A cardiotocografia (CTG) — também chamada de monitoração fetal eletrônica — é um dos exames mais realizados no terceiro trimestre da gestação e durante o trabalho de parto. Em poucos minutos, ela fornece ao obstetra uma janela em tempo real sobre o bem-estar do feto: como seu coração reage aos próprios movimentos, às contrações uterinas e ao ambiente intrauterino. Interpretar corretamente esse traçado é uma das habilidades mais importantes da prática obstétrica.
Para a gestante, entender o que o exame avalia — e o que cada achado significa — transforma a experiência de olhar para aquele papel cheio de curvas em algo compreensível e menos ansioso.
📋 Em resumo
- O que mede: frequência cardíaca fetal (FCF) e contrações uterinas simultaneamente
- Tipos: CTG anteparto (repouso, sem estresse — NST) e intraparto (durante o trabalho de parto)
- Quando indicada no pré-natal: para vigilância programada, muitos protocolos começam por volta de 32 semanas (varia conforme a doença); na avaliação de movimento fetal reduzido, a RCOG (2026) recomenda CTG computadorizada a partir de 26 semanas; acompanhamento de RCF, gestação prolongada, hipertensão, diabetes
- O que avalia: linha de base da FCF, variabilidade, acelerações, desacelerações e contrações
- NST anteparto reativo: FCF de base 110–160 bpm, variabilidade moderada, duas ou mais acelerações em 20 minutos — sinal tranquilizador. No trabalho de parto (CTG intraparto), acelerações não são obrigatórias
- Traçado patológico: bradicardia, desacelerações tardias ou variáveis profundas, variabilidade ausente — exige avaliação imediata
O que é a cardiotocografia e como funciona
A cardiotocografia registra simultaneamente, em papel ou tela, dois parâmetros:
- Frequência cardíaca fetal (FCF): captada por um transdutor de ultrassom colocado sobre o abdome materno sobre a região do coração do feto. O aparelho detecta os movimentos do coração fetal pelo efeito Doppler e converte em batimentos por minuto (bpm), plotados continuamente na parte superior do traçado.
- Atividade uterina (contrações): captada por um segundo transdutor — um tocodinamômetro (toco) colocado sobre o fundo uterino — que registra a tensão da parede abdominal quando o útero se contrai. Plotada na parte inferior do traçado.
O exame é completamente não invasivo, indolor e sem contraindicações. A gestante permanece deitada em decúbito lateral esquerdo (para evitar compressão da veia cava) ou semi-reclinada, com dois cintos elásticos fixando os transdutores ao abdome. A duração mínima para avaliação é de 20 a 30 minutos — podendo se estender por mais tempo se o feto estiver dormindo (ciclo sono-vigília de 20–40 minutos é normal).
Tipos de cardiotocografia
CTG anteparto — Teste de Bem-Estar Fetal (NST — Non-Stress Test)
Realizado fora do trabalho de parto, com o feto em repouso. Avalia a integridade do sistema nervoso autônomo fetal: um feto neurologicamente saudável, bem oxigenado, responde aos seus próprios movimentos com acelerações da frequência cardíaca. Esse é o fundamento do teste não estressante (NST).
Quando o resultado não é reativo após 40 minutos, pode-se realizar o teste estressante (TST ou OCT — Oxytocin Challenge Test): estimulação das contrações uterinas com ocitocina para avaliar como o coração fetal responde à compressão do cordão e à redução transitória do fluxo placentário durante as contrações.
CTG intraparto
Monitoramento contínuo da FCF durante o trabalho de parto — especialmente nos estádios ativo (dilatação >6 cm) e expulsivo. Permite detectar padrões de sofrimento fetal agudo causados pelas contrações e orientar decisões sobre a via e o momento do parto.
Nas situações intraparto associadas a maior risco de comprometimento fetal (uso de ocitocina, alterações da FCF, sangramento, hipertensão relevante, RCF, entre outras), geralmente se recomenda oferecer monitoração contínua — a indicação é individualizada pelo quadro clínico, e não um "pacote automático" para todo rótulo de alto risco. No trabalho de parto de baixo risco, a ausculta intermitente com sonar Doppler é uma alternativa adequada e, por isso, a CTG contínua não é rotina.
