Ginecologia

Reposição hormonal na menopausa: benefícios, riscos e quando fazer

📅 Atualizado em agosto de 2026 ⏱ Leitura: 17 minutos 👩‍⚕️ Revisado por especialista em ginecologia

Poucos temas da saúde da mulher foram tão mal compreendidos quanto a reposição hormonal. Depois de um grande estudo no início dos anos 2000, milhões de mulheres abandonaram o tratamento por medo — muitas vezes desnecessariamente. Hoje, com os dados reanalisados e as diretrizes atualizadas, sabemos que, para a mulher certa, no momento certo, a terapia hormonal é segura e transforma a qualidade de vida.

Este guia explica, sem alarmismo, o que é a terapia de reposição hormonal (TRH), seus benefícios, os tipos e vias, a importante "janela de oportunidade", os riscos reais e as alternativas. Para entender a fase como um todo, veja também o artigo sobre menopausa e climatério.

📌 Em resumo

  • O que é: uso de estrogênio (com progestagênio, se há útero) para tratar sintomas da menopausa — mais "terapia hormonal" do que reposição propriamente dita
  • Para que serve: tratamento mais eficaz para fogachos; melhora a secura vaginal e protege os ossos. Ajuda o sono e o humor sobretudo quando eles pioraram por causa dos sintomas — não é tratamento geral para insônia nem para depressão
  • Quando começar: a relação benefício-risco é melhor antes dos 60 anos ou em até 10 anos da menopausa — mas não há idade-limite absoluta
  • Vias: comprimido, gel, adesivo ou vaginal — a transdérmica tem menor risco de trombose
  • Decisão: sempre individualizada com o ginecologista

O que é a terapia hormonal

A terapia hormonal da menopausa (THM), popularmente chamada de reposição hormonal, usa principalmente estrogênio — associado a um progestagênio quando a mulher tem útero — para tratar sintomas da transição menopausal e da pós-menopausa e prevenir a perda óssea em mulheres selecionadas.

Na menopausa, os ovários param de produzir estrogênio e progesterona. É essa queda que provoca os sintomas — fogachos, suores noturnos, secura vaginal, alterações do sono e do humor. A terapia hormonal (TH) usa principalmente o estrogênio para aliviar esses sintomas e prevenir consequências da carência hormonal, como a perda óssea.

Uma observação sobre o nome: o termo consagrado é "reposição hormonal", e ele continua sendo usado aqui porque é como a maioria das mulheres procura o assunto. Mas as sociedades médicas hoje preferem terapia hormonal da menopausa. A diferença não é só de palavras: na menopausa que acontece na idade habitual, o objetivo não é devolver os níveis hormonais de uma mulher de 25 anos, e sim tratar sintomas e prevenir consequências específicas. A ideia de reposição fisiológica se aplica muito melhor a quem entra em menopausa cedo, como se explica adiante.

Um ponto fundamental: se a mulher ainda tem útero, o estrogênio precisa ser combinado com um progestagênio (ou progesterona), que protege o endométrio do estímulo excessivo do estrogênio. Após histerectomia total, em geral pode-se usar estrogênio isolado.

Benefícios da reposição hormonal

  • Fogachos e suores noturnos: a terapia hormonal é o tratamento mais eficaz que existe para as ondas de calor — o sintoma que mais leva mulheres ao consultório
  • Saúde íntima: melhora o ressecamento vaginal, o desconforto e a dor na relação (a chamada síndrome geniturinária da menopausa)
  • Ossos: previne a perda de massa óssea e reduz o risco de fraturas — importante na prevenção da osteoporose
  • Sono, humor e qualidade de vida: ao reduzir os sintomas, melhora indiretamente (e às vezes diretamente) o sono e o bem-estar. Vale a nuance: o benefício sobre o sono é claro sobretudo em quem tem fogachos e suor noturno — a terapia hormonal não é um tratamento geral para insônia nem para depressão
Sintoma Melhora com a terapia hormonal?
Fogachos e suores noturnosSim (o mais eficaz)
InsôniaFrequentemente (sobretudo se ligada ao suor noturno)
Secura vaginal e dor na relaçãoSim
Saúde óssea (osteoporose)Sim (previne a perda óssea)
Ganho de pesoNão diretamente
Memória / cogniçãoEvidência limitada — não se inicia TH para prevenir demência

