A Síndrome do Ovário Policístico (SOP) é a endocrinopatia mais comum em mulheres em idade reprodutiva, afetando cerca de 10 a 13% das mulheres — aproximadamente 1 em cada 8. Apesar do nome, a SOP vai muito além dos ovários: é uma condição metabólica e hormonal complexa que impacta o ciclo menstrual, a fertilidade, o peso, a pele, o cabelo e o risco cardiovascular a longo prazo. O diagnóstico precoce e o tratamento individualizado são fundamentais para a qualidade de vida e a saúde futura dessas mulheres.
📢 O que mudou em 2026: a SOP passou a se chamar SOMP
Em 12 de maio de 2026, após um processo de consenso global que ouviu milhares de pacientes e profissionais ao longo de anos, a condição foi oficialmente renomeada: em inglês, Polycystic Ovary Syndrome (PCOS) passou a ser Polyendocrine Metabolic Ovarian Syndrome (PMOS). Em português, vem sendo adotado Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (SOMP).
O motivo é exatamente o que este artigo já explicava: o nome antigo sugeria que a doença fosse definida por "cistos no ovário" — o que não é verdade e atrasava diagnósticos. A mudança não criou uma doença nova nem alterou os critérios diagnósticos; ela reposiciona a condição como o que ela é: hormonal, metabólica, reprodutiva, dermatológica e também com impacto na saúde mental.
Como "SOP" continua sendo o termo que a maioria das pessoas conhece e procura, ele é usado ao longo deste artigo ao lado da nova nomenclatura.
📋 Em resumo
- Novo nome (2026): Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina — SOMP (PMOS em inglês)
- Prevalência: cerca de 10–13% das mulheres em idade reprodutiva — 1 em cada 8; causa mais comum de infertilidade anovulatória
- Diagnóstico: critérios de Rotterdam — 2 dos 3 critérios presentes (oligo/anovulação, hiperandrogenismo, morfologia policística dos ovários)
- Não tem cura: mas tem excelente controle com tratamento individualizado
- Ciclos irregulares + hiperandrogenismo: já fecham o diagnóstico na adulta — não é obrigatório fazer ultrassom
- Insulina e HOMA-IR: não são exames de rotina; a avaliação metabólica de escolha é o TOTG 75 g
- Resistência à insulina: frequente e participa da fisiopatologia, mas não é critério diagnóstico — há mulheres magras e sem resistência insulínica com a síndrome
- Fertilidade: a maioria das mulheres com SOP consegue engravidar com acompanhamento especializado
O que é a SOP?
A SOP é uma síndrome — ou seja, um conjunto de sinais e sintomas que se apresentam juntos — sem uma causa única e definitivamente conhecida. Caracteriza-se por uma disfunção do eixo hipotálamo-hipófise-ovário que resulta em:
- Excesso de androgênios (hormônios masculinos como testosterona e DHEA-S) produzidos pelos ovários e/ou glândulas adrenais
- Disfunção ovulatória — ovulações irregulares ou ausentes, levando a ciclos menstruais irregulares
- Morfologia policística dos ovários ao ultrassom — ovários com múltiplos folículos pequenos (≥ 20 folículos por ovário ou volume ovariano > 10 mL)
Vale um esclarecimento que está no centro da mudança de nome: os "cistos" não são cistos. O que se vê ao ultrassom são folículos antrais — estruturas normais do ovário, presentes em maior número em algumas mulheres. Não são lesões, não precisam ser "estourados" nem operados.
Outro ponto que costuma surpreender: não é obrigatório ter excesso de androgênios para ter a síndrome. Como o diagnóstico exige dois dos três critérios, existe um fenótipo de mulheres adultas com disfunção ovulatória e morfologia policística, sem hiperandrogenismo.
A resistência à insulina é um componente importante em grande parte das pacientes: quando o pâncreas produz mais insulina para compensar a resistência periférica, os níveis elevados de insulina estimulam ainda mais a produção de androgênios pelos ovários — criando um ciclo vicioso que perpetua a síndrome.
Quais são os sintomas da SOP?
