O câncer do colo do útero é o quarto tipo de câncer mais frequente em mulheres no mundo e o terceiro mais comum no Brasil — a estimativa do INCA para o triênio 2026–2028 é de cerca de 19,3 mil novos casos por ano, com mais de 7 mil mortes anuais. A boa notícia: é um dos poucos cânceres que podem ser prevenidos e detectados precocemente com exames simples e acessíveis.
E há uma mudança importante que muita gente ainda não sabe: o rastreamento brasileiro deixou de girar em torno do Papanicolau isolado. Desde 2025, o exame primário recomendado pelo Ministério da Saúde é o teste molecular de DNA-HPV oncogênico, com o Papanicolau assumindo o papel de exame complementar — e permanecendo como método de rastreamento nos locais onde o teste molecular ainda não chegou. Este guia explica as três ferramentas (teste de DNA-HPV, Papanicolau e colposcopia) e como elas se encaixam hoje.
📋 Em resumo
- Teste de DNA-HPV oncogênico: exame primário do rastreamento brasileiro desde 2025; detecta o vírus diretamente e, quando negativo, permite intervalo de 5 anos
- Papanicolau: coleta de células do colo uterino para análise citológica; hoje atua como exame complementar (citologia reflexa) e segue como método de rastreamento onde o teste molecular ainda não está disponível
- Colposcopia: avaliação com aparelho de magnificação que identifica áreas suspeitas e direciona a biópsia — indicada quando os exames anteriores são alterados
- Diretriz vigente: Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 13, de julho de 2025, que aprovou as Diretrizes Brasileiras de rastreamento com testes moleculares de DNA-HPV, em implantação progressiva no SUS
- Prevenção primária: vacina contra HPV — dose única no SUS para meninas e meninos de 9 a 14 anos
O que é o Papanicolau?
O Papanicolau (ou preventivo) é um exame simples e rápido que coleta células do colo do útero para identificar alterações antes que se tornem câncer. Foi durante décadas o pilar do rastreamento brasileiro e continua sendo um exame importante — hoje, principalmente como citologia complementar após um teste de DNA-HPV positivo e como método de rastreamento onde o teste molecular ainda não está implantado.
O exame de Papanicolau (colpocitologia oncótica, ou simplesmente "preventivo") é realizado desde a década de 1940 e foi responsável por reduzir em até 80% a mortalidade por câncer do colo do útero nos países que o implementaram sistematicamente. O exame consiste na coleta de células da junção escamocolunar do colo uterino — o local onde a maioria das lesões precursoras se desenvolve — seguida de análise microscópica por um citopatologista.
O Papanicolau avalia as características das células (citologia), classificando-as de acordo com o sistema Bethesda:
| Categoria Bethesda | Significado | Conduta habitual |
|---|---|---|
| NILM | Negativo — resultado normal | Repetir em 1–3 anos |
| ASC-US | Células escamosas atípicas de significado indeterminado | Estratificação com teste de HPV ou repetição da citologia; colposcopia conforme o risco |
| ASC-H | Atipias — não se pode excluir lesão de alto grau | Colposcopia |
| LSIL | Lesão intraepitelial escamosa de baixo grau | Depende do contexto: repetição do exame ou colposcopia (a maioria regride espontaneamente) |
| HSIL | Lesão intraepitelial escamosa de alto grau | Colposcopia e avaliação especializada rápida; conforme os achados, biópsia ou tratamento excisional |
| AGC | Células glandulares atípicas | Investigação ampliada: colposcopia e avaliação do canal endocervical, podendo incluir o endométrio conforme idade e fatores de risco |
| Carcinoma | Células sugestivas de câncer — achado altamente suspeito, a ser confirmado por biópsia | Encaminhamento oncológico urgente |
Uma ressalva importante sobre esta tabela: a conduta não é automática. Ela depende da idade, do resultado do teste de HPV, do histórico de rastreamento e — hoje, sobretudo — de por que a citologia foi feita: como rastreamento isolado ou como citologia reflexa após um DNA-HPV positivo. Nenhum resultado de Papanicolau, sozinho, define tratamento.
Quando começar e com que frequência fazer o rastreamento?