Tipos e vias de administração

A terapia hormonal pode ser ajustada de muitas formas — e essa flexibilidade é o que permite personalizar o tratamento:

Quanto à composição

  • Estrogênio isolado: em geral, apenas após histerectomia total
  • Estrogênio + progestagênio: para mulheres com útero (o progestagênio protege o endométrio). O DIU de levonorgestrel 52 mg (Mirena®) pode fornecer essa parte progestagênica, com proteção endometrial por até 5 anos. Atenção: isso vale para o de 52 mg — os DIUs hormonais de dose menor, como o Kyleena® 19,5 mg, têm indicação de contracepção, não de proteção endometrial na terapia hormonal

Quanto à via

  • Transdérmica (gel ou adesivo): o estrogênio entra direto na circulação, sem passar pelo fígado. Tem menor risco de trombose do que a via oral — por isso, costuma ser a preferida em muitos casos, e ganha vantagem especialmente na obesidade, nos triglicerídeos elevados, em quem tem maior risco trombótico ou perfil cardiometabólico desfavorável, e na enxaqueca, quando se busca menos flutuação hormonal
  • Oral (comprimidos): prática, mas com risco um pouco maior de trombose por passar pelo fígado
  • Vaginal: em creme, óvulo ou comprimido — atua localmente nos sintomas íntimos, com absorção mínima para o corpo

Esquema contínuo ou sequencial

Quando se usa estrogênio com progestagênio, existem dois formatos:

  • Sequencial (ou cíclico): estrogênio todos os dias e progestagênio durante parte do mês. Costuma produzir um sangramento programado, parecido com uma menstruação. É o formato mais usado na perimenopausa e no início da pós-menopausa
  • Combinado contínuo: estrogênio e progestagênio todos os dias, com o objetivo de não sangrar. Costuma ser escolhido quando a menopausa já está estabelecida

E dá para começar ainda menstruando? Sim. Muitas mulheres iniciam tratamento durante a perimenopausa, quando os sintomas já incomodam mas os ciclos ainda não pararam. Nessa fase o esquema precisa considerar o padrão de sangramento e — ponto importante — a necessidade de contracepção, porque a terapia hormonal da menopausa não é um método anticoncepcional.

A menopausa não precisa ser sofrida em silêncio

A Dra. Gabriella Dourado é ginecologista em São Paulo e avalia, de forma individualizada, se e como a reposição hormonal pode melhorar a sua qualidade de vida.

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A janela de oportunidade: quando começar

Este é um dos conceitos mais importantes da terapia hormonal moderna. A janela de oportunidade é o período em que o equilíbrio entre benefícios e riscos é mais favorável: antes dos 60 anos ou dentro de 10 anos do início da menopausa.

Iniciar dentro dessa janela tende a oferecer os benefícios com riscos baixos e, em mulheres saudáveis, o perfil cardiovascular costuma ser neutro ou até favorável. Mas isso não significa que exista uma idade-limite absoluta. Aos 61 anos não se fecha uma porta: o que muda é que os riscos de base (cardiovascular, AVC, trombose) sobem com a idade, então iniciar mais tarde exige uma avaliação mais criteriosa e, quando a terapia for apropriada, costuma-se preferir doses menores e a via transdérmica. O estrogênio vaginal, por sua vez, pode ser usado em qualquer idade.

⚠️ Um limite importante

A terapia hormonal não deve ser iniciada com a finalidade de prevenir infarto, AVC ou demência. O perfil cardiovascular favorável na janela de oportunidade é um argumento de segurança para quem tem sintomas — não uma indicação de tratamento preventivo. Quem não tem sintomas não deve começar hormônio "para proteger o coração".