Por que "mais monitorização" não significa "parto mais seguro"
Uma revisão sistemática Cochrane comparou CTG contínua com ausculta intermitente no trabalho de parto: a CTG contínua reduziu convulsões neonatais, mas não reduziu de forma clara a mortalidade perinatal nem a paralisia cerebral, e aumentou cesáreas e partos vaginais instrumentais. Por isso a OMS favorece a ausculta intermitente na gestação de baixo risco. Da mesma forma, a CTG de admissão de rotina não demonstrou benefício em mulheres de baixo risco.
Dúvidas sobre cardiotocografia ou bem-estar fetal?
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A CTG anteparto não é exame de rotina para todas as gestantes — é indicada para avaliação do bem-estar fetal em situações de risco, sendo solicitada pelo obstetra no contexto do pré-natal de alto risco:
- Diminuição dos movimentos fetais percebida pela gestante — indicação mais frequente e urgente. Nesse contexto, a RCOG (Green-top 57, 2026) recomenda CTG computadorizada a partir de 26 semanas após confirmar a vitalidade fetal — ou seja, aqui não se espera 32 semanas
- Gestação prolongada — a ACOG sugere considerar vigilância a partir de 41+0 semanas na gestação não complicada (nota de terminologia: 41+0–41+6 é "termo tardio"; pós-termo é ≥42+0)
- Hipertensão arterial na gestação — pré-eclâmpsia, hipertensão crônica com pré-eclâmpsia sobreposta
- Diabetes — a intensidade da vigilância depende do tipo e do controle: no diabetes gestacional só com dieta e bem controlado não há consenso de vigilância antes de 40 semanas; com medicação ou mau controle, costuma-se iniciar por volta de 32 semanas; o diabetes pré-gestacional exige vigilância mais intensa
- Restrição de crescimento fetal (RCF) — avaliação seriada do bem-estar, centrada no Doppler da artéria umbilical, com CTG associada (mais frequente nos casos graves)
- Oligoidrâmnio (volume de líquido amniótico reduzido)
- Gestação gemelar monocoriônica
- Isoimunização Rh — doença hemolítica perinatal
- Suspeita de sofrimento fetal por qualquer causa
- Colestase intra-hepática da gestação — importante saber que uma CTG normal não elimina o risco de óbito fetal na colestase (parte dos eventos pode ser relativamente súbita); a conduta depende também dos sais biliares e da idade gestacional, não só da CTG seriada
- Determinadas doenças maternas associadas a maior risco fetal (por exemplo lúpus, algumas trombofilias, cardiopatias) podem indicar vigilância — a necessidade, o início e a frequência dependem do tipo e da gravidade da condição, e não são um mandato universal
Os parâmetros do traçado cardiotocográfico
A interpretação da CTG baseia-se na análise de cinco parâmetros principais:
1. Linha de base da FCF (frequência cardíaca fetal de base)
A frequência cardíaca fetal média, em bpm, estimada ao longo de uma janela de aproximadamente 10 minutos, excluindo acelerações, desacelerações e períodos de grande variabilidade (é preciso haver pelo menos ~2 minutos identificáveis de linha de base dentro dessa janela — não simplesmente escolher um segmento estável de dois minutos).
- Normal: 110–160 bpm
- Taquicardia fetal: FCF basal >160 bpm por mais de 10 minutos. Causas: febre materna, infecção, ansiedade, medicamentos (betamiméticos, atropina), hipóxia fetal leve/moderada, arritmia fetal, anemia fetal
- Bradicardia fetal: FCF basal <110 bpm por mais de 10 minutos. Causas: compressão do cordão umbilical, hipóxia fetal grave, arritmia, medicamentos (betabloqueadores), hipotermia materna. Bradicardia grave (<80 bpm), sobretudo se mantida, exige avaliação obstétrica imediata.
2. Variabilidade da FCF
A variabilidade representa as flutuações rítmicas e irregulares da FCF em torno da linha de base, geradas pela interação contínua entre o sistema nervoso simpático e parassimpático fetais. É um dos parâmetros mais importantes da CTG: a variabilidade moderada é um forte indicador contra acidemia metabólica fetal naquele momento (não protege, porém, contra eventos agudos como prolapso de cordão, descolamento ou rotura uterina).
