Ginecologia

Menopausa e climatério: sintomas, terapia hormonal e como manter a qualidade de vida

📅 Atualizado em agosto de 2026 ⏱ Leitura: 15 minutos 👩‍⚕️ Revisado por especialista em ginecologia

A menopausa é uma das transições mais significativas na vida de uma mulher — e também uma das mais carregadas de mitos, medos e desinformação. Não é uma doença: é uma fase fisiológica inevitável. Mas os sintomas que a acompanham podem ser intensos e impactam profundamente a qualidade de vida, a saúde cardiovascular, óssea e sexual. A boa notícia é que existem opções eficazes de tratamento — e a medicina avançou muito na compreensão de como atravessar esse período com saúde e bem-estar.

📋 Em resumo

  • Climatério: período de transição hormonal que antecede e sucede a menopausa, geralmente dos 40 aos 65 anos
  • Menopausa: último período menstrual — diagnosticada retrospectivamente após 12 meses de amenorreia. No Brasil, ocorre em média por volta dos 50 anos
  • Perimenopausa: fase de irregularidade menstrual antes da menopausa — pode durar 2 a 8 anos
  • Sintomas mais comuns: fogachos, sudorese noturna, insônia, secura vaginal, alterações de humor, ganho de peso, ressecamento de pele
  • Riscos a longo prazo: osteoporose, doença cardiovascular, síndrome genitourinária da menopausa
  • Tratamento mais eficaz: terapia hormonal da menopausa (THM) — quando indicada e iniciada no momento certo

Climatério, perimenopausa e menopausa: entendendo os termos

Os termos são frequentemente usados como sinônimos, mas têm significados distintos:

  • Climatério: período de transição endócrina e biológica que marca o fim da fase reprodutiva. Engloba os anos que precedem e seguem a menopausa — geralmente dos 40 aos 65 anos. Durante o climatério, a função ovariana declina progressivamente, com redução da produção de estrogênio e progesterona.
  • Perimenopausa: fase imediatamente antes e depois da última menstruação, caracterizada por irregularidade do ciclo menstrual, flutuações hormonais intensas e surgimento dos primeiros sintomas. Pode durar de 2 a 8 anos. É o período de maior volatilidade hormonal — e frequentemente o mais sintomático.
  • Menopausa: a última menstruação espontânea, confirmada retrospectivamente após 12 meses consecutivos sem menstruar. Marca o fim da função folicular ovariana. No Brasil, ocorre em média por volta dos 50 anos, com ampla variação individual (habitualmente entre cerca de 45 e 55 anos).
  • Pós-menopausa: todos os anos após a menopausa. Os sintomas vasomotores tendem a diminuir, mas os efeitos do hipoestrogenismo sobre ossos, coração e genitália persistem e progridem.
  • Insuficiência ovariana prematura (IOP): perda ou disfunção da atividade ovariana antes dos 40 anos (prevalência estimada entre ~1% e 3,5%). Não é sinônimo de menopausa precoce, termo usado para a menopausa entre 40 e 45 anos. Ambas se associam a maior risco cardiovascular e de osteoporose e, em geral, indicam terapia hormonal até aproximadamente a idade habitual da menopausa (em torno dos 50–51 anos), salvo contraindicação.

Sintomas do climatério e da menopausa

Os sintomas são causados pelo declínio dos estrogênios — hormônios que atuam em praticamente todos os tecidos do corpo feminino. A intensidade varia enormemente: algumas mulheres são quase assintomáticas; outras têm sintomas debilitantes.

Sintomas vasomotores (os mais conhecidos)

  • Fogachos (calores): sensação súbita de calor intenso, geralmente começando no tórax e se irradiando para o pescoço e face, acompanhada de sudorese e rubor. Duram 1–5 minutos. Podem ocorrer dezenas de vezes ao dia. Afetam 75–80% das mulheres durante a menopausa.
  • Sudorese noturna: fogachos que ocorrem durante o sono, frequentemente acordando a mulher — impacto direto na qualidade do sono e no humor
  • Palpitações: associadas à instabilidade vasomotora