A apresentação clínica é muito variável — duas mulheres com SOP podem ter quadros completamente diferentes. Os sintomas mais frequentes são:
Alterações menstruais
- Oligomenorreia: ciclos menstruais com mais de 35 dias de intervalo
- Amenorreia: ausência de menstruação por 3 meses ou mais
- Sangramento irregular: ciclos imprevisíveis, ora curtos, ora muito longos
Sinais de hiperandrogenismo
- Hirsutismo: crescimento de pelos em regiões tipicamente masculinas (buço, queixo, pescoço, abdome inferior, virilha, costas) — o sintoma mais perturbador para muitas pacientes
- Acne: especialmente de padrão hormonal — mandíbula, queixo, pescoço e parte inferior do rosto; piora no período pré-menstrual
- Queda de cabelo (alopecia androgênica): afinamento dos fios, especialmente na região central do couro cabeludo
- Seborreia: produção excessiva de oleosidade no couro cabeludo e na pele
Sinais metabólicos
- Ganho de peso e dificuldade em emagrecer: especialmente com acúmulo de gordura abdominal (padrão androide)
- Acantose nigricans: escurecimento e espessamento da pele em dobras (pescoço, axilas, virilha) — sinal de resistência à insulina
- Fadiga e alterações de humor: frequentemente relatadas, possivelmente relacionadas à resistência à insulina e desequilíbrios hormonais
Suspeita de SOP ou dificuldade para engravidar?
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Agendar consulta →Como confirmar o diagnóstico de SOP?
O diagnóstico de SOP é baseado nos Critérios de Rotterdam (2003), os mais utilizados mundialmente, que exigem a presença de 2 dos 3 critérios abaixo, após exclusão de outras causas:
| Critério de Rotterdam | Definição clínica / laboratorial | Formas de avaliação |
|---|---|---|
| 1. Oligo ou anovulação | Ciclos irregulares (<8 menstruações/ano ou ciclos >35 dias) ou ausência de ovulação confirmada | Diário menstrual; dosagem de progesterona na fase lútea |
| 2. Hiperandrogenismo | Clínico: acne, hirsutismo, alopecia androgênica. Laboratorial: testosterona total/livre elevada, DHEA-S elevado | Escore de Ferriman-Gallwey; dosagens hormonais |
| 3. Morfologia policística dos ovários | ≥20 folículos de 2–9 mm por ovário OU volume ovariano >10 mL em pelo menos um ovário. O corte depende da qualidade do equipamento; não se aplica a adolescentes | Ultrassonografia transvaginal |
Diagnóstico = presença de pelo menos 2 dos 3 critérios acima, após exclusão de outras causas.
💡 Se já há ciclos irregulares e hiperandrogenismo, o ultrassom não é necessário
Esta é uma das simplificações mais úteis da diretriz internacional, e quase ninguém sabe: na mulher adulta, quando a disfunção ovulatória e o hiperandrogenismo já estão presentes, os dois critérios já foram preenchidos. Não é preciso demonstrar ovários policísticos ao ultrassom, nem dosar AMH, para fechar o diagnóstico.
Acumular exames não torna o diagnóstico mais correto — e aumenta o risco de classificar como síndrome uma variação ovariana normal.
O AMH pode substituir o ultrassom?
Em mulheres adultas, sim: desde a diretriz internacional de 2023, o hormônio antimülleriano (AMH) pode ser usado como alternativa ao ultrassom para demonstrar a morfologia ovariana policística. Mas com quatro ressalvas importantes:
- Não diagnostica sozinho. AMH alto não é "exame de SOP" — ele apenas substitui um dos três critérios;
- Escolha um ou outro — AMH ou ultrassom. Fazer os dois de rotina só para somar critérios favorece o sobrediagnóstico;
- Não vale para adolescentes;
- Os valores de corte dependem do método do laboratório e da população.
Condições que devem ser excluídas antes do diagnóstico:
- Hiperprolactinemia (prolactinoma)
- Disfunção tireoidiana (hipotireoidismo)
- Hiperplasia adrenal congênita (forma não clássica) — dosar 17-hidroxiprogesterona
- Síndrome de Cushing
- Tumores produtores de androgênios
Exames solicitados
- Ultrassonografia transvaginal (morfologia ovariana, volume, contagem de folículos)
- Testosterona total e livre, DHEA-S, androstenediona
- FSH e LH, quando necessários para investigar outras causas de irregularidade menstrual. A relação LH/FSH não é critério diagnóstico e não deve ser usada para confirmar ou afastar a síndrome
- Estradiol, progesterona (fase lútea)
- Prolactina, TSH
- 17-OH-progesterona (exclusão de hiperplasia adrenal)
- TOTG 75 g — a avaliação glicêmica mais precisa nesta síndrome, independentemente do peso. Glicemia de jejum e hemoglobina glicada são alternativas quando o TOTG não é possível, mas podem deixar passar alterações que só aparecem após a sobrecarga
- Perfil lipídico
🔁 Com que frequência repetir a avaliação metabólica
- Glicemia (idealmente TOTG): no diagnóstico, para todas — e repetida a cada 1 a 3 anos, conforme peso, história familiar, idade e resultado anterior
- Perfil lipídico: no diagnóstico, independentemente da idade e do peso, repetido conforme o risco
- Pressão arterial: pelo menos uma vez por ano
SOP na adolescência: o diagnóstico é diferente
Este é um dos pontos em que mais se erra — nos dois sentidos: adolescentes recebem o diagnóstico cedo demais, e outras ficam anos sem ele.