E existe idade obrigatória para parar? Não. Não há uma idade em que toda mulher deva suspender a terapia — nem aos 60, nem aos 65. O que existe é a necessidade de reavaliar periodicamente se ela continua fazendo sentido, conforme os sintomas, a saúde geral, o tipo de terapia e a evolução dos riscos individuais.

Insuficiência ovariana prematura e menopausa precoce

Antes de tudo, dois termos que costumam ser tratados como sinônimos e não são:

  • Insuficiência ovariana prematura (IOP): perda ou disfunção da função ovariana antes dos 40 anos
  • Menopausa precoce: menopausa que ocorre entre 40 e 45 anos

Nos dois casos a situação é diferente da menopausa na idade habitual, e a IOP é a mais marcante. Aqui a terapia hormonal não é apenas uma opção para sintomas — é recomendada até aproximadamente a idade natural da menopausa (em torno dos 50–51 anos), salvo contraindicação, mesmo quando os sintomas não são intensos. O motivo: a carência precoce de estrogênio aumenta, a longo prazo, o risco de osteoporose, de doença cardiovascular e de impacto cognitivo. Nessas mulheres a ideia de reposição se aplica bem — está se devolvendo o que o corpo deveria estar produzindo —, com balanço risco/benefício mais favorável do que na menopausa na idade habitual e, em geral, com doses maiores. Quem entra em menopausa entre 40 e 45 anos também merece atenção especial ao impacto ósseo e cardiovascular. Veja também menopausa e climatério.

⚠️ A terapia hormonal não é anticoncepcional

Este é um ponto prático que gera gravidez não planejada. A terapia hormonal da menopausa não bloqueia a ovulação de forma confiável e não serve como método contraceptivo. Na perimenopausa e mesmo na insuficiência ovariana prematura pode haver ovulação esporádica — quem não deseja engravidar ainda precisa de contracepção.

Quem pode e quem não pode fazer

A boa candidata à terapia hormonal é, em geral, a mulher com sintomas que comprometem a qualidade de vida, dentro da janela de oportunidade e sem contraindicações. Já a terapia hormonal sistêmica é contraindicada nas seguintes situações:

  • Câncer de mama atual ou prévio, ou outro tumor dependente de estrogênio
  • Sangramento vaginal de causa não esclarecida (deve ser investigado antes)
  • Trombose venosa ou embolia pulmonar em atividade
  • Histórico de infarto, AVC ou doença cardiovascular estabelecida
  • Doença hepática grave em atividade

Uma situação que merece ser separada é o histórico de trombose ou trombofilia, sem evento em atividade. Aqui não se trata de um "não" automático, mas de uma decisão que exige avaliação individualizada e frequentemente especializada: o estrogênio oral em geral deve ser evitado, e em casos selecionados as sociedades internacionais admitem considerar o estradiol transdérmico, que tem perfil trombótico mais favorável. As diretrizes brasileiras são mais conservadoras nesse ponto do que as internacionais — mais um motivo para a conversa ser individual, e não uma regra de bolso.

💡 Contraindicação não é o fim da linha

Mesmo quem não pode fazer a terapia sistêmica costuma ter alternativas: o estrogênio vaginal em baixa dose (para os sintomas íntimos) e as opções não hormonais para os fogachos. Vale sempre conversar com o ginecologista.

A reposição causa câncer de mama? Os riscos

Aqui está o ponto que mais gera medo — e mais merece contexto. Em 2002, um grande estudo (o WHI) divulgou um aumento de risco que foi amplamente noticiado e levou ao abandono em massa da terapia. O problema não foi exatamente o estudo, e sim o que se fez com ele: o WHI testou formulações específicas, em uma população de idade média relativamente alta e muitas vezes anos depois da menopausa — e seus resultados foram generalizados para mulheres, idades, vias e formulações bem diferentes das que haviam sido estudadas. As análises posteriores mostraram que idade, tempo desde a menopausa, tipo de hormônio, presença ou não de útero e via de administração mudam de forma importante a relação entre benefícios e riscos.