Sintomas do sono e humor

  • Insônia: dificuldade para iniciar ou manter o sono; frequentemente relacionada à sudorese noturna mas também à queda do estrogênio sobre o SNC
  • Irritabilidade, labilidade emocional: oscilações de humor frequentes, especialmente na perimenopausa — quando as flutuações hormonais são máximas
  • Ansiedade e depressão: risco aumentado durante a transição menopáusica; mulheres com histórico de depressão têm risco ainda maior
  • "Névoa mental" (brain fog): dificuldade de concentração e memória de curto prazo — frequentemente subestimada, muito impactante na vida profissional

Síndrome genitourinária da menopausa (SGM)

Antes chamada de "atrofia vulvovaginal", a SGM engloba um conjunto de sintomas genitais e urinários causados pela queda do estrogênio nos tecidos do trato urogenital:

  • Secura vaginal, ardor, prurido vulvar
  • Dor durante as relações sexuais (dispareunia) — veja saúde sexual da mulher
  • Redução da lubrificação e do prazer sexual
  • Urgência e frequência urinária aumentadas
  • Incontinência urinária de urgência
  • Infecções urinárias de repetição

Ao contrário dos fogachos, que tendem a melhorar com o tempo, a SGM é progressiva — piora ao longo dos anos sem tratamento. Afeta a qualidade sexual e a saúde urinária de forma significativa e merece tratamento ativo.

Alterações metabólicas e de composição corporal

  • Ganho de peso e redistribuição de gordura: a queda do estrogênio favorece acúmulo de gordura visceral (abdominal) — aumentando o risco cardiovascular e metabólico
  • Perda de massa muscular (sarcopenia): acelera com a queda hormonal — exercício de resistência é essencial
  • Ressecamento da pele e cabelos: o estrogênio mantém a hidratação e a espessura da pele; sua queda causa adelgaçamento, ressecamento e aumento das rugas
  • Dores articulares (artralgia climaterica): muito comum e frequentemente subestimada como causa

Sintomas do climatério afetando sua qualidade de vida?

A Dra. Gabriella Dourado é ginecologista e obstetra especializada em São Paulo. Agende uma avaliação personalizada.

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Quanto tempo duram os fogachos?

Mais tempo do que muitas mulheres imaginam. É preciso separar duas coisas: cada episódio de fogacho dura de 1 a 5 minutos, mas a fase em que eles ocorrem se estende por anos.

  • Duração média: cerca de 7 anos; em boa parte das mulheres, os fogachos podem persistir por 10 anos ou mais (estudo SWAN).
  • Início: costumam começar ainda na perimenopausa, antes da última menstruação.
  • Quem começa cedo, tende a ter por mais tempo: mulheres cujos fogachos surgem ainda no início da transição costumam tê-los por mais anos.
  • Com o passar do tempo, tendem a diminuir de intensidade e frequência.

O importante: não é preciso "aguentar". Quando os fogachos comprometem o sono e a qualidade de vida, há tratamento eficaz — hormonal e não hormonal.

Menopausa engorda?

A resposta é mais matizada do que o senso comum. A menopausa, por si só, engorda pouco — o que ela faz principalmente é redistribuir a gordura: a queda do estrogênio favorece o acúmulo na região abdominal (gordura visceral), mudando o formato do corpo mesmo quando o peso na balança varia pouco.

  • O ganho de peso nessa fase é puxado sobretudo por idade, perda de massa muscular (sarcopenia) e redução do gasto calórico — fatores que coincidem com a menopausa, mas não são causados apenas pelos hormônios.
  • A gordura visceral (abdominal) aumenta o risco cardiovascular e metabólico — por isso merece atenção, mais até do que o número na balança.
  • O que mais ajuda: treino de força (preserva músculo e metabolismo), atividade aeróbica, ingestão adequada de proteína e bom sono.

A terapia hormonal pode atenuar a redistribuição de gordura para o abdome, mas não é um tratamento para emagrecer. O controle do peso na menopausa passa, principalmente, por estilo de vida.

Consequências a longo prazo do hipoestrogenismo

Osteoporose

O estrogênio é fundamental para a manutenção da densidade mineral óssea. Nos primeiros 5–7 anos após a menopausa, a mulher pode perder 2–3% de massa óssea por ano — acumulando perda de 15–20% em uma década. Isso aumenta drasticamente o risco de fraturas por fragilidade (quadril, vértebras, punho). A densitometria óssea (DXA) é recomendada de rotina a partir dos 65 anos e mais cedo em mulheres pós-menopáusicas com fatores de risco para osteoporose ou fratura — entrar na menopausa, isoladamente, não significa que toda mulher precise fazer o exame de imediato. Saiba mais sobre osteoporose e saúde óssea na mulher.