Na adolescente, os critérios não são os mesmos da adulta. É preciso ter os dois:
- Irregularidade menstrual persistente, definida conforme o tempo desde a primeira menstruação; e
- Hiperandrogenismo clínico e/ou laboratorial.
O que é "ciclo irregular" depende de quanto tempo faz que a menstruação começou
| Tempo desde a menarca | O que é considerado irregular |
|---|---|
| 1º ano | A irregularidade é esperada — faz parte do amadurecimento |
| De 1 a 3 anos | Ciclos com menos de 21 ou mais de 45 dias |
| 3 anos ou mais | Ciclos com menos de 21 ou mais de 35 dias, ou menos de 8 ciclos por ano |
| Qualquer momento após o 1º ano | Um intervalo maior que 90 dias já merece avaliação |
Também merece investigação a ausência da primeira menstruação aos 15 anos, ou mais de 3 anos depois do início do desenvolvimento das mamas.
Quando a adolescente tem os sintomas mas ainda não preenche os critérios, o caminho não é forçar um rótulo: é acompanhar e reavaliar, tratando os sintomas que a incomodam.
Tratamentos disponíveis
O tratamento da SOP é individualizado conforme o fenótipo da paciente, seus sintomas predominantes e seus objetivos — controle hormonal, melhora metabólica, tratamento de acne/hirsutismo ou fertilidade. Não existe um único tratamento para todas.
Mudança de estilo de vida — a base de tudo
Para mulheres com SOP e sobrepeso ou obesidade, a perda de peso de 5 a 10% do peso corporal pode restaurar ciclos ovulatórios, reduzir androgênios e melhorar a resistência à insulina — sem nenhum medicamento. É uma das intervenções de maior impacto nesse perfil — mas vale dizer com clareza que o benefício do estilo de vida não depende de a balança se mexer: a melhora metabólica acontece mesmo quando o peso muda pouco.
⚖️ Não existe "a dieta da SOP", nem "o exercício da SOP"
Esta é uma das conclusões mais úteis da diretriz internacional, e contraria muito do que circula: nenhuma composição alimentar específica — nem a de baixo índice glicêmico, nem low carb, nem qualquer outra — demonstrou superioridade sobre as demais para peso, metabolismo, hormônios ou fertilidade nesta síndrome. O mesmo vale para o exercício: nenhuma modalidade se mostrou superior às outras.
O que funciona é o que a paciente consegue sustentar: uma alimentação nutricionalmente adequada e compatível com suas preferências, e uma atividade física que combine movimento aeróbico e fortalecimento, com menos tempo sentada.
Os pilares, então, são:
- Alimentação equilibrada e sustentável, com menos ultraprocessados — sem uma "dieta certa" única
- Atividade física regular, combinando exercício aeróbico e de força
- Qualidade do sono (privação de sono piora a resistência à insulina)
- Manejo do estresse (o cortisol elevado piora o perfil androgênico)
Tratamento hormonal
Anticoncepcionais combinados orais (ACO): primeira linha para mulheres que não desejam engravidar no momento. Regulam o ciclo menstrual, reduzem os androgênios circulantes e melhoram acne, hirsutismo e alopecia. Não existe uma formulação universalmente superior para toda mulher com a síndrome: a diretriz internacional não encontrou evidência suficiente para eleger um progestágeno ou uma combinação específica. A escolha equilibra sintomas, risco trombótico, comorbidades, efeitos adversos e preferência, com tendência a preferir doses menores de estrogênio.
Espironolactona: diurético com propriedades antiandrogênicas — bloqueia os receptores de androgênio na pele. Muito utilizada para hirsutismo e acne. Exige contracepção eficaz enquanto houver possibilidade de gravidez: antiandrogênios podem interferir na diferenciação genital de um feto do sexo masculino.
Progestagênio cíclico: para mulheres que não toleram ou não desejam anticoncepcionais combinados. Vale entender o que ele faz: provoca sangramento de privação periódico e protege o endométrio — o que não é o mesmo que regularizar o ciclo nem que restaurar a ovulação. Os esquemas são individualizados, e métodos só de progestagênio, incluindo o DIU hormonal, também podem oferecer proteção endometrial em contextos apropriados.
Metformina: quando ela realmente ajuda
A metformina é um sensibilizador de insulina com papel sobretudo metabólico nesta síndrome — e não o medicamento central para todas as pacientes. Para irregularidade menstrual e hiperandrogenismo em quem não quer engravidar, o anticoncepcional combinado continua sendo a opção farmacológica preferencial.