O que se entende hoje:

  • Câncer de mama: a terapia combinada (estrogênio + progestagênio) está ligada a um pequeno aumento do risco, que cresce com a duração do uso, aparece sobretudo após cerca de 5 anos e diminui progressivamente depois da interrupção. Os esquemas sequenciais parecem ter risco menor que os contínuos. Já o estrogênio isolado — indicado principalmente após histerectomia total — tem um perfil mamário diferente, com pouco ou nenhum aumento de risco nas evidências atuais.
  • Endométrio: em quem tem útero, o estrogênio sistêmico sem proteção progestagênica adequada aumenta o risco de hiperplasia endometrial e de câncer de endométrio. É por isso que o progestagênio (ou o DIU de levonorgestrel 52 mg) não é um detalhe opcional — e por isso que não se usa "estradiol sozinho porque é bioidêntico".
  • Trombose e AVC: o risco está mais associado à via oral; a via transdérmica (gel/adesivo) tem risco bem menor.
  • Coração: iniciar na janela de oportunidade é neutro a favorável; iniciar tardiamente aumenta o risco.

Para dar dimensão: em termos absolutos o aumento é pequeno para muitas mulheres, mas não existe um número universal. Ele depende da duração do uso, do esquema (contínuo ou sequencial), do tipo de progestagênio, da idade, do peso, do consumo de álcool, da história familiar e do risco de base de cada uma. Por isso o número que importa é o seu, estimado na consulta — e não uma estatística única aplicada a todo mundo.

Em resumo: o risco existe, mas é pequeno, individual e manejável com a escolha certa de via, dose e momento — e deve ser pesado contra os benefícios reais na qualidade de vida.

📋 O que mudou nos alertas de bula em 2026

Em fevereiro de 2026, a agência norte-americana FDA aprovou a retirada, da tarja de advertência de vários produtos de terapia hormonal, das declarações gerais sobre doença cardiovascular, câncer de mama e provável demência — reconhecendo que esses riscos não se aplicam igualmente a todas as mulheres, doses, vias e formulações. Foi mantida a advertência sobre câncer de endométrio para o estrogênio isolado em quem tem útero.

Duas ressalvas necessárias. A primeira: isso não significa que a terapia hormonal passou a ser isenta de risco — seleção adequada, contraindicações e individualização continuam valendo, sobretudo quando a terapia é iniciada mais tarde ou em mulheres que já têm outras doenças. A segunda: a FDA regula bulas nos Estados Unidos. No Brasil quem define o texto das bulas é a Anvisa, então a mudança sinaliza para onde a leitura científica caminha, mas não altera automaticamente o que está escrito na caixa do seu remédio.

💬 Da prática clínica

A dúvida mais frequente no consultório é se a reposição "causa câncer". A resposta honesta é que a decisão precisa ser individualizada — considerando idade, sintomas, histórico familiar e fatores de risco — e que, para a mulher certa e no momento certo, o benefício costuma superar um risco que é pequeno. — Dra. Gabriella Dourado

Estrogênio vaginal para os sintomas íntimos

Para mulheres cujo principal incômodo é o ressecamento, a ardência ou a dor na relação, o estrogênio vaginal em baixa dose (creme, óvulo ou comprimido) é uma opção à parte e muito segura. Como age localmente, com absorção mínima para o restante do corpo, pode ser usado mesmo por muitas mulheres com contraindicação à terapia sistêmica (com avaliação individual) e em qualquer idade. Não trata os fogachos, mas resolve muito bem os sintomas geniturinários.

Dois pontos que geram dúvida com frequência:

  • Não é preciso associar progesterona só para proteger o endométrio quando se usa estrogênio vaginal em baixa dose, nas doses recomendadas. Isso é diferente da terapia sistêmica
  • O uso pode ser prolongado. A síndrome geniturinária costuma ser crônica e os sintomas em geral voltam quando o tratamento é suspenso, então ele pode ser mantido enquanto houver benefício, com acompanhamento clínico

E quem já teve câncer de mama? Começa-se geralmente pelas opções não hormonais — hidratantes e lubrificantes vaginais. Se os sintomas persistirem, o estrogênio vaginal em baixa dose pode ser considerado por decisão compartilhada. Nas pacientes em uso de inibidores de aromatase, essa conversa deve envolver especialmente a equipe que cuida do câncer de mama.