Aqui está a parte que mais mudou. Existem hoje dois esquemas em vigor no Brasil, e o que vale para você depende de qual exame está disponível no seu serviço:
Com teste de DNA-HPV (esquema recomendado desde 2025)
- População-alvo: pessoas com colo do útero de 25 a 64 anos que já tiveram atividade sexual
- Frequência: se o teste for negativo, repetir a cada 5 anos
- Encerramento: a partir dos 60 anos, quem tem pelo menos um teste de DNA-HPV negativo pode ser dispensada do rastreamento de rotina — o câncer do colo é altamente improvável nessa situação. Quem chega aos 60 anos ou mais sem rastreamento prévio adequado deve realizar ao menos um teste
Com Papanicolau (onde o teste molecular ainda não chegou)
- Início: aos 25 anos para mulheres que já tiveram relação sexual
- Frequência: anual nos dois primeiros anos; se ambos os resultados forem normais, passar para a cada 3 anos
- Encerramento: após os 64 anos, se a mulher tiver dois exames negativos consecutivos nos últimos 5 anos e nunca tiver tido resultado alterado
É por isso que você pode encontrar "60 anos" em um lugar e "64 anos" em outro: são os critérios de dois programas diferentes, convivendo durante a transição.
Mulheres imunossuprimidas (vivendo com HIV, transplantadas, em uso de imunossupressores) seguem regra própria em qualquer dos esquemas: iniciar o rastreamento logo após o início da atividade sexual, com intervalos mais curtos, conforme orientação médica.
Preventivo em dia é saúde em dia.
A Dra. Gabriella Dourado é ginecologista e obstetra especializada em São Paulo. Agende uma avaliação personalizada.
Agendar consulta →Como se preparar para o Papanicolau?
- Evitar relações sexuais nas 48 horas anteriores
- Não usar duchas vaginais, cremes ou medicamentos intravaginais nas 48 horas antes
- Evitar realizar o exame durante a menstruação (o sangue em quantidade pode dificultar a análise das células)
- Fora isso, o exame pode ser feito em qualquer fase do ciclo — não existe um "dia certo" do ciclo a ser cumprido
- Não é necessário jejum
O exame é rápido (menos de 5 minutos), pode causar leve desconforto durante a coleta com a espátula e escovinha, e geralmente não causa dor. O resultado fica disponível em alguns dias a semanas, conforme o laboratório.
O que é o teste de HPV DNA/PCR?
O HPV é um vírus de transmissão sexual responsável por praticamente 100% dos casos de câncer do colo do útero. Existem mais de 200 genótipos de HPV, dos quais cerca de 14 são considerados de alto risco oncogênico — os tipos 16 e 18 sozinhos são responsáveis por aproximadamente 70% dos cânceres do colo uterino.
O teste molecular de DNA-HPV oncogênico detecta diretamente o material genético do vírus na amostra coletada do colo uterino. Diferente do Papanicolau — que avalia o efeito do vírus nas células — o teste de HPV detecta a presença do próprio agente causador.
Vale desfazer uma confusão comum de nomenclatura: PCR e captura híbrida são técnicas diferentes de detecção do material genético, e genotipagem é a capacidade de identificar quais tipos de HPV estão presentes (por exemplo, distinguir o 16 e o 18 dos demais). Não são sinônimos. A terminologia usada pela diretriz brasileira é teste molecular para detecção de DNA-HPV oncogênico — é esse exame que o programa nacional adotou.
Vantagens do teste de HPV sobre o Papanicolau isolado
- Maior sensibilidade: detecta lesões de alto grau com sensibilidade de 90–97%, contra 55–80% do Papanicolau
- Valor preditivo negativo muito alto: um resultado negativo para HPV oncogênico está associado a risco muito baixo de lesão de alto grau nos anos seguintes — é justamente o que permite, com segurança, esticar o intervalo para 5 anos
- Permite intervalo maior entre exames: mulheres com HPV negativo podem ter intervalo de rastreamento de 5 anos com segurança
- Genotipagem: os testes mais completos identificam especificamente os genótipos 16 e 18 (maior risco) separadamente dos demais tipos de alto risco
A diretriz brasileira vigente: DNA-HPV como rastreamento primário
Não se trata mais de uma tendência internacional: é a política nacional. A Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 13, de julho de 2025, aprovou as Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer do Colo do Útero, estabelecendo o teste molecular de DNA-HPV oncogênico como exame primário do rastreamento organizado, com repetição a cada 5 anos quando negativo. O teste havia sido incorporado ao SUS em 2024, e a implantação vem ocorrendo de forma progressiva pelo território nacional.