Um ponto prático importante: não é preciso "provar" resistência à insulina com HOMA para indicá-la. A decisão é clínica — considera-se especialmente em adultas com IMC ≥ 25, com intolerância à glicose ou maior risco metabólico. Seus benefícios incluem:
- Melhora da sensibilidade à insulina → redução dos androgênios
- Regularização dos ciclos menstruais e indução de ovulação em muitos casos
- Auxílio no controle de peso
- Melhora de parâmetros glicêmicos e do perfil metabólico
Vale a honestidade: ela melhora marcadores metabólicos, o que é diferente de garantir que evitará um diabetes no futuro — esse desfecho não está demonstrado especificamente nesta população.
No uso prolongado, a metformina pode reduzir a vitamina B12 em algumas pacientes; a dosagem pode ser considerada diante de sintomas ou fatores de risco.
A metformina não é um anticoncepcional — mulheres que ovulam sob seu efeito podem engravidar se não utilizarem contraceptivo.
Inositol: o que a evidência realmente mostra
O inositol é um composto natural com ação sobre a sinalização da insulina, muito popular e muito vendido — e é justamente por isso que vale ser preciso sobre o que se sabe dele.
A diretriz internacional é bem mais contida do que a divulgação comercial sugere: o inositol pode ser usado por pacientes que preferem uma abordagem complementar, e tem poucos efeitos adversos — mas os benefícios clínicos demonstrados são limitados, inclusive para ovulação, hirsutismo e peso. Para os desfechos metabólicos, a metformina tem evidência superior.
SOP e fertilidade: a SOP impede engravidar?
A SOP é a causa mais comum de infertilidade por anovulação — quando a mulher não ovula regularmente, a concepção espontânea fica comprometida. A boa notícia é que, na grande maioria dos casos, a fertilidade pode ser restaurada com tratamento.
Indução da ovulação
- Letrozol (inibidor de aromatase): é a primeira linha para indução da ovulação nesta síndrome, com recomendação forte da diretriz internacional. No grande ensaio randomizado que comparou os dois, o letrozol obteve mais nascidos vivos e mais ciclos ovulatórios do que o clomifeno ao longo de até cinco ciclos de tratamento — e com menor risco de gestação múltipla
- Citrato de clomifeno: primeira linha historicamente; ainda amplamente usado. Taxa de ovulação de 70–85%, mas taxa de gravidez menor que o letrozol em mulheres com SOP. Efeitos antiestrogênicos no endométrio e no muco cervical limitam sua eficácia
- Metformina associada: pode ser considerada em situações selecionadas, mas não é a regra — e a metformina isolada é bem menos eficaz do que o letrozol para engravidar. O algoritmo continua começando pelo letrozol
- Gonadotrofinas exógenas (FSH/LH injetável): segunda linha, usadas quando os indutores orais falham. Exigem monitoramento ultrassonográfico rigoroso pelo risco de hiperestimulação ovariana e gestação múltipla
- FIV/ICSI: na ausência de outra indicação própria, entra como terceira linha, quando as estratégias anteriores falham. Se existir fator masculino relevante, fator tubário ou outra indicação independente, ela pode ser necessária antes. Mulheres com esta síndrome respondem bem à estimulação — mas têm risco aumentado de síndrome de hiperestimulação ovariana (SHEO), que hoje é reduzido com protocolos específicos, como o uso de antagonista e o congelamento total dos embriões quando indicado
Drilling ovariano laparoscópico
Procedimento cirúrgico em que se fazem pequenas perfurações nos ovários por laparoscopia. Reduz a produção androgênica ovariana e pode restaurar a ovulação. Indicado em casos selecionados de resistência ao letrozol/clomifeno, especialmente quando há indicação cirúrgica por outro motivo. Os resultados são comparáveis às gonadotrofinas em termos de gravidez, sem o risco de gestação múltipla.
Engravidei e tenho SOP: o pré-natal muda?
Muda — e essa é uma informação que costuma faltar. Gestações de mulheres com a síndrome têm maior risco de algumas complicações, e por isso o diagnóstico deve ser informado à equipe do pré-natal logo no início.
Entre os riscos aumentados estão o diabetes gestacional, os quadros hipertensivos incluindo a pré-eclâmpsia, o parto prematuro, alterações do crescimento fetal e uma frequência maior de cesárea. Nada disso é destino — é motivo para acompanhar de perto peso, pressão e glicemia.
🩸 O TOTG merece atenção especial aqui
Vale considerar o TOTG 75 g antes de engravidar ou ao iniciar tratamento de fertilidade. Se isso não foi feito, ele pode ser considerado já na primeira consulta de pré-natal — e, de qualquer modo, repetido entre 24 e 28 semanas, como para todas as gestantes.
E a metformina, continuo tomando?