Sangramento durante a reposição hormonal é normal?

Depende de quando ele acontece — e essa é uma das orientações que mais mudou recentemente.

Primeiro, é preciso separar o sangramento programado, esperado em quem usa esquema sequencial, do sangramento não programado, que aparece fora de hora. Pequenos sangramentos não programados são relativamente comuns:

  • nos primeiros 6 meses após iniciar a terapia hormonal sistêmica
  • nos primeiros 3 meses após mudar a dose ou a apresentação

Fora desses períodos — ou se o sangramento for novo, intenso ou persistente — ele não deve ser simplesmente atribuído aos hormônios. A orientação atual é procurar avaliação médica, que costuma incluir a análise do padrão do sangramento, dos fatores de risco para câncer de endométrio e, quando indicado, ultrassonografia transvaginal. Na grande maioria das vezes a causa é benigna e o ajuste do esquema resolve — mas isso é uma conclusão a que se chega depois de investigar, não antes.

Testosterona faz parte da reposição hormonal feminina?

Não de rotina — e este é hoje um dos temas com mais desinformação circulando.

A testosterona não deve ser prescrita apenas porque um exame mostrou um valor considerado "baixo", nem com o objetivo de emagrecer, ganhar massa muscular, aumentar a disposição ou "rejuvenescer". Não há evidência que sustente esses usos.

A única indicação reconhecida pelas sociedades brasileiras — FEBRASGO, SBEM e SBC, em nota conjunta — é o transtorno do desejo sexual hipoativo na pós-menopausa, e mesmo assim depois de um diagnóstico clínico criterioso e da exclusão de outras causas de baixa libido: hipoestrogenismo, síndrome geniturinária, depressão e outros quadros psiquiátricos, efeito de medicamentos (antidepressivos, em especial), obesidade e fatores do relacionamento. Quando indicada, busca-se a dose fisiológica, por via transdérmica, com acompanhamento — e não implantes ou doses masculinizantes.

Hormônios bioidênticos e implantes

O termo "bioidêntico" gera muita confusão. É importante separar duas coisas:

  • Hormônios bioidênticos aprovados e registrados (como o estradiol e a progesterona micronizada): são, sim, parte da terapia hormonal moderna e têm respaldo científico. "Bioidêntico" aqui significa apenas que a molécula é igual à produzida pelo corpo.
  • Fórmulas manipuladas "sob medida" e implantes/pellets hormonais: não passam pelo mesmo processo de registro, padronização, estudos de eficácia e controle de qualidade de um medicamento industrializado aprovado. O problema não é a farmácia "não saber a dose" — é a ausência de estudos robustos de absorção, eficácia e segurança para muitas dessas formulações, a variabilidade entre pessoas e, nos implantes, a dificuldade de ajustar ou retirar depois de colocado.

Ou seja: "bioidêntico" não é sinônimo de mais seguro. O que importa é o produto ser aprovado e a indicação ser correta — não a propaganda em torno do nome. Quando existe um produto registrado que atende à necessidade clínica, em geral não há justificativa para preferir uma formulação manipulada sem evidência equivalente.

Sobre o estradiol transdérmico e a progesterona micronizada: os dois têm características metabólicas e trombóticas favoráveis, e estudos observacionais sugerem que a progesterona micronizada possa ter menor risco mamário do que alguns progestagênios sintéticos. Essa hipótese é plausível e muito repetida, mas ainda não há evidência robusta o bastante para afirmar que ela comprovadamente reduz o risco de câncer de mama. Vale conhecer a diferença sem transformá-la em promessa.

💉 Implantes hormonais e o "chip da beleza": como está a regra hoje

Aqui é preciso ser exato, porque a regulação mudou. Continua proibido comercializar e usar implantes hormonais manipulados à base de androgênios ou esteroides anabolizantes para finalidade estética, ganho de massa muscular ou desempenho — exatamente o caso do "chip da beleza" —, assim como a propaganda desses produtos ao público. Outras manipulações hormonais passaram a ser permitidas sob condições específicas: receita de controle especial, CID, termo de responsabilidade e notificação de eventos adversos.