- Variabilidade normal (moderada): amplitude de 6–25 bpm pela nomenclatura ACOG/NICHD (a FIGO usa 5–25 bpm) — indica sistema nervoso autônomo fetal íntegro e bem oxigenado
- Variabilidade mínima: amplitude de 1–5 bpm. Causas benignas: sono fetal (transitório, dura até 40 minutos), sedação por medicamentos (morfina, diazepam, sulfato de magnésio). Causas preocupantes: hipóxia fetal progressiva, acidose metabólica
- Variabilidade ausente: amplitude <1 bpm (traçado "silencioso"). Sinal de alerta grave — hipóxia severa, acidose, depressão do SNC fetal. Requer avaliação imediata.
- Variabilidade aumentada (saltatória): amplitude >25 bpm de forma persistente. A fisiopatologia é incompletamente compreendida; pode acompanhar desacelerações recorrentes e deterioração rápida da oxigenação, provavelmente refletindo instabilidade autonômica — não é sinônimo de "cordão comprimido"
3. Acelerações
Aumento transitório da FCF acima da linha de base, com amplitude ≥15 bpm e duração ≥15 segundos (em fetos ≥32 semanas; ≥10 bpm/10 segundos em fetos <32 semanas). As acelerações ocorrem em resposta aos movimentos fetais — são o reflexo cardíaco do bebê "acordado e ativo".
- No NST anteparto: a presença de 2 ou mais acelerações em ~20 minutos define o traçado reativo — forte indicador de bem-estar fetal, baixo risco de acidose. A ausência de acelerações em 40 minutos torna o traçado não reativo (pode ser apenas sono fetal; requer avaliação adicional — estímulo vibroacústico, prolongamento do exame, perfil biofísico/Doppler)
- No trabalho de parto (CTG intraparto): as acelerações são tranquilizadoras quando presentes, mas não são obrigatórias. A FIGO afirma que a ausência de acelerações num traçado intraparto de resto normal (110–160, variabilidade moderada, sem desacelerações patológicas) dificilmente significa hipóxia — por isso "ausência de aceleração" isolada, no parto, não deve ser lida como sinal de sofrimento
- Antes de 32 semanas o feto muitas vezes ainda não gera acelerações de 15×15: um NST "não reativo" pela régua do termo é frequente na prematuridade (até ~50% entre 24–28 semanas; ~15% entre 28–32) — por isso usa-se o critério de 10 bpm/10 segundos e interpreta-se com cautela
4. Desacelerações
Reduções transitórias da FCF abaixo da linha de base. O tipo e o padrão das desacelerações têm enorme importância diagnóstica:
Desacelerações precoces (DIP I)
Queda gradual e simétrica da FCF que começa junto com a contração e retorna à linha de base ao final da contração — espelho da contração no traçado. Causadas pela compressão da cabeça fetal no canal de parto, que ativa reflexo vagal (estimulação do nervo vago pelo aumento de pressão intracraniana). Podem ocorrer no trabalho de parto e, quando realmente precoces e sem outras alterações, são benignas.
Desacelerações tardias (DIP II)
Queda gradual da FCF que começa após o pico da contração e retorna à linha de base após o fim da contração — há um atraso ("lag") característico. Refletem uma resposta quimiorreceptora à hipoxemia fetal transitória relacionada às contrações: durante a contração, cai a oferta de oxigênio à placenta. Isso pode ocorrer não só por reserva placentária limitada, mas também por taquissistolia, hipotensão materna ou redução do fluxo uteroplacentário — ou seja, não exige necessariamente uma "placenta cronicamente insuficiente".
Uma desaceleração tardia isolada não equivale automaticamente a sofrimento fetal. O significado depende de repetição, duração, linha de base, variabilidade, evolução no tempo, frequência das contrações e do quadro materno. São um achado preocupante sobretudo quando recorrentes ou associadas a redução da variabilidade ou elevação da linha de base — pela FIGO, o traçado torna-se patológico com tardias repetitivas por mais de 30 minutos (ou mais de 20 minutos se a variabilidade estiver reduzida).
Desacelerações variáveis (DIP umbilical)
Queda abrupta (início em menos de 30 segundos) da FCF, de morfologia variável, com duração e magnitude variáveis entre as contrações. Causadas por compressão do cordão umbilical — transitória durante as contrações ou movimentos fetais. Muito comuns no trabalho de parto.