Não automaticamente. Existe uma ideia difundida de que quem tem a síndrome deve manter a metformina durante toda a gestação para prevenir complicações — e isso não se confirmou: nas gestantes com SOP/SOMP, a metformina não demonstrou prevenir diabetes gestacional, perda gestacional tardia, hipertensão, pré-eclâmpsia nem macrossomia. Pode haver indicações selecionadas, mas ter a síndrome, por si só, não é motivo para mantê-la. É uma decisão a tomar com quem acompanha o pré-natal.
Riscos de saúde a longo prazo
A SOP não é apenas um problema reprodutivo — é uma condição metabólica com implicações para a saúde ao longo da vida:
- Pré-diabetes e diabetes tipo 2: risco aumentado independentemente do peso — é justamente por isso que a avaliação glicêmica é indicada para todas, e não apenas para quem tem sobrepeso
- Síndrome metabólica: presente em até 40% das pacientes
- Cardiovascular: maior prevalência de fatores de risco — hipertensão, dislipidemia, alteração glicêmica —, o que justifica acompanhar pressão, lipídios, glicemia e tabagismo ao longo da vida. Em mulheres jovens, o risco absoluto de evento ainda é baixo
- Hiperplasia e câncer de endométrio: a anovulação crônica leva a estímulo estrogênico sem progestogênio — aumentando o risco de hiperplasia endometrial. O risco absoluto de câncer permanece baixo, e não se recomenda ultrassom ou biópsia de rotina apenas por causa do diagnóstico. A proteção vem de não passar longos períodos sem menstruar — com anticoncepcional, progestagênio ou DIU hormonal, conforme o caso
- Saúde mental: faz parte do acompanhamento, não é um detalhe. A diretriz recomenda rastrear sintomas de depressão em todas, e avaliar ansiedade, transtornos alimentares e sofrimento com a imagem corporal conforme o contexto
- Apneia do sono: mais frequente nesta síndrome mesmo descontado o efeito do peso. Ronco com sono não reparador ou sonolência durante o dia deve ser investigado
A SOP não define o que uma mulher pode ou não pode fazer. Com diagnóstico correto, tratamento individualizado e acompanhamento contínuo, é possível ter ciclos regulares, pele saudável, peso controlado e filhos — quando este for o desejo.
A SOP tem cura?
Não existe cura para a SOP — ela é uma condição crônica com base genética e metabólica que não desaparece com o tempo. Mas isso não significa que a mulher com SOP está condenada a ter sintomas para sempre. O controle é altamente eficaz e, para muitas pacientes, praticamente completo.
- O anticoncepcional não cura: controla os sintomas (ciclo, acne, pelos) enquanto é usado. Ao suspender, os sintomas podem retornar — o que confirma que a síndrome está controlada, não curada
- A perda de peso pode "silenciar" a síndrome: em mulheres com sobrepeso, a redução de 5–10% do peso pode normalizar o ciclo, restaurar a ovulação e reduzir os androgênios. Vale a ressalva: isso não significa que emagrecer seja "o tratamento" da condição — muitas pacientes são magras, e o cuidado ginecológico e de fertilidade não deve ficar condicionado ao peso
- Na menopausa: a questão ovulatória deixa de existir, porque a ovulação termina — mas as manifestações androgênicas podem persistir, assim como o risco metabólico. Hoje a condição é entendida como algo que acompanha a mulher ao longo de toda a vida, e não como um problema que "passa" na menopausa
SOP: o que é possível controlar com tratamento
- ✅ Regularizar o ciclo menstrual
- ✅ Reduzir acne e excesso de pelos
- ✅ Restaurar a ovulação e conseguir engravidar
- ✅ Controlar o peso com dieta, exercício e medicamentos
- ✅ Reduzir o risco de diabetes e doenças cardiovasculares
SOP causa queda de cabelo e acne? Como tratar?
Sim — queda de cabelo e acne são dois dos sintomas de hiperandrogenismo mais impactantes para a qualidade de vida de mulheres com SOP, e frequentemente os que mais motivam a busca por tratamento.
Queda de cabelo (alopecia androgênica) na SOP
O excesso de androgênios — especialmente a diidrotestosterona (DHT), derivada da testosterona — atinge os folículos capilares e provoca o seu enfraquecimento progressivo. O padrão é característico: afinamento difuso na região central do couro cabeludo, poupando a linha frontal (diferente da calvície masculina).
