situações tecnicamente desfavoráveis. A fissura palatina isolada também pode ser identificada, sobretudo em exame dirigido — mas escapa com frequência, por ser uma estrutura posterior e encoberta.
Já condições funcionais ou do neurodesenvolvimento — como perda auditiva e transtorno do espectro autista — não são avaliadas pela anatomia fetal, e um morfológico normal não diz nada sobre elas.
Por isso, o morfológico é um rastreamento, não um diagnóstico definitivo.
Um morfológico normal é uma excelente notícia, mas não é uma garantia absoluta de que o bebê não terá nenhuma condição. É a melhor avaliação possível com a tecnologia disponível — e já é muito.
O morfológico descobre o sexo do bebê?
Sim — em geral sim, desde que o bebê esteja em posição favorável durante o exame. Entre 20 e 24 semanas, os genitais externos já estão bem desenvolvidos e são visíveis pelo ultrassom na maioria dos casos. No entanto, o objetivo principal do morfológico não é revelar o sexo, mas sim avaliar detalhadamente a anatomia e a saúde do bebê. A identificação do sexo é um "bônus" do exame — não uma garantia.
💬 Da prática clínica
O morfológico é um dos momentos mais aguardados da gestação. Além de avaliar a saúde do bebê, costuma ser quando os pais veem o rostinho e, muitas vezes, descobrem o sexo. Ainda assim, lembro que nenhum exame garante 100% — o acompanhamento de pré-natal continua essencial. — Dra. Gabriella Dourado
Perguntas Frequentes
O morfológico mede o colo do útero? Quanto ele deve medir?
Sim — e essa é uma das partes mais úteis do exame. A medida do colo, chamada cervicometria, é feita por via transvaginal, que é a técnica adequada para isso. Em gestação única, um comprimento igual ou menor que 25 mm antes de 24 semanas indica risco aumentado de parto prematuro. Não é um diagnóstico de que o parto vai acontecer antes da hora: é uma informação que permite agir, porque o colo curto tem manejo. Justamente por isso a recomendação brasileira atual trata a cervicometria como parte importante do morfológico.
O morfológico tem Doppler?
Pode ter, conforme o protocolo do serviço. O protocolo brasileiro atual recomenda incluir a dopplervelocimetria das artérias uterinas, que avalia a resistência ao fluxo entre o útero e a placenta. Quando essa resistência está aumentada, há maior risco de pré-eclâmpsia e de restrição de crescimento fetal — o que permite acompanhar mais de perto. Vale saber que essa é uma ênfase brasileira: as diretrizes internacionais não incorporam o Doppler uterino da mesma forma no exame anatômico de rotina.
Dá para fazer o morfológico com 19 semanas? E com 24?
Dá nos dois casos. No Brasil a recomendação é entre 20 e 24 semanas, com preferência por 20 a 22 — mas diretrizes internacionais trabalham com uma janela um pouco mais ampla, em torno de 18 a 24 semanas. Um exame com 19 semanas não é inadequado; algumas estruturas apenas ficam mais fáceis de avaliar um pouco depois. E com 24 semanas o exame continua sendo possível, embora o bebê ocupe mais espaço e certas visualizações fiquem mais trabalhosas. O que não convém é deixar passar muito da janela, porque algumas condutas dependem de tempo.
Preciso comer chocolate ou algo doce antes do morfológico?
Não. Essa é uma crença muito difundida, mas não é recomendação de nenhuma diretriz. E há um detalhe contraintuitivo: mais movimento nem sempre ajuda — muitas vezes o examinador precisa exatamente que o bebê fique parado na posição certa para conseguir um corte específico. Se o bebê estiver em posição desfavorável, o que costuma resolver é caminhar um pouco, mudar de posição ou, em alguns casos, completar o exame em outro dia.
Fiz NIPT de baixo risco e apareceu um marcador no morfológico. E agora?
Depende do que apareceu, e essa distinção mudou nos últimos anos. Marcadores "soft" isolados — como foco ecogênico no coração, cisto de plexo coroide ou pielectasia — têm pouco peso adicional depois de um NIPT de baixo risco, e em geral não indicam por si sós um novo teste cromossômico nem amniocentese. Já uma malformação estrutural é outra situação: aí o caminho é aconselhamento genético e a oferta de exame diagnóstico, porque o NIPT rastreia bem as trissomias comuns mas não cobre boa parte das alterações associadas a malformações. Ou seja: o mesmo NIPT normal tranquiliza em um caso e não basta no outro.
Morfológico normal exclui cardiopatia?