Doença cardiovascular

O risco cardiovascular aumenta com a idade e tende a se acelerar durante e após a transição menopausal — período em que ocorrem mudanças de composição corporal, perfil lipídico, pressão arterial e metabolismo. A redução do estrogênio participa desse processo, mas não é seu único determinante: envelhecimento e fatores metabólicos coexistem. Ainda assim, a doença cardiovascular é a principal causa de morte em mulheres na pós-menopausa e merece atenção ativa.

Terapia Hormonal da Menopausa (THM)

A THM é o tratamento mais eficaz para os sintomas climatéricos — especialmente os vasomotores, a SGM e a prevenção da osteoporose. Após anos de controvérsia — especialmente após o estudo WHI de 2002, cujos resultados foram inicialmente generalizados para mulheres, idades, formulações e vias diferentes das efetivamente estudadas —, o consenso atual das principais sociedades médicas reconhece que a THM é segura e benéfica para a maioria das mulheres sintomáticas quando iniciada adequadamente.

A "janela de oportunidade" terapêutica

O momento de início da THM é crucial — conceito chamado de "timing hypothesis" ou "janela de oportunidade":

  • Quando iniciada em mulheres saudáveis nos primeiros 10 anos após a menopausa ou antes dos 60 anos, a THM tem perfil cardiovascular mais favorável (podendo associar-se a menor risco coronariano) e benefícios ósseos com bom balanço risco-benefício. Isso não significa que a THM deva ser prescrita apenas para prevenir doença cardiovascular ou demência — ela não é indicada com essa finalidade;
  • Quando iniciada após os 60 anos ou mais de 10 anos após a menopausa em mulheres com aterosclerose estabelecida, o balanço risco-benefício é menos favorável
Tipo de THM Indicação Via preferencial Benefício principal
Estrogênio isolado Mulheres histerectomizadas Transdérmica (adesivo/gel) Fogachos, SGM, ossos
Estrogênio + progesterona natural (micronizada) Mulheres com útero Transdérmica + oral Proteção endometrial com perfil possivelmente mais favorável
Estrogênio + progestagênio sintético Mulheres com útero Oral ou transdérmica Proteção endometrial
Estrogênio vaginal local SGM (secura vaginal, dispareunia) Vaginal (creme/óvulo) Baixa absorção; pode ser considerado após câncer de mama em casos selecionados

Tipos de terapia hormonal

  • Estrogênio isolado: apenas para mulheres histerectomizadas (sem útero). Apresenta perfil mamário mais favorável que a terapia combinada — no grande estudo WHI, o estrogênio equino conjugado isolado não aumentou o câncer de mama no período avaliado. O risco individual ainda depende do perfil basal e da duração do uso.
  • Estrogênio + progestagênio: para mulheres com útero — o progestagênio protege o endométrio da estimulação estrogênica isolada. O tipo de progestagênio importa: estudos observacionais sugerem que a progesterona natural micronizada (Utrogestan) e a didrogesterona tenham perfil mamário mais favorável que alguns progestagênios sintéticos (como o acetato de medroxiprogesterona), embora os dados ainda não permitam distinguir completamente todos os progestagênios.
  • Via de administração:
    • Transdérmica (adesivo, gel, spray) — estrogênio não passa pelo fígado; menor risco de trombose venosa profunda e embolia pulmonar. Via preferencial, especialmente para mulheres com risco cardiovascular ou tromboembólico.
    • Oral — cômoda, mas com maior efeito de primeira passagem hepática e risco de TEV ligeiramente maior
    • Vaginal — estrogênio de ação local para SGM; mínima absorção sistêmica. Após câncer de mama, pode ser considerado em casos selecionados, geralmente após tentativa de medidas não hormonais e com decisão compartilhada com a equipe oncológica