- Minoxidil tópico: é o tratamento mais estabelecido para a perda capilar de padrão feminino, e costuma ser o ponto de partida
- Antiandrogênicos (espironolactona): podem ser considerados em situações selecionadas — a evidência específica nesta síndrome é limitada —, sempre com contracepção eficaz quando houver possibilidade de gravidez. Resultados demoram de 6 a 12 meses
- Associação: tópico e hormonal podem ser combinados, e o acompanhamento com dermatologista ajuda a ajustar
- Controle da insulina: metformina e mudanças no estilo de vida que reduzem a insulina circulante também diminuem a produção de androgênios — impacto indireto na queda capilar
Acne hormonal na SOP
A acne da SOP tem padrão típico: lesões inflamatórias (mandíbula, queixo, pescoço e parte inferior do rosto), que pioram na semana pré-menstrual e frequentemente respondem melhor quando o componente hormonal também é tratado.
Uma correção importante, porque a ideia circula muito: não é verdade que "a causa é hormonal, não bacteriana". A acne é multifatorial — envolve produção de sebo, queratinização do folículo, inflamação, a bactéria Cutibacterium acnes e, sim, influência hormonal. Por isso os tratamentos tópicos dermatológicos continuam eficazes e devem ser associados, não abandonados.
E vale o inverso também: acne isolada, mesmo na mandíbula e no queixo, não confirma hiperandrogenismo nem a síndrome — é um sinal bem menos específico do que o hirsutismo.
- Anticoncepcionais com ação antiandrogênica: Diane-35 (etinilestradiol + acetato de ciproterona), Yaz (drospirenona), Gianda — reduzem os androgênios circulantes e melhoram a acne em 70–80% das pacientes em 3–6 meses
- Espironolactona oral: eficaz especialmente para acne de padrão hormonal em adultas; sem risco de resistência antibiótica
- Dermatologista + ginecologista: o tratamento combinado — hormonal (ginecologia) + tópico/oral (dermatologia) — dá os melhores resultados
A SOP realmente torna mais difícil emagrecer?
Essa é uma das queixas mais frequentes — e mais frustrantes — das pacientes. E a resposta honesta é: para algumas mulheres, sim; para outras, não. Algumas apresentam maior tendência ao ganho de peso e fatores metabólicos que dificultam o manejo, mas isso varia muito de pessoa para pessoa — e há muitas pacientes magras, com peso estável, que têm a síndrome.
Vale ser preciso aqui, porque circulam explicações muito mais categóricas do que a evidência permite. Não existe uma "falha metabólica inevitável" que condene ao ganho de peso, nem uma dieta ou exercício específicos que resolvam a questão por serem "os da SOP". O que existe é uma condição que, em parte das mulheres, torna o processo mais trabalhoso.
⚖️ Duas coisas que precisam ser ditas
A primeira: a dificuldade não é falta de esforço nem falta de força de vontade — e ouvir isso no consultório é uma experiência que muitas pacientes relatam. Peso não deve ser a única lente do atendimento, e cuidado ginecológico e tratamento de fertilidade não podem ficar condicionados a emagrecer antes.
A segunda: mudanças de estilo de vida melhoram a saúde metabólica mesmo quando a balança quase não se move. O benefício não depende do número.
O que ajuda de verdade:
- 🥗 Alimentação equilibrada e sustentável — nenhuma composição específica se mostrou superior às outras; a melhor é a que você consegue manter
- 🏋️ Atividade física regular, combinando exercício aeróbico e de força, e reduzindo o tempo sentada. Também aqui, nenhuma modalidade é comprovadamente superior
- 💊 Metformina, quando há indicação metabólica
- 😴 Sono adequado — a privação de sono piora a resistência à insulina
- 🧘 Manejo do estresse, que ajuda na adesão e no bem-estar
A perda de 5 a 10% do peso já pode restaurar ciclos ovulatórios e reduzir androgênios em quem tem sobrepeso — não é necessário atingir um "peso ideal" para sentir benefícios reais.
Sobre as canetas GLP-1: medicamentos para obesidade, incluindo semaglutida e liraglutida, podem ser considerados nas mesmas situações em que seriam indicados para qualquer pessoa com critérios de tratamento farmacológico da obesidade. Ou seja: eles não são "remédios para SOP", e não é a síndrome que os torna indicados — nem que os torna, por si só, off-label. Exigem contracepção eficaz, porque faltam dados de segurança na gravidez, e o intervalo de suspensão antes de tentar engravidar depende do medicamento específico.
💬 Da prática clínica
Uma das maiores angústias de quem tem SOP é a fertilidade. Na prática, a maioria das mulheres com SOP consegue engravidar — com ajustes de estilo de vida e, quando necessário, indução da ovulação. E tratar a SOP é cuidar do ciclo, da pele, do peso e da saúde do coração a longo prazo, não apenas da menstruação. — Dra. Gabriella Dourado
Perguntas Frequentes
A SOP mudou de nome? O que é SOMP?