O algoritmo funciona da seguinte forma:
- HPV negativo: repetir em 5 anos — rastreamento encerrado com segurança por esse período
- HPV 16 ou 18 positivo: encaminhamento direto para colposcopia, independentemente do resultado do Papanicolau
- Outros genótipos de alto risco positivos: realizar Papanicolau reflexo no mesmo momento; se Papanicolau alterado → colposcopia; se normal → repetir HPV em 1 ano
No SUS, a implantação segue em expansão pelo país; na rede privada, o teste já está amplamente disponível. Enquanto a transição não se completa, o Papanicolau permanece válido como método de rastreamento nos locais sem acesso ao teste molecular — o que não deve ser lido como "o preventivo perdeu a validade".
Nota: a Parte I das diretrizes, que define o rastreamento primário, está aprovada e vigente. A Parte II — que trata de como investigar, tratar e acompanhar as mulheres com exames alterados — passou por consulta pública em 2026, de modo que algumas condutas de manejo podem ser ajustadas na versão final. Por isso, este artigo descreve os princípios gerais e evita apresentar fluxos de conduta como regras rígidas.
HPV DNA positivo significa câncer?
Não. Um teste de HPV positivo é muito comum e, na enorme maioria das vezes, não significa câncer nem lesão — significa apenas que o vírus está presente naquele momento. Estima-se que a maioria das pessoas sexualmente ativas entrará em contato com o HPV em algum momento da vida, e o próprio sistema imune elimina a infecção em 1–2 anos na maioria dos casos.
É importante entender a sequência: ter o vírus ≠ ter lesão ≠ ter câncer. O HPV positivo apenas indica a necessidade de acompanhamento, que varia conforme o genótipo:
- HPV 16 ou 18 positivo: são os tipos de maior risco — indica-se colposcopia para avaliar o colo de perto.
- Outros tipos de alto risco: costuma-se fazer o Papanicolau no mesmo material; se normal, repete-se o HPV em 1 ano para ver se a infecção foi eliminada.
- O que realmente preocupa é a infecção persistente pelo mesmo tipo de alto risco por anos — é ela que, com o tempo, pode levar a lesões. Por isso o acompanhamento é o que protege.
Quanto tempo o HPV demora para causar alterações?
A evolução do HPV até uma lesão importante é, em geral, muito lenta — e é justamente essa lentidão que torna o rastreamento tão eficaz. A linha do tempo aproximada é:
- Infecção inicial: na maioria das pessoas, é eliminada espontaneamente pelo sistema imune em 1 a 2 anos, sem causar qualquer lesão.
- Lesões de baixo grau (NIC 1): quando surgem, também regridem sozinhas na maioria dos casos.
- Lesões de alto grau (NIC 2/3): quando a infecção persiste, podem se desenvolver ao longo de vários anos.
- Câncer invasivo: a progressão de uma lesão de alto grau não tratada até o câncer leva, em média, 10 a 20 anos.
Ou seja: há uma ampla janela de tempo para detectar e tratar as alterações muito antes de virarem câncer — desde que o rastreamento seja feito com regularidade.
O que é a colposcopia?
A colposcopia é um exame realizado pelo ginecologista no consultório, que utiliza um aparelho óptico de magnificação (colposcópio) para examinar de perto o colo do útero, a vagina e a vulva. Não é um exame de rastreamento: é uma avaliação diagnóstica, indicada quando o teste de HPV ou o Papanicolau apresentam resultado alterado. Uma distinção que importa: a colposcopia identifica e localiza as áreas suspeitas e direciona a biópsia — quem fornece o diagnóstico definitivo (NIC 1, NIC 2, NIC 3) é o exame do tecido, não a imagem.
Como é realizada a colposcopia?