Benefícios comprovados da THM

  • Eliminação ou redução drástica dos fogachos e sudorese noturna (eficácia de 80–90%)
  • Tratamento da SGM — reversão da atrofia vaginal, melhora da função sexual
  • Melhora do sono e de alguns sintomas de humor, sobretudo quando relacionados aos fogachos (não é indicada para melhorar cognição nem para prevenir demência)
  • Prevenção e tratamento da osteoporose
  • Perfil cardiovascular mais favorável quando iniciada na janela de oportunidade — sem, porém, ser indicada exclusivamente para prevenir doença cardiovascular
  • Possível redução do risco de diabetes tipo 2
  • Melhora da qualidade de vida e do bem-estar geral

Riscos e contraindicações

  • Câncer de mama: a THM combinada (E+P) por mais de 5 anos apresenta leve aumento de risco, que cresce com a duração do uso e diminui após a interrupção. Não existe um número único válido para todas: o risco absoluto depende do esquema, do tipo de progestagênio, da idade e do risco basal de cada mulher. Câncer de mama atual ou prévio é contraindicação.
  • Tromboembolismo venoso: risco aumentado com estrogênio oral; mínimo com via transdérmica
  • Contraindicações à terapia sistêmica: câncer de mama atual ou prévio, câncer de endométrio, doença hepática grave em atividade, trombose ou embolia em atividade, sangramento vaginal não investigado, AVC ou doença cardiovascular estabelecida. O histórico de trombose ou trombofilia, sem evento em atividade, é avaliado individualmente

Alternativas não hormonais

Para mulheres com contraindicação ou que preferem não usar hormônios:

  • Inibidores de recaptação de serotonina-noradrenalina (venlafaxina, desvenlafaxina): reduzem fogachos em 40–60%
  • Gabapentina: opção eficaz, útil para fogachos e insônia. Já a pregabalina não é recomendada de rotina para fogachos (evidência limitada e mais efeitos adversos).
  • Fezolinetanto (Veoza®): nova classe — antagonista não hormonal dos receptores NK3 no cérebro, indicado para fogachos moderados a intensos. Aprovado pela Anvisa em junho de 2026; a chegada às farmácias ainda depende da definição de preço pela CMED.
  • Fitoestrogênios (isoflavonas de soja) e suplementos: evidências inconsistentes; não são recomendados como tratamento de eficácia comprovada para os fogachos.
  • Terapias comportamentais: a terapia cognitivo-comportamental e a hipnose clínica têm evidência de benefício para os sintomas vasomotores. Já a acupuntura não é recomendada para fogachos, por ausência de benefício consistente além do placebo nos estudos.

Toda mulher pode fazer reposição hormonal?

Não — mas a maioria das mulheres sintomáticas pode. A terapia hormonal é segura e benéfica para boa parte das mulheres, desde que indicada de forma individualizada. De modo geral:

  • Boas candidatas: mulheres com sintomas (fogachos, SGM) dentro da "janela de oportunidade" — antes dos 60 anos ou até 10 anos da menopausa — e sem contraindicações. Mulheres com menopausa precoce/IOP têm indicação reforçada, até aproximadamente a idade habitual da menopausa (em torno dos 50–51 anos).
  • Não devem usar a TH sistêmica (contraindicações): câncer de mama atual ou prévio, câncer de endométrio, trombose ou embolia em atividade, doença hepática grave em atividade, sangramento vaginal não investigado, AVC ou doença cardiovascular estabelecida. Já o histórico de trombose ou trombofilia pede avaliação individualizada, e não é um "não" automático.
  • Mesmo com contraindicação à TH sistêmica: o estrogênio vaginal local (para secura/SGM) costuma ser seguro, e há alternativas não hormonais eficazes para os fogachos.

Ou seja: ter sintomas não basta nem impede — a decisão é sempre compartilhada com o ginecologista, pesando o perfil de risco e benefício de cada mulher.

💊 E a "reposição de testosterona"?

Não faz parte da terapia hormonal de rotina. A testosterona não deve ser prescrita apenas porque um exame mostrou valor considerado baixo, nem para emagrecer, ganhar massa muscular, aumentar a disposição ou rejuvenescer — não há evidência para esses usos. A única indicação reconhecida por FEBRASGO, SBEM e SBC é o transtorno do desejo sexual hipoativo na pós-menopausa, após diagnóstico criterioso e exclusão de outras causas de baixa libido. Mais detalhes em reposição hormonal.