Sim. Em maio de 2026, um consenso global renomeou a condição: em inglês, de Polycystic Ovary Syndrome (PCOS) para Polyendocrine Metabolic Ovarian Syndrome (PMOS); em português, vem sendo adotado Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (SOMP). A mudança não criou uma doença nova nem alterou os critérios diagnósticos ou o tratamento. Ela corrige a ideia equivocada de que a síndrome dependeria de "cistos no ovário" e reconhece que ela envolve hormônios, metabolismo, pele, fertilidade e saúde mental. A sigla SOP continua sendo amplamente usada e compreendida.
Preciso ter cistos no ovário para ter SOP?
Não — e, na verdade, eles nem são cistos. O que aparece no ultrassom são folículos antrais, estruturas normais do ovário, presentes em maior número em algumas mulheres. Não são lesões e não precisam ser operados. Além disso, é possível ter a síndrome sem que os ovários tenham essa aparência: o diagnóstico exige dois dos três critérios, e a morfologia ovariana é apenas um deles. Foi justamente por essa confusão que o nome mudou.
Dá para diagnosticar SOP sem fazer ultrassom?
Dá, e é mais comum do que se imagina. Na mulher adulta, se já existem ciclos irregulares e sinais de excesso de androgênios, os dois critérios necessários já foram preenchidos — não é preciso ultrassom nem AMH para fechar o diagnóstico, apenas afastar outras causas. Fazer exames a mais não torna o diagnóstico mais correto, e aumenta o risco de rotular como síndrome uma variação normal.
Preciso dosar insulina e HOMA-IR?
De rotina, não. Apesar de serem muito pedidos, a diretriz internacional não recomenda insulina de jejum nem HOMA-IR na avaliação desta síndrome: os ensaios disponíveis na prática têm padronização e utilidade clínica limitadas. Isso significa que não é preciso "provar" resistência à insulina com um número para diagnosticar nem para indicar tratamento. O exame metabólico que realmente importa é o TOTG 75 g, mais sensível que a glicemia de jejum e a hemoglobina glicada.
Mulher magra pode ter SOP?
Pode, e isso é uma causa frequente de diagnóstico perdido. A síndrome não exige sobrepeso, obesidade nem resistência à insulina detectável. Mulheres magras podem apresentar ciclos irregulares e hiperandrogenismo e preencher exatamente os mesmos critérios. O risco metabólico também existe independentemente do peso — por isso a avaliação glicêmica é indicada para todas.
Existe uma dieta específica para SOP?
Não. Nenhuma composição alimentar específica — baixo índice glicêmico, low carb ou qualquer outra — demonstrou superioridade sobre as demais para peso, metabolismo, hormônios ou fertilidade nesta síndrome. O mesmo vale para o exercício: nenhuma modalidade se mostrou superior. O que funciona é uma alimentação nutricionalmente adequada e sustentável, combinada com atividade física regular que você consiga manter. E vale saber: os benefícios metabólicos aparecem mesmo quando o peso muda pouco.
Inositol funciona mesmo para SOP?
A evidência é bem mais fraca do que a divulgação sugere. O inositol pode ser usado por quem prefere uma abordagem complementar e tem poucos efeitos adversos, mas os benefícios clínicos demonstrados são limitados, inclusive para ovulação, hirsutismo e peso — e para desfechos metabólicos a metformina tem evidência superior. Sobre a proporção 40:1, muito anunciada como "a recomendada": a diretriz internacional afirma explicitamente que não é possível recomendar um tipo, dose ou proporção específica.
Como se diagnostica SOP na adolescência?
De forma diferente da adulta. A adolescente precisa ter os dois critérios: irregularidade menstrual persistente, definida conforme o tempo desde a primeira menstruação, e sinais de excesso de androgênios. Ultrassom e AMH não devem ser usados para diagnosticar nessa fase, porque é normal que os ovários tenham muitos folículos e que o AMH esteja alto durante a puberdade — usá-los leva a diagnósticos em excesso. Quando há sintomas mas os critérios ainda não estão completos, o correto é acompanhar e reavaliar.
SOP aumenta o risco na gravidez?
Sim, algumas complicações são mais frequentes: diabetes gestacional, quadros hipertensivos como a pré-eclâmpsia, parto prematuro, alterações do crescimento fetal e cesárea. Por isso vale informar o diagnóstico à equipe do pré-natal desde o início, para que peso, pressão e glicemia sejam acompanhados de perto. Considera-se o TOTG 75 g antes de engravidar ou já na primeira consulta, além da repetição habitual entre 24 e 28 semanas.
Devo continuar a metformina quando engravidar?
Não automaticamente. Circula a ideia de que quem tem a síndrome deve manter a metformina durante toda a gestação para evitar complicações, mas isso não se confirmou: nessas gestantes, ela não demonstrou prevenir diabetes gestacional, perda gestacional tardia, hipertensão, pré-eclâmpsia ou macrossomia. Pode haver indicações selecionadas, e a decisão deve ser tomada com quem acompanha o pré-natal — mas ter SOP, por si só, não é motivo para mantê-la.