Do ponto de vista clínico, porém, a mensagem das sociedades médicas não mudou: a FEBRASGO segue alertando que os implantes hormonais manipulados não têm comprovação adequada de segurança e eficácia e que não se justificam como terapia de rotina da menopausa quando existem opções registradas.

Duração e alternativas sem hormônio

Por quanto tempo? Não há um prazo máximo rígido. A orientação atual é usar a menor dose eficaz para controlar os sintomas, com reavaliação periódica (em geral anual) do benefício e do risco. A decisão de continuar ou parar é sempre individual.

E quem não pode (ou não quer) usar hormônio? Há boas alternativas:

  • Fezolinetanto (Veoza®): opção não hormonal aprovada pela Anvisa em junho de 2026, especificamente para fogachos e suores noturnos moderados a intensos. Age nas vias do cérebro que regulam a temperatura (antagonista dos receptores NK3) e é uma alternativa para quem não pode ou não quer usar hormônio. A chegada às farmácias ainda depende da definição de preço pela CMED
  • Antidepressivos em baixa dose: alguns ISRS e IRSN, como a venlafaxina e a desvenlafaxina, têm eficácia comprovada sobre os fogachos
  • Gabapentina: em situações selecionadas, sobretudo quando os fogachos atrapalham muito o sono
  • Terapia cognitivo-comportamental voltada à menopausa, com boa evidência sobre o incômodo causado pelos sintomas
  • Para a saúde íntima: hidratantes e lubrificantes vaginais
  • Estilo de vida: atividade física, controle do peso, redução de álcool e cafeína, e manejo do estresse ajudam nos sintomas e na saúde geral
A reposição hormonal não é "perigosa" nem "milagrosa" — é uma decisão médica individualizada. Para a mulher certa, no momento certo e com a via certa, ela devolve qualidade de vida com segurança. A chave é uma boa avaliação, não o medo nem o modismo.

Perguntas Frequentes

O que é a terapia de reposição hormonal?

É o tratamento que repõe os hormônios (principalmente o estrogênio) que os ovários deixam de produzir na menopausa, para aliviar os sintomas e prevenir algumas consequências da queda hormonal. Quando a mulher ainda tem útero, associa-se um progestagênio (ou progesterona) para proteger o endométrio. A terapia pode ser feita por comprimidos, gel, adesivo ou via vaginal, sempre com indicação e acompanhamento médico.

Quais os benefícios da reposição hormonal na menopausa?

A reposição hormonal é o tratamento mais eficaz para os fogachos (ondas de calor) e os suores noturnos, melhora o ressecamento e o desconforto vaginal, ajuda no sono, no humor e na qualidade de vida, e previne a perda de massa óssea (osteoporose). Quando iniciada na janela certa, tem um perfil de benefício favorável para mulheres com sintomas que comprometem o bem-estar.

A reposição hormonal causa câncer de mama?

O risco é menor e mais matizado do que o pânico criado nos anos 2000. A terapia combinada (estrogênio + progestagênio) está associada a um pequeno aumento do risco de câncer de mama, que cresce com a duração do uso, aparece sobretudo após cerca de 5 anos e diminui progressivamente após a interrupção. O estrogênio isolado, indicado principalmente após histerectomia total, tem perfil diferente, com pouco ou nenhum aumento de risco nas evidências atuais. Não existe um número único válido para todas: o risco depende do esquema, do tempo de uso, da idade e dos seus antecedentes, e deve ser estimado com o ginecologista.

Qual a melhor idade para começar a reposição hormonal?

Existe a chamada janela de oportunidade: iniciar antes dos 60 anos ou dentro de 10 anos do início da menopausa, quando o equilíbrio entre benefícios e riscos é mais favorável. Isso não significa que exista uma idade-limite absoluta: começar mais tarde não é proibido, mas exige avaliação mais criteriosa do risco cardiovascular e trombótico e costuma levar a doses menores e à via transdérmica. A terapia hormonal também não deve ser iniciada com a finalidade de prevenir infarto, AVC ou demência.