O exame segue as seguintes etapas:
- A paciente se posiciona como no Papanicolau, e um espéculo é introduzido para visualizar o colo
- O médico aplica ácido acético a 3–5% no colo: áreas com lesão ficam brancas (acetobranqueamento), o que direciona a biópsia
- Em seguida, aplica-se o lugol (teste de Schiller): tecido normal cora de marrom escuro; áreas suspeitas permanecem sem corar (iodo-negativas)
- Se áreas suspeitas forem identificadas, realiza-se biópsia dirigida — coleta de fragmentos para análise histopatológica
- O resultado da biópsia define a conduta: observação, tratamento ambulatorial (CAF/LEEP) ou cirurgia
A colposcopia em si é indolor para a maioria das mulheres. A biópsia pode causar um leve desconforto ou cólica rápida no momento da pinçada. Após o procedimento, é comum um pequeno sangramento ou corrimento escuro (por causa do lugol) por alguns dias.
Achados colposcópicos e sua classificação
A colposcopia é classificada de acordo com a Nomenclatura Internacional da IFCPC (2011):
- Achados normais: epitélio escamoso original, epitélio colunar, zona de transformação (tipos 1, 2 ou 3)
- Achados anormais de baixo grau (grau 1): acetobranqueamento tênue, bordas irregulares — geralmente correspondem a NIC 1 (neoplasia intraepitelial grau 1)
- Achados anormais de alto grau (grau 2): acetobranqueamento denso, pontilhado grosseiro, mosaico grosseiro, vasos atípicos — geralmente correspondem a NIC 2 ou NIC 3
- Suspeita de invasão: vasos com padrão caótico, úlceras, necrose
Colposcopia dói?
Para a maioria das mulheres, a colposcopia em si é indolor — é semelhante a um exame ginecológico de rotina, com o espéculo, mas sem coleta dolorosa. O que pode incomodar:
- Ácido acético: ao ser aplicado no colo, pode causar uma leve ardência ou sensação de frio passageira.
- Biópsia (quando necessária): é o único momento que pode doer — costuma ser uma fisgada ou cólica rápida, de poucos segundos, geralmente bem tolerada e sem necessidade de anestesia.
- Depois do exame: é normal um pequeno sangramento ou corrimento escuro (resíduo do lugol) por alguns dias, sem gravidade.
Se você tem baixa tolerância à dor ou muita ansiedade, converse com o médico antes — um analgésico simples pode ser orientado. A colposcopia não exige internação e você retoma as atividades no mesmo dia.
NIC: o que significam os graus de lesão?
🔍 LSIL não é NIC 1 — e HSIL não é NIC 2/3
Essa confusão é muito comum, inclusive em materiais de saúde, e vale desfazer porque muda a leitura do seu exame:
- ASC-US, ASC-H, LSIL, HSIL, AGC e carcinoma são categorias de citologia — o resultado do Papanicolau, que analisa células soltas em uma lâmina.
- NIC 1, NIC 2 e NIC 3 são diagnósticos de histologia — obtidos no exame do tecido, pela biópsia ou pela peça cirúrgica.
Há forte correlação entre os dois mundos, mas não equivalência automática. Uma mulher com HSIL na citologia pode ter, na biópsia, NIC 2, NIC 3, apenas NIC 1 — ou até nenhuma lesão identificada. É exatamente por isso que a citologia alterada leva à investigação, e não direto ao tratamento.
A Neoplasia Intraepitelial Cervical (NIC) representa as lesões precursoras do câncer do colo do útero, classificadas em graus conforme a extensão do envolvimento epitelial. Repare que tudo o que vem abaixo é resultado de biópsia, não de Papanicolau:
- NIC 1 (baixo grau): alterações leves no terço inferior do epitélio; relacionada à infecção ativa por HPV. A maioria (60–80%) regride espontaneamente em 1–2 anos sem tratamento. Conduta: seguimento
- NIC 2 (alto grau): alterações nos dois terços inferiores do epitélio. Taxa de regressão de 40–50%; risco de progressão para NIC 3 ou câncer. Conduta: tratamento na maioria dos casos (CAF/LEEP); em mulheres jovens cuidadosamente selecionadas, com desejo reprodutivo, o acompanhamento pode ser uma alternativa
- NIC 3 / carcinoma in situ (alto grau): alterações em toda a espessura do epitélio, sem invasão. Risco elevado de progressão para câncer invasivo se não tratado. Conduta: tratamento (CAF/LEEP ou conização), salvo situações especiais como a gestação, em que a conduta é individualizada
Resultado alterado no Papanicolau: o que fazer?