As diretrizes atuais avaliam as variáveis pela presença de características preocupantes — e não simplesmente pela profundidade da queda. O NICE valoriza sinais como duração superior a 60 segundos, variabilidade reduzida dentro da desaceleração, recuperação lenta ou incompleta à linha de base e perda dos "ombros" (acelerações antes/depois) previamente presentes.
- Variáveis sem características preocupantes: recuperação rápida, com "ombros" preservados e sem os sinais acima — geralmente benignas quando isoladas
- Variáveis com características preocupantes: duração >60 s, recuperação lenta/incompleta, perda dos ombros ou variabilidade reduzida associada — indicam compressão de cordão mais significativa e merecem atenção
Desacelerações prolongadas
A definição do limiar de tempo varia entre os sistemas: a nomenclatura ACOG/NICHD considera "prolongada" a partir de ≥2 minutos (e >10 minutos passa a ser nova linha de base), enquanto a FIGO usa >3 minutos e considera particularmente grave a que ultrapassa 5 minutos com FCF <80 e variabilidade reduzida. Causas: hipotensão materna (pós-anestesia), atividade uterina excessiva, prolapso de cordão, descolamento de placenta, compressão prolongada do cordão.
Bradicardia ou desaceleração prolongada exige avaliação imediata; quanto maior a duração e menor a FCF — especialmente com redução da variabilidade — maior a preocupação e a necessidade de acelerar o nascimento. O NICE orienta avaliação obstétrica urgente diante de desaceleração/bradicardia ≥3 minutos e, se ela persistir por cerca de 9 minutos, acelerar o parto (podendo ser antes, conforme outros fatores). Ou seja, a urgência depende da duração, da recuperação e da causa — não de um único valor rígido.
5. Contrações uterinas
O tocodinamômetro registra a frequência, duração e regularidade das contrações, mas não a intensidade (que só pode ser medida com cateter de pressão intrauterino). Em condições normais:
- Até 5 contrações em 10 minutos é considerado normal
- Taquissistolia: >5 contrações em 10 minutos — pode comprometer a oxigenação fetal; exige redução ou interrupção da ocitocina se em uso
📊 Resumo rápido: o que cada achado significa
| Achado no traçado | O que significa |
|---|---|
| Linha de base 110–160 bpm | Normal |
| Variabilidade moderada (6–25 bpm) | Bom sinal — bebê bem oxigenado |
| Acelerações presentes (≥2 em 20 min) | Reatividade — sinal tranquilizador |
| Desacelerações precoces (DIP I) | Benignas (compressão da cabeça no parto) |
| Desacelerações tardias (DIP II) | Atenção — mais preocupantes se recorrentes ou com variabilidade reduzida |
| Variabilidade ausente / bradicardia | Sinal de alerta — avaliação imediata |
| CTG não reativo | Pode ser sono fetal — precisa de avaliação adicional |
Resumo simplificado — a interpretação real considera todos os parâmetros em conjunto e o contexto clínico.
O que significa cardiotocografia alterada?
Existem dois sistemas diferentes — que não devem ser misturados. A FIGO (2015) classifica o traçado intraparto em normal / suspeito / patológico. A ACOG/NICHD usa Categoria I / II / III (a Categoria I exige 110–160, variabilidade moderada e ausência de desacelerações tardias ou variáveis, com acelerações e precoces podendo estar presentes ou ausentes; a Categoria III é a mais grave; a Categoria II é tudo o que não entra em I nem III). A seguir usamos a estrutura da FIGO, mais comum no Brasil:
| Categoria (FIGO 2015) | FCF de base | Variabilidade | Desacelerações |
|---|---|---|---|
| ✅ Normal | 110–160 bpm | 5–25 bpm | Sem desacelerações repetitivas |
| ⚠️ Suspeito | Falta pelo menos uma característica de normalidade, sem nenhuma característica patológica | ||
| 🚨 Patológico | <100 bpm | Reduzida, aumentada ou sinusoidal (conforme a duração) | Tardias ou prolongadas repetitivas dentro dos critérios de tempo, ou desaceleração prolongada >5 min |
A conduta depende sempre do conjunto do traçado e do contexto clínico — ver abaixo.