Estilo de vida na menopausa

Independentemente do tratamento hormonal, mudanças de estilo de vida são fundamentais:

  • Exercício físico: aeróbico (saúde cardiovascular) + resistência (massa muscular e óssea) + equilíbrio (prevenção de quedas). Pelo menos 150 minutos/semana de intensidade moderada.
  • Alimentação: buscar ingestão total adequada de cálcio (cerca de 1.000–1.200 mg/dia), preferencialmente pela alimentação — suplementar apenas quando a dieta não alcança a meta ou há indicação clínica. Manter vitamina D em níveis adequados, avaliando suplementação conforme dieta, exposição solar e risco de deficiência (não há motivo para prescrever dose fixa a toda mulher só por estar na menopausa). Incluir proteínas para preservar massa muscular, frutas, verduras e gorduras boas; limitar álcool, cafeína e açúcares
  • Não fumar: tabagismo antecipa a menopausa e agrava todos os seus riscos
  • Saúde mental: psicoterapia, mindfulness, grupos de apoio
  • Saúde sexual: atividade sexual ou estimulação vaginal regular e confortável pode ajudar a preservar fluxo sanguíneo, elasticidade e função vaginal (mas não elimina a deficiência estrogênica); uso de lubrificantes e hidratantes vaginais
A menopausa não é o fim da saúde ou da feminilidade — é uma nova fase que, com cuidado adequado, pode ser vivida com plena vitalidade. Cada mulher merece uma abordagem individualizada, não um protocolo único.

Menopausa precoce: o que é e o que fazer?

A menopausa ocorre em média por volta dos 50 anos. Quando há perda ou disfunção da atividade ovariana antes dos 40 anos, chama-se Insuficiência Ovariana Prematura (IOP). Entre 40 e 45 anos fala-se em menopausa precoce propriamente dita — os dois termos não são sinônimos.

A IOP tem prevalência estimada entre cerca de 1% e 3,5%, conforme a população e o critério utilizado, e causas variadas:

  • Idiopática (sem causa identificada): a mais comum — na maioria dos casos não se identifica uma causa específica para a perda ou disfunção da atividade folicular ovariana (com queda de estradiol e consequente elevação do FSH)
  • Autoimune: anticorpos atacam o tecido ovariano (frequentemente associada a outras doenças autoimunes como tireoidite de Hashimoto)
  • Genética: síndrome de Turner, pré-mutação do gene FMR1 (síndrome do X frágil)
  • Iatrogênica: quimioterapia, radioterapia pélvica, cirurgia ovariana

Menopausa precoce: impactos e conduta

  • 🦴 Ossos: risco aumentado de osteoporose — a TH é especialmente importante até a idade habitual da menopausa para proteção óssea e cardiovascular
  • ❤️ Coração: risco cardiovascular aumentado pela privação estrogênica precoce
  • 🧠 Cognição: estudos sugerem maior risco de demência com menopausa muito precoce sem tratamento
  • 👶 Fertilidade: gravemente comprometida, mas não zero — algumas mulheres com IOP ainda ovulam esporadicamente. Doação de óvulos é a principal opção reprodutiva
  • 💊 Tratamento: terapia hormonal é fortemente recomendada até aproximadamente a idade habitual da menopausa natural (em torno dos 50–51 anos), salvo contraindicação, para proteção dos ossos, coração e qualidade de vida

A terapia hormonal aumenta o risco de câncer?

Esta é a pergunta que mais gera dúvida — e a resposta requer nuance. O estudo que criou esse medo (WHI, 2002) teve seus resultados generalizados de forma ampla para populações, idades, doses e vias diferentes das efetivamente estudadas, o que gerou décadas de abandono de um tratamento eficaz.

O que o estudo WHI realmente mostrou

O estudo Women's Health Initiative avaliou uma combinação específica (estrogênio equino conjugado oral + acetato de medroxiprogesterona) em mulheres com média de 63 anos — bem além da janela terapêutica recomendada hoje. O pequeno aumento de risco observado nesse contexto foi generalizado indevidamente para todos os tipos de TH.