Quem não pode fazer reposição hormonal?

A reposição hormonal sistêmica é contraindicada em casos de câncer de mama atual ou prévio, outros tumores dependentes de estrogênio, sangramento vaginal sem causa esclarecida, trombose ou embolia em atividade, doença hepática grave em atividade e histórico de infarto ou AVC. Já o histórico de trombose ou trombofilia, sem evento ativo, é situação de avaliação individualizada: evita-se o estrogênio oral e, em casos selecionados, pode-se considerar o estradiol transdérmico. Mesmo com contraindicação à terapia sistêmica, o estrogênio vaginal em baixa dose e as opções não hormonais costumam ser alternativas.

Por quanto tempo posso fazer reposição hormonal?

Não existe um prazo máximo fixo e obrigatório, nem uma idade em que toda mulher deva parar — nem aos 60, nem aos 65. A recomendação atual é usar a menor dose eficaz para controlar os sintomas, com reavaliação periódica (em geral anual) do benefício e do risco. Muitas mulheres usam por alguns anos durante a fase mais sintomática; outras, com acompanhamento, mantêm por mais tempo. A decisão de continuar ou parar é individualizada com o ginecologista.

Hormônio bioidêntico é mais seguro?

Hormônios bioidênticos aprovados e registrados (como o estradiol e a progesterona micronizada) são, sim, usados na terapia hormonal moderna e têm respaldo. O problema são as fórmulas manipuladas sob medida e os implantes, que não passam pelo mesmo processo de registro, padronização e estudos de eficácia e segurança de um medicamento industrializado. Bioidêntico não é sinônimo de mais seguro: o que importa é o produto ser aprovado e a indicação ser correta. Quando existe um produto registrado que atende à necessidade, em geral não há justificativa para preferir uma manipulação.

Existe tratamento para a menopausa sem hormônio?

Sim. Para os fogachos existe o fezolinetanto (Veoza®), opção não hormonal aprovada pela Anvisa em junho de 2026, além de alguns antidepressivos em baixa dose (como venlafaxina e desvenlafaxina), da gabapentina em situações selecionadas e da terapia cognitivo-comportamental voltada à menopausa. Para o ressecamento, hidratantes e lubrificantes vaginais. Somam-se as medidas de estilo de vida. O tratamento é individualizado — converse com o ginecologista sobre a melhor estratégia para o seu caso.

A reposição hormonal funciona como anticoncepcional?

Não. A terapia hormonal da menopausa não bloqueia a ovulação de forma confiável e não é um método contraceptivo. Na perimenopausa — e mesmo na insuficiência ovariana prematura — pode haver ovulação esporádica, então quem não deseja engravidar ainda precisa de um método contraceptivo. Esse é um ponto que costuma passar despercebido e gera gravidez não planejada.

Sangramento durante a reposição hormonal é normal?

Depende de quando acontece. No esquema sequencial existe um sangramento programado, esperado. Já o sangramento não programado é relativamente comum nos primeiros 6 meses após iniciar a terapia sistêmica, ou nos primeiros 3 meses após mudar a dose ou a apresentação. Fora desses períodos, ou se o sangramento for novo, intenso ou persistente, ele não deve ser atribuído aos hormônios sem investigação: procure avaliação médica, que pode incluir ultrassonografia transvaginal.

Toda mulher na menopausa deve repor testosterona?

Não. A testosterona não deve ser prescrita apenas porque um exame mostrou valor considerado baixo, nem para emagrecer, ganhar massa muscular, aumentar a disposição ou rejuvenescer — não há evidência para esses usos. A única indicação reconhecida por FEBRASGO, SBEM e SBC é o transtorno do desejo sexual hipoativo na pós-menopausa, após diagnóstico criterioso e exclusão de outras causas de baixa libido. Quando indicada, usa-se dose fisiológica por via transdérmica, com acompanhamento.