Traçado normal (FIGO: normal)
- FCF de base: 110–160 bpm
- Variabilidade: 5–25 bpm (FIGO)
- Ausência de desacelerações repetitivas
- Acelerações não são obrigatórias no trabalho de parto; desacelerações precoces podem estar presentes
Conduta: manutenção do manejo obstétrico padrão.
Traçado suspeito / indeterminado (FIGO: suspeito)
Falta pelo menos uma característica de normalidade, mas sem nenhum sinal francamente patológico. É um traçado que pede atenção e correção de causas, não uma conduta de emergência.
Conduta: monitoração contínua e busca ativa da causa — corrigir posição materna quando apropriado, reduzir/suspender a ocitocina se houver atividade uterina excessiva, tratar hipotensão materna. Alguns centros dispõem de métodos adicionais de avaliação intraparto (por exemplo, a estimulação do couro cabeludo fetal, em que a presença de aceleração é tranquilizadora); a disponibilidade e o uso variam conforme o protocolo. O Doppler fetal não é o exame para decidir se uma CTG intraparto suspeita representa acidemia — ele é uma ferramenta anteparto (doença placentária/RCF).
Traçado patológico (FIGO: patológico)
Sinais de comprometimento fetal significativo:
- Variabilidade ausente ou bradicardia sinusoidal
- Desacelerações tardias recorrentes
- Desacelerações variáveis complicadas recorrentes com variabilidade reduzida
- Bradicardia grave persistente (<100 bpm)
- Padrão sinusoidal (oscilação regular, suave, sem variabilidade de curto prazo — associado a anemia fetal grave)
Conduta: ação imediata para identificar e corrigir a causa — não se trata de aplicar um "pacote" fixo. As medidas incluem mudar a posição materna quando apropriado, reduzir ou suspender a ocitocina diante de taquissistolia (podendo-se considerar tocolítico, como a terbutalina, em situação adequada), tratar hipotensão materna, e avaliar a necessidade de acelerar o nascimento (cesárea de urgência se o parto vaginal não for iminente).
⚠️ O que mudou na conduta (2025–2026)
- Oxigênio materno de rotina saiu. O NICE recomenda não oferecer oxigênio facial como medida de ressuscitação fetal a uma gestante normoxêmica — não há benefício demonstrado e pode ser prejudicial. O O₂ fica reservado a uma indicação materna (por exemplo, hipoxemia) ou ao contexto anestésico. A lista de ressuscitação intrauterina da ACOG (CPG nº 10, 2025) também não inclui oxigênio.
- Hidratação IV não é universal. Não se deve infundir soro apenas para corrigir alterações da FCF — reserva-se a hipotensão, sepse ou outra indicação materna (por exemplo, após bloqueio neuroaxial).
- A medida mais eficaz e reversível costuma ser tratar a atividade uterina excessiva (reduzir/parar ocitocina, considerar tocolítico), uma das causas mais frequentes de hipóxia intraparto.
CTG no pré-natal: classificação do NST
Para o teste anteparto (NST), a classificação mais usada é:
- Reativo: ≥2 acelerações de ≥15 bpm/15 segundos em 20 minutos, com variabilidade moderada — excelente valor preditivo negativo (~99,8%)
- Não reativo: ausência de 2 acelerações em 40 minutos — requer complementação diagnóstica (estímulo vibroacústico, perfil biofísico fetal, Doppler)
- Suspeito: acelerações presentes mas com amplitude ou duração insuficientes, ou variabilidade limítrofe
📉 O número correto de falso-negativo
A ACOG cita como taxa histórica de falso-negativo (óbito fetal até uma semana após um teste normal): NST ≈ 1,9 por 1.000; teste estressante (CST) ≈ 0,3/1.000; perfil biofísico ou PBF modificado ≈ 0,8/1.000. Ou seja, um NST reativo é muito tranquilizador (valor preditivo negativo ~99,8%), mas o número correto para o NST é ~1,9/1.000 — não "<1/1.000" (esse valor mais baixo corresponde ao PBF).