O que as evidências atuais dizem

  • Câncer de mama: o risco depende sobretudo do esquema (estrogênio isolado × combinado), do tipo de progestagênio, da duração do uso e do risco basal da mulher. A terapia com estrogênio isolado (para mulheres sem útero) apresenta risco menor que a combinada. Estudos observacionais sugerem que a progesterona micronizada tenha perfil melhor que a medroxiprogesterona, mas a evidência ainda não permite afirmar que ela comprovadamente reduza o risco mamário. A via (oral ou transdérmica), por si só, não tem efeito claramente demonstrado sobre o risco mamário — ela influencia principalmente o risco de trombose.
  • Câncer de endométrio: estrogênio isolado aumenta o risco — por isso, mulheres com útero sempre recebem progesterona associada. Com esquema combinado adequado, o risco não aumenta
  • Câncer de ovário: alguns estudos observacionais identificam um pequeno aumento de risco durante o uso atual ou recente da TH (inclusive com menos de 5 anos), embora estudos mais recentes mostrem um sinal mais fraco. O risco absoluto é baixo e deve ser pesado no contexto do benefício global e do risco individual.
  • Via de administração importa: estrogênio transdérmico (gel, adesivo) não aumenta o risco de trombose, ao contrário do oral — importante para mulheres com fatores de risco cardiovascular

Quando a TH é considerada segura

  • ✅ Início antes dos 60 anos ou dentro de 10 anos da menopausa ("janela de oportunidade")
  • ✅ Escolha do progestagênio discutida caso a caso — a progesterona micronizada tem perfil metabólico favorável, mas a evidência ainda não confirma que ela reduza o risco mamário
  • ✅ Estrogênio transdérmico para mulheres com risco trombótico ou cardiovascular (reduz o risco de trombose)
  • ✅ Dose mínima eficaz, com revisão anual
  • ⚠️ Contraindicada em: câncer de mama atual ou prévio, câncer de endométrio, sangramento vaginal não investigado, doença hepática grave em atividade, trombose ou embolia em atividade, AVC ou doença cardiovascular estabelecida. Já o histórico de trombose ou trombofilia, sem evento ativo, pede avaliação individualizada e costuma afastar o estrogênio oral, e não necessariamente toda a terapia

A decisão sobre TH deve ser individualizada com o ginecologista, pesando benefícios (alívio dos sintomas, proteção óssea e cardiovascular) e riscos do perfil específico de cada paciente.

⚠️ Sangrou depois da menopausa? Investigue sempre

Se você usa terapia hormonal, a leitura é um pouco diferente: no esquema sequencial existe um sangramento programado, esperado, e sangramentos não programados são relativamente comuns nos primeiros 6 meses de tratamento ou nos 3 meses seguintes a uma mudança de dose. Fora desses períodos, vale a mesma regra abaixo — veja os detalhes em reposição hormonal. Para quem não usa terapia hormonal: qualquer sangramento vaginal após 12 meses sem menstruar — mesmo pequeno, marrom ou uma única vez — é considerado anormal e precisa ser avaliado. Na maioria das vezes a causa é benigna (como a atrofia da SGM), mas é essencial excluir alterações do endométrio, incluindo o câncer. A avaliação costuma incluir ultrassom transvaginal e, na maioria dos casos, amostragem do endométrio (orientação ACOG, 2026). Não espere: leve o achado ao seu ginecologista. Veja também sangramento uterino anormal.

💬 Da prática clínica

A menopausa ainda é cercada de tabu. Na prática, vejo muitas mulheres sofrerem em silêncio com fogachos, insônia e alterações do humor achando que "é da idade" e que não há o que fazer. Há, sim — e tratar melhora muito a qualidade de vida. — Dra. Gabriella Dourado

Perguntas Frequentes

Com que idade a menopausa costuma acontecer?

A menopausa ocorre em média por volta dos 50 anos no Brasil, com ampla variação individual (habitualmente entre 45 e 55 anos). Quando acontece antes dos 40 anos é chamada de insuficiência ovariana prematura e merece atenção especial, pois aumenta o risco cardiovascular e de osteoporose a longo prazo.

Fogacho é sempre sinal de menopausa?

O fogacho é o sintoma mais característico da menopausa, afetando cerca de 75–80% das mulheres. Mas pode surgir já na perimenopausa, quando a menstruação ainda está irregular. Se os fogachos forem intensos e frequentes, o tratamento hormonal é altamente eficaz — com melhora em 80–90% dos casos.

A terapia hormonal da menopausa aumenta o risco de câncer de mama?