Receber um resultado alterado no Papanicolau causa ansiedade — mas é importante entender que a maioria das alterações não significa câncer. O Papanicolau detecta células em diferentes graus de anormalidade, a maioria das quais regride espontaneamente ou é tratada de forma simples.
Guia rápido: resultados alterados e conduta
| Resultado | O que significa | Conduta usual |
|---|---|---|
| ASCUS | Alteração leve, inespecífica | Estratificação com teste de HPV ou repetição do exame; colposcopia conforme o risco |
| ASC-H | Alteração que não pode excluir lesão de alto grau | Colposcopia |
| LSIL (citologia) | Lesão de baixo grau — geralmente por HPV; a maioria regride | Depende do contexto: repetição do exame ou colposcopia |
| HSIL (citologia) | Lesão de alto grau — exige avaliação rápida | Colposcopia; conforme os achados, biópsia ou tratamento excisional |
| Carcinoma | Células sugestivas de câncer — a confirmação é feita pela biópsia | Encaminhamento oncológico urgente |
A mensagem mais importante: resultado alterado no Papanicolau é um sinal para agir — não para entrar em pânico. O exame foi criado exatamente para detectar alterações antes que se tornem câncer, e o sistema de rastreamento funciona muito bem quando seguido corretamente.
ASC-US é grave? O que significa no Papanicolau
Não, ASC-US não é grave. É o resultado alterado mais comum — e o que mais gera dúvida. ASC-US (Células Escamosas Atípicas de Significado Indeterminado) significa que o patologista identificou células escamosas levemente anormais, mas sem características suficientes para classificar como lesão precursora definida. É a alteração mais leve do sistema Bethesda.
- Na maioria dos casos: reflete alterações celulares transitórias relacionadas ao HPV, inflamação, atrofia ou outros fenômenos benignos — e regride espontaneamente em 60–70% das mulheres em 1–2 anos. Uma parcela menor, porém, está associada a HPV oncogênico e a lesões de maior relevância: é exatamente por isso que o teste de HPV é útil aqui, para separar quem precisa investigar de quem só precisa repetir.
- Conduta habitual: depende da idade, do resultado do teste de HPV e do contexto em que a citologia foi feita — pode ser repetição do exame ou colposcopia.
- Se HPV de alto risco positivo: indica-se colposcopia para avaliação direta do colo.
Tratamentos das lesões do colo do útero
CAF / LEEP (Cirurgia de Alta Frequência)
É o tratamento padrão para NIC 2 e NIC 3. Utiliza um fio de tungstênio aquecido por corrente elétrica de alta frequência para excisão da zona de transformação. Pode ser realizado no consultório ou ambulatório, sob anestesia local. A peça retirada é enviada para análise histológica para confirmar a remoção completa da lesão.
Conização a frio
Remoção cirúrgica de um cone de tecido do colo uterino, realizada em centro cirúrgico. Indicada quando a lesão é muito extensa, envolve o canal cervical, ou quando se suspeita de microinvasão.
Seguimento pós-tratamento
Após o tratamento de NIC 2, NIC 3 ou adenocarcinoma in situ, o primeiro controle é feito com teste de HPV e colposcopia por volta de 6 a 12 meses. O risco de recorrência é maior nos primeiros 2 anos, e esse controle inicial é decisivo.
Mas há um ponto pouco divulgado e importante: um primeiro controle negativo não significa alta do rastreamento. Quem foi tratada por lesão de alto grau mantém risco aumentado por muitos anos e não volta ao mesmo calendário de uma mulher que nunca teve NIC 2/3 — as diretrizes brasileiras preveem manter o seguimento por até 25 anos após o tratamento, enquanto isso for possível e clinicamente apropriado. Se você tratou uma lesão de alto grau há alguns anos e "parou de fazer", vale retomar o acompanhamento.
Vacina contra HPV: proteção antes da exposição
A vacinação contra HPV é a prevenção primária mais eficaz disponível. O Brasil