Perfil biofísico fetal (PBF): a CTG em contexto
A CTG frequentemente é avaliada como parte do perfil biofísico fetal (PBF), que combina 5 parâmetros, cada um pontuado em 0 ou 2 (máximo 10 pontos):
- NST reativo (2 pontos)
- Movimentos respiratórios fetais (≥1 episódio de ≥30 segundos em 30 min)
- Movimentos corporais fetais (≥3 movimentos em 30 min)
- Tônus fetal (extensão/flexão de membro ou abertura/fechamento de mão)
- Volume de líquido amniótico (bolsão ≥2 cm)
Pontuação ≥8/10 = geralmente tranquilizador; 6/10 = equívoco/duvidoso, repetir (frequentemente em 24h); ≤4/10 = fortemente anormal, exige avaliação obstétrica imediata. A decisão sobre antecipar o parto não vem só da soma: depende da idade gestacional e do contexto — num feto muito prematuro, por exemplo, "2 pontos" não indica automaticamente o nascimento. Além disso, o líquido amniótico tem peso próprio: o oligoidrâmnio altera a conduta independentemente da pontuação total.
Limitações da cardiotocografia
A CTG é um exame valioso, mas tem limitações importantes que todo obstetra — e toda gestante — deve conhecer:
- Alta sensibilidade, especificidade moderada: a CTG é muito boa em afastar sofrimento fetal quando normal, mas tem alta taxa de falsos positivos — muitos traçados "suspeitos" não correspondem a acidose real. Esse é o principal motivo pelo qual a CTG contínua intraparto aumenta intervenções: a melhor síntese Cochrane mostra aumento de cesárea (RR ≈ 1,63) e de parto vaginal instrumental (RR ≈ 1,15), com redução de convulsões neonatais, mas sem redução clara de mortalidade perinatal ou paralisia cerebral. Por isso a interpretação criteriosa é tão importante.
- Variabilidade interobservador: a interpretação visual do traçado varia de forma significativa entre observadores — a análise computadorizada (sistema Oxford/Dawes–Redman) reduz essa subjetividade com critérios quantitativos próprios (não a escala de 10 pontos do PBF). A RCOG (2026) recomenda a CTG computadorizada na avaliação de movimentos fetais reduzidos a partir de 26 semanas.
- Não mede pH fetal: a CTG avalia o comportamento do coração fetal, não o pH do sangue. A microanálise de pH no couro cabeludo fetal, muito citada no passado, não tem hoje recomendação robusta — o NICE revisou a evidência e concluiu não poder recomendar a coleta de sangue fetal; além disso, é pouco disponível. Pode ser usada em determinados centros, conforme protocolo.
- Não diagnostica todas as causas de sofrimento fetal: anomalias cromossômicas, malformações cardíacas e anemia fetal grave (padrão sinusoidal) têm padrões específicos que exigem experiência para reconhecer
Cardiotocografia normal significa que o bebê está bem?
Sim — com uma ressalva importante sobre o que "normal" significa. Um traçado cardiotocográfico reativo é um achado muito tranquilizador e indica baixa probabilidade de comprometimento hipóxico naquele momento. Vale lembrar que a CTG é um teste indireto da resposta autonômica fetal — não uma medida direta de oxigênio ou de pH no sangue do bebê.
O que é considerado tranquilizador na CTG
| Parâmetro | Achado esperado (normal) |
|---|---|
| Linha de base (FCF) | 110–160 bpm |
| Variabilidade | Moderada: 6–25 bpm |
| Acelerações | 2 ou mais em 20 minutos |
| Desacelerações tardias | Ausentes |
A ressalva essencial: um NST reativo tem excelente valor preditivo negativo, mas não é um "prazo de validade" de sete dias. A deterioração pode ser rápida em situações como RCF grave, pré-eclâmpsia, descolamento, colestase ou infecção. Por isso a frequência de repetição depende da doença e da evolução clínica — pode ir de semanal a duas vezes por semana, ou muito mais frequente. Uma CTG normal informa que o feto estava bem naquele momento, não que ficará bem por semanas.
Em números: a taxa histórica de falso-negativo do NST é de aproximadamente 1,9 por 1.000 (valor preditivo negativo ~99,8%) — muito tranquilizador, mas não "<1/1.000", cifra que corresponde ao perfil biofísico.
Quantos pontos são normais na cardiotocografia?
A CTG isolada não usa sistema de pontos — ela classifica o traçado como reativo, não reativo ou suspeito. A escala de pontos é do Perfil Biofísico Fetal (PBF), exame que combina a CTG com quatro parâmetros avaliados ao ultrassom, cada um valendo 0 ou 2 pontos (máximo 10).