Posso fazer reposição hormonal ainda menstruando?

Sim. Muitas mulheres começam o tratamento durante a perimenopausa, quando os sintomas já incomodam mas os ciclos ainda não pararam. Nessa fase costuma-se usar o esquema sequencial, que produz um sangramento programado, e é preciso considerar a necessidade de contracepção, já que a terapia hormonal não protege contra gravidez.

Preciso parar a reposição hormonal aos 60 ou 65 anos?

Não existe uma idade obrigatória para interromper. A necessidade de continuar deve ser reavaliada periodicamente conforme os sintomas, a saúde geral, o tipo de terapia e a evolução dos riscos individuais. Algumas mulheres mantêm o tratamento por muitos anos com acompanhamento; outras suspendem antes. A decisão é individual, não cronológica.

Quem teve câncer de mama pode usar estrogênio vaginal?

Em geral começa-se pelas opções não hormonais, como hidratantes e lubrificantes vaginais. Se os sintomas persistirem, o estrogênio vaginal em baixa dose pode ser considerado por decisão compartilhada, porque a absorção para o restante do corpo é mínima. Nas pacientes em uso de inibidores de aromatase, essa discussão deve envolver especialmente a equipe que cuida do câncer de mama.

Reposição hormonal engorda?

Não diretamente. O ganho de peso na menopausa decorre mais da idade, da queda do metabolismo e da perda de massa muscular do que da terapia hormonal, que não causa ganho de peso significativo e pode até melhorar a distribuição de gordura. Treino de força e alimentação adequada são o que mais ajudam.

Reposição hormonal aumenta o risco de trombose?

O risco está mais ligado à via oral, que passa pelo fígado. A via transdérmica (gel ou adesivo) tem risco bem menor de trombose e costuma ser a preferida, sobretudo em mulheres com fatores de risco. A escolha é sempre individualizada com o médico.

Reposição hormonal melhora a libido e o sono?

Pode melhorar os dois, muitas vezes de forma indireta: ao aliviar os fogachos e os suores noturnos, melhora o sono; e ao tratar a secura vaginal e o desconforto, pode melhorar a libido. Como a libido é multifatorial, a resposta varia de mulher para mulher.

Preciso fazer exames antes de começar a reposição hormonal?

Não existe um "painel hormonal obrigatório" para liberar a reposição. A avaliação começa pela história clínica, pelos sintomas, pela medida da pressão e pelos fatores de risco pessoais e familiares — cardiovascular, trombótico, câncer, doença hepática e sangramento anormal. Mamografia e os demais rastreamentos devem estar em dia conforme a idade e o risco, e exames como glicemia e colesterol entram conforme o contexto. Em mulheres acima de 45 anos com quadro típico, em geral não é preciso dosar hormônios para confirmar a menopausa.

Quer saber se a reposição hormonal é indicada para você?

A Dra. Gabriella Dourado é ginecologista e obstetra em São Paulo (Paraíso e Higienópolis). Ela avalia seus sintomas, antecedentes e exames para indicar — com segurança — a melhor estratégia para a sua menopausa.

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Conteúdo informativo. Este artigo não substitui a consulta médica. Para avaliação individualizada, procure um ginecologista.

Referências: International Menopause Society — “Recommendations and Key Messages on Women's Midlife Health and Menopause” (2025–2026); FEBRASGO/SBC/SOBRAC — “Diretriz Brasileira sobre Saúde Cardiovascular no Climatério e na Menopausa” (2024); NICE — “Menopause: identification and management” (NG23, atualizada em 2026); The Menopause Society — “Hormone Therapy Position Statement”; ESHRE/ASRM/IMS — diretriz de insuficiência ovariana prematura; nota conjunta SBEM/FEBRASGO/SBC sobre uso de testosterona na mulher (2025); Anvisa — aprovação do fezolinetanto (2026) e regras para implantes hormonais manipulados; FDA — revisão das advertências em bula de terapia hormonal (2026); British Menopause Society — manejo do sangramento não programado na terapia hormonal; reanálises do estudo Women's Health Initiative (WHI).