O risco depende sobretudo do esquema hormonal (estrogênio isolado ou combinado), do tipo de progestagênio, do tempo de uso e do risco basal de cada mulher. A terapia com estrogênio isolado tem risco menor que a combinada. Estudos observacionais sugerem que a progesterona natural micronizada tenha perfil mamário mais favorável que os progestagênios sintéticos, mas a evidência ainda não é robusta o bastante para afirmar que ela reduza o risco. A via transdérmica reduz principalmente o risco de trombose — não há evidência de que, por si só, diminua o risco de câncer de mama. O benefício para qualidade de vida e ossos costuma superar o risco quando a terapia é iniciada no momento certo, mas cada caso deve ser avaliado individualmente.

O que é a síndrome genitourinária da menopausa?

É o conjunto de sintomas genitais e urinários causados pela queda do estrogênio: secura vaginal, ardor, dor durante o sexo, maior frequência urinária e infecções urinárias repetidas. Diferente dos fogachos, essa síndrome piora com o tempo sem tratamento. O estrogênio vaginal local é seguro e muito eficaz para tratá-la.

Posso iniciar a terapia hormonal muitos anos após a menopausa?

O benefício é maior quando a terapia é iniciada nos primeiros 10 anos após a menopausa ou antes dos 60 anos — conceito chamado de "janela de oportunidade". Iniciar após esse período em mulheres com aterosclerose já estabelecida pode ser menos favorável. Mas a decisão sempre deve ser individualizada com seu médico.

Existe tratamento para os sintomas da menopausa sem hormônios?

Sim. Para mulheres com contraindicação ou preferência por não usar hormônios, existem opções como venlafaxina e desvenlafaxina (reduzem fogachos em até 60%), gabapentina para fogachos e insônia, e o fezolinetanto (Veoza) — um medicamento não hormonal que age nos receptores NK3 no cérebro, aprovado pela Anvisa em junho de 2026, com a chegada às farmácias ainda dependente da definição de preço pela CMED. Terapias comportamentais como a terapia cognitivo-comportamental também ajudam. Já fitoestrogênios e acupuntura não são recomendados como tratamento de eficácia comprovada para os fogachos.

Preciso fazer exame de FSH para saber se estou na menopausa?

Na maioria das mulheres acima dos 45 anos, com sintomas típicos e mudanças menstruais compatíveis, não. Os hormônios oscilam muito na perimenopausa, e uma dosagem isolada de FSH ou estradiol pode confundir mais do que ajudar — o diagnóstico costuma ser clínico. Exames hormonais são úteis em situações específicas, especialmente quando há suspeita de menopausa antes dos 40 a 45 anos.

Ainda posso engravidar na perimenopausa?

Sim. Enquanto a menopausa não estiver estabelecida (12 meses sem menstruar), ainda podem ocorrer ovulações, mesmo com ciclos muito irregulares. A terapia hormonal da menopausa não funciona como anticoncepcional, portanto quem não deseja engravidar ainda pode precisar de um método contraceptivo nessa fase.

Preciso parar a terapia hormonal depois de 5 anos ou aos 60?

Não existe uma idade ou uma duração máxima obrigatória. A decisão de continuar depende dos sintomas, dos riscos individuais, da dose e do tipo de terapia, com reavaliação periódica dos benefícios e riscos. Mulheres que permanecem sintomáticas podem continuar em determinadas situações. É diferente iniciar a terapia tardiamente e manter uma terapia bem tolerada já em curso.

Exercício físico ajuda mesmo na menopausa?

Muito. Exercício aeróbico melhora a saúde cardiovascular e o humor; o treino de força preserva massa muscular e óssea (fundamental para prevenir osteoporose e quedas); exercícios de equilíbrio reduzem o risco de fraturas. A recomendação é pelo menos 150 minutos por semana de atividade moderada combinando os três tipos.

Sintomas do climatério afetando sua qualidade de vida?

A Dra. Gabriella Dourado realiza avaliação completa do climatério em São Paulo, incluindo indicação individualizada de terapia hormonal, densitometria óssea e acompanhamento da saúde cardiovascular e sexual na menopausa.

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Referências: Ministério da Saúde — Manual de Atenção às Mulheres na Transição Menopausal e Menopausa (2026); FEBRASGO; The Menopause Society (2023, terapia não hormonal); International Menopause Society (White Paper 2024 e recomendações 2025); ACOG (avaliação do sangramento pós-menopausa, 2026); USPSTF (rastreamento de osteoporose, 2025).