Pontuação do PBF: o que significa
| Pontuação | Significado | Conduta |
|---|---|---|
| 8–10/10 | Bem-estar fetal ✅ | Seguimento habitual conforme risco |
| 6/10 | Duvidoso ⚠️ | Repetir em 24h; considerar parto se ≥36 semanas |
| 4/10 | Comprometimento provável | Avaliar antecipação do parto |
| 0–2/10 | Comprometimento grave 🚨 | Avaliação imediata; parto conforme idade gestacional e contexto |
A CTG contribui com 2 pontos para o PBF (quando o traçado é reativo). Se o médico solicitou "cardiotocografia com pontuação" ou falou em "10 pontos", provavelmente está se referindo ao perfil biofísico completo, que inclui a CTG.
Cardiotocografia substitui o ultrassom?
Não. CTG e ultrassom são exames complementares com objetivos diferentes. Quando indicados juntos, cada um fornece informações que o outro não consegue — e nenhum substitui o outro.
CTG, Perfil Biofísico e Doppler: o que cada exame avalia
| Exame | O que avalia | Principal uso |
|---|---|---|
| CTG | Frequência cardíaca fetal e contrações | Bem-estar fetal em tempo real |
| PBF (ultrassom + CTG) | Movimentos, tônus, líquido amniótico e CTG | Avaliação global do bem-estar fetal |
| Doppler fetal | Circulação nas artérias umbilical, cerebral e uterina | Detecção de insuficiência placentária |
| Ultrassom (biometria) | Tamanho, crescimento, anatomia e líquido amniótico | Monitoramento do crescimento fetal |
Na prática: a CTG detecta sofrimento fetal agudo rapidamente — é o "alarme em tempo real". O ultrassom e o Doppler avaliam a causa e a evolução crônica do comprometimento. Em gestações de risco, os três são complementares e frequentemente solicitados em conjunto.
A CTG é como uma "janela" para o bem-estar do feto — não mostra tudo, mas quando é normal (reativo, com boa variabilidade e acelerações), diz com grande confiança que o feto está bem naquele momento. É essa segurança que torna o exame tão valioso no acompanhamento das gestações de risco.
💬 Da prática clínica
A cardiotocografia (o "exame do coraçãozinho") é uma das formas de avaliar o bem-estar do bebê, sobretudo no fim da gravidez e no trabalho de parto. Ajuda a decidir condutas com mais segurança. É indolor e não oferece risco. — Dra. Gabriella Dourado
Perguntas Frequentes
A cardiotocografia dói ou faz mal para o bebê?
Não. O exame é completamente indolor e não invasivo — os sensores ficam fixados na barriga com cintos elásticos e usam ultrassom de baixa intensidade, sem nenhum risco para a mãe ou para o bebê. Você pode sentir leve desconforto apenas pela posição deitada por 20 a 30 minutos.
Por que minha CTG foi "não reativa"? Significa que meu bebê está mal?
Nem sempre. A causa mais comum de um traçado não reativo é simplesmente o bebê estar dormindo — o ciclo de sono fetal dura até 40 minutos. Nesse caso, o médico pode estimular o bebê (estímulo vibroacústico) ou prolongar o exame. Apenas quando o traçado permanece não reativo e associado a outras alterações é que há preocupação real.
A partir de que semana é pedida a cardiotocografia?
Depende da indicação. Para vigilância programada em muitas gestações de risco, começa-se por volta de 32 semanas (varia conforme a doença — às vezes só no termo). Mas em situações agudas — sobretudo diminuição dos movimentos fetais — pode ser indicada antes: a RCOG (2026) recomenda CTG computadorizada a partir de 26 semanas nesse contexto. O exame não é de rotina para todas as gestantes.
O que são as acelerações no traçado da CTG?
Acelerações são aumentos temporários dos batimentos cardíacos do bebê, que acontecem quando ele se mexe — são o "sinal de que o bebê está ativo e bem". No teste anteparto (NST), a presença de duas ou mais acelerações em cerca de 20 minutos indica um traçado reativo — um excelente sinal de bem-estar. Já no trabalho de parto, as acelerações não são obrigatórias: um traçado com frequência e variabilidade normais e sem desacelerações patológicas continua tranquilizador mesmo sem elas.