Não exclui, mas ajuda bastante. A avaliação cardíaca do morfológico inclui o corte de quatro câmaras, as vias de saída e a visão dos três vasos — e muitas cardiopatias complexas são de fato identificadas assim. O que pode escapar são defeitos pequenos, algumas lesões que só se manifestam mais tarde na gestação e situações tecnicamente desfavoráveis. Quando existe fator de risco ou alguma suspeita no morfológico, o exame indicado é a ecocardiografia fetal, que pode ser feita na mesma janela, entre 18 e 22 a 24 semanas.
O morfológico descobre o sexo do bebê?
Sim, em geral sim — desde que o bebê esteja em posição favorável durante o exame. Entre 20 e 24 semanas, os genitais externos já estão bem desenvolvidos e visíveis pelo ultrassom. Mas o objetivo principal do morfológico é avaliar a anatomia e saúde do bebê, não a identificação do sexo.
Quando devo fazer o morfológico do 2º trimestre?
O período ideal é entre 20 e 24 semanas de gestação, com preferência pelas semanas 20 a 22. Nessa janela os órgãos já têm tamanho adequado para avaliação completa e o bebê ainda ocupa espaço suficiente para ser bem visualizado.
Preciso me preparar de alguma forma para o morfológico?
O preparo é simples: beba cerca de 500 ml de água 30 a 60 minutos antes para ter a bexiga levemente cheia, que ajuda na visualização. Não é necessário jejum. Comer algo doce meia hora antes pode estimular o bebê a se mover, facilitando a obtenção das imagens.
O morfológico detecta síndrome de Down?
O morfológico pode identificar marcadores associados à síndrome de Down (como encurtamento de osso nasal, dobra da nuca aumentada e outros sinais), mas não é um teste diagnóstico para cromossomos. O rastreamento cromossômico é feito pelo teste do 1º trimestre (translucência nucal + sangue) ou pelo NIPT. A confirmação diagnóstica exige amniocentese.
Se o morfológico for normal, meu bebê com certeza nasce saudável?
Um morfológico normal é uma excelente notícia, mas não é uma garantia absoluta. O exame detecta a maioria das malformações estruturais visíveis, mas algumas condições — como defeitos cardíacos complexos, fissura palatina isolada, surdez e autismo — não são diagnosticáveis pelo ultrassom. É o melhor rastreamento disponível, mas continua sendo um rastreamento.
O que acontece se o morfológico encontrar algo suspeito?
Um achado suspeito não significa necessariamente problema sério. Muitos são "marcadores suaves" com baixo valor preditivo isoladamente. As condutas mais comuns são repetir o exame, encaminhar para especialista em medicina fetal, solicitar ecocardiografia fetal ou NIPT. Tudo é avaliado em conjunto com o histórico da gestante.
O morfológico substitui o ultrassom do 1º trimestre?
Não, são exames complementares com objetivos diferentes. O do 1º trimestre (translucência nucal entre 11–14 semanas) faz o rastreamento cromossômico e de pré-eclâmpsia. O morfológico do 2º trimestre avalia a anatomia detalhada do bebê. Ambos são recomendados em toda gestação.
A ecocardiografia fetal é diferente do morfológico?
Sim. O morfológico inclui uma avaliação cardíaca básica, mas a ecocardiografia fetal é um exame especializado e mais detalhado do coração do bebê, feito por especialista em medicina fetal ou cardiologia pediátrica. É indicada quando há risco aumentado para cardiopatias congênitas ou quando o morfológico mostrou alguma alteração cardíaca.
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A Dra. Gabriella Dourado é especialista em medicina fetal e realiza ultrassonografias morfológicas com protocolo completo em São Paulo. Um exame cuidadoso, com laudos detalhados e explicação completa dos resultados para você e sua família.
Agendar ultrassom morfológico →Conteúdo informativo. Este artigo não substitui a consulta médica. Para avaliação individualizada, procure um especialista em medicina fetal ou obstetra de sua confiança.
Referências: FEBRASGO — “Ultrassonografia morfológica do segundo trimestre”, Protocolo, “Femina” 2025;53(6):821-30, referência central para a janela de 20 a 24 semanas, a avaliação da anatomia e dos anexos fetais, a cervicometria transvaginal no rastreamento de parto prematuro e a dopplervelocimetria das artérias uterinas; ISUOG — “Practice Guidelines: performance of the routine mid-trimester fetal ultrasound scan”, para a sistemática do exame anatômico e a janela internacional, e “Practice Guidelines: fetal cardiac screening” (2023), para os planos cardíacos e a janela da avaliação do coração; SMFM, para a conduta em marcadores ultrassonográficos isolados após rastreamento genético de baixo risco; ACOG, para o aconselhamento genético e a indicação de teste diagnóstico com microarray diante de malformação estrutural; Ministério da Saúde, para o rastreamento no pré-natal.