Ter ovários policísticos no ultrassom significa que eu tenho SOP?
Não necessariamente. Muitas mulheres apresentam ovários com aparência policística ao ultrassom sem ter a síndrome. O diagnóstico de SOP exige pelo menos dois dos três critérios de Rotterdam: irregularidade menstrual, sinais de excesso de hormônios masculinos e morfologia policística dos ovários. Um ultrassom isolado não fecha o diagnóstico.
Quais são os sintomas mais comuns da SOP?
Os sintomas mais frequentes são menstruação irregular ou ausente, acne de padrão hormonal (queixo, mandíbula e pescoço), crescimento excessivo de pelos em áreas masculinas, queda de cabelo, dificuldade para emagrecer e ganho de peso concentrado no abdome. A apresentação é muito variável de mulher para mulher.
Mulher com SOP consegue engravidar?
Na grande maioria dos casos, sim. A SOP é a causa mais comum de infertilidade por anovulação, mas existem tratamentos eficazes para induzir a ovulação, como o letrozol e o citrato de clomifeno. Com acompanhamento especializado, a maioria das mulheres com SOP que deseja engravidar consegue.
O anticoncepcional cura a SOP?
Não. O anticoncepcional controla os sintomas — regulariza o ciclo, melhora a acne e o hirsutismo — mas não trata a causa da síndrome. Quando o anticoncepcional é suspenso, os sintomas podem voltar. O tratamento da SOP é de longo prazo e inclui mudanças no estilo de vida, medicamentos e acompanhamento contínuo.
Para que serve a metformina no tratamento da SOP?
A metformina melhora a sensibilidade à insulina. Com menos insulina circulante, a produção de androgênios cai, os ciclos podem se regularizar e o controle de peso fica mais fácil. Seu papel é sobretudo metabólico: para irregularidade menstrual e hiperandrogenismo em quem não deseja engravidar, o anticoncepcional combinado continua sendo a opção preferencial. Um ponto prático: não é preciso "provar" resistência à insulina com HOMA para indicá-la — a decisão é clínica, e ela é especialmente considerada em adultas com IMC a partir de 25 ou com alteração glicêmica. Ela melhora parâmetros metabólicos, o que é diferente de garantir que evitará um diabetes no futuro.
A SOP tem cura?
Não existe cura, mas a SOP tem excelente controle com tratamento individualizado. Perda de peso de apenas 5 a 10% do peso corporal já pode restaurar ciclos ovulatórios e reduzir androgênios em mulheres com sobrepeso. O objetivo do tratamento é controlar os sintomas, proteger a saúde a longo prazo e melhorar a qualidade de vida.
Quais os riscos de saúde a longo prazo para quem tem SOP?
Há risco aumentado de pré-diabetes e diabetes tipo 2 — independentemente do peso, razão pela qual a avaliação glicêmica é indicada para todas —, além de maior prevalência de fatores de risco cardiovascular, como hipertensão e dislipidemia. A anovulação crônica também eleva o risco de hiperplasia e câncer de endométrio, embora o risco absoluto de câncer permaneça baixo e não se recomende ultrassom ou biópsia de rotina apenas por causa do diagnóstico: a proteção vem de não passar longos períodos sem menstruar. Saúde mental faz parte do acompanhamento, com rastreio de sintomas depressivos. E as manifestações podem persistir após a menopausa — hoje a condição é entendida como algo que acompanha a mulher ao longo da vida.
Suspeita de SOP? O diagnóstico correto faz toda a diferença.
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Agendar consulta com a Dra. Gabriella Dourado →Conteúdo informativo. Este artigo não substitui a consulta médica. Para avaliação individualizada, procure um ginecologista especializado.
Referências: “International Evidence-based Guideline for the Assessment and Management of Polycystic Ovary Syndrome” (2023) — referência central para diagnóstico, AMH, adolescentes, avaliação metabólica, estilo de vida, anticoncepcionais, metformina, inositol e fertilidade; Teede HJ et al., “Human Reproduction” (2023); “Polyendocrine metabolic ovarian syndrome, the new name for polycystic ovary syndrome: a multistep global consensus process” — The Lancet (maio de 2026), para a mudança de nomenclatura, endossada pela Endocrine Society e pela ASRM; Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), para a adaptação do termo SOMP em português; Legro RS et al. — “Letrozole versus clomiphene for infertility in the polycystic ovary syndrome”, New England Journal of Medicine, para a comparação entre os indutores de ovulação; American Academy of Dermatology — diretriz de manejo da acne; ESHRE; ASRM; FEBRASGO.