O que significa variabilidade na cardiotocografia?
Variabilidade é a oscilação natural dos batimentos do coração do bebê em torno de um valor médio. Uma variabilidade moderada (6 a 25 bpm de amplitude) mostra que o sistema nervoso autônomo do bebê está funcionando bem e ele está oxigenado. Variabilidade muito baixa ou ausente pode indicar que o bebê está dormindo, sedado por medicamentos ou, em casos mais graves, com falta de oxigênio.
Desacelerações na CTG sempre significam sofrimento fetal?
Depende do tipo e do contexto. As desacelerações precoces, que espelham as contrações, costumam ser benignas. As desacelerações tardias merecem atenção — refletem redução do oxigênio durante as contrações —, mas uma tardia isolada não significa automaticamente sofrimento fetal: o que importa é a repetição, a duração e, principalmente, a variabilidade e o conjunto do traçado. Por isso a interpretação considera sempre o quadro completo, e não um único achado.
Preciso fazer CTG se meu bebê parou de se mexer normalmente?
Sim, e essa é uma das indicações mais urgentes do exame. Diminuição dos movimentos fetais percebida pela mãe é sinal de alerta que precisa de avaliação no mesmo dia. Não espere a próxima consulta — procure atendimento obstétrico imediatamente para que o bem-estar do bebê seja verificado.
Cardiotocografia normal significa que o bebê está bem?
Sim, com uma ressalva. Um traçado reativo (FCF de base 110–160 bpm, variabilidade moderada, duas ou mais acelerações em 20 minutos no NST e ausência de desacelerações tardias) é muito tranquilizador e indica baixa probabilidade de comprometimento hipóxico naquele momento. A taxa histórica de falso-negativo do NST é de cerca de 1,9 por 1.000 (e não inferior a 1 em 1.000, cifra que corresponde ao perfil biofísico). A ressalva: isso não é um prazo de validade de sete dias — a frequência de repetição depende da doença e da evolução clínica; a CTG informa que o bebê estava bem no momento do exame, não que ficará bem por semanas.
Quantos pontos são normais na cardiotocografia?
A cardiotocografia isolada não usa sistema de pontos — ela classifica o traçado como reativo, não reativo ou suspeito. A escala de pontos pertence ao Perfil Biofísico Fetal (PBF), que combina a CTG com quatro parâmetros avaliados ao ultrassom, cada um valendo 0 ou 2 pontos (máximo 10). Pontuação de 8 a 10 indica bem-estar fetal; 6 é duvidoso (repetir em 24h); 4 ou menos sugere comprometimento. A CTG contribui com 2 pontos quando o traçado é reativo.
A cardiotocografia substitui o ultrassom?
Não. CTG e ultrassom são exames complementares com objetivos diferentes. A CTG avalia a frequência cardíaca fetal e as contrações em tempo real — é o alarme de sofrimento fetal agudo. O ultrassom avalia anatomia, biometria, crescimento, líquido amniótico e placenta, e o Doppler avalia a circulação placentária. Em gestações de risco, os três costumam ser solicitados em conjunto, e nenhum substitui o outro.
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A Dra. Gabriella Dourado realiza acompanhamento de gestações de risco em São Paulo, incluindo cardiotocografia, Doppler fetal e perfil biofísico, com interpretação especializada e conduta segura para cada situação.
Agendar monitoramento fetal →Conteúdo informativo. Este artigo não substitui a consulta médica. Para avaliação individualizada, procure um obstetra.
Referências: ACOG Clinical Practice Guideline No. 10 — Intrapartum Fetal Heart Rate Monitoring: Interpretation and Management (2025); ACOG Practice Bulletin No. 229 — Antepartum Fetal Surveillance (2021, reafirmado 2024); FIGO Intrapartum Fetal Monitoring Expert Consensus (2015); NICE — Intrapartum care (NG235) / Fetal monitoring; RCOG Green-top Guideline No. 57 — Reduced Fetal Movements (2ª ed., 2026); SMFM (restrição de crescimento fetal); Cochrane (monitorização fetal contínua vs. ausculta intermitente); FEBRASGO; Fetal Medicine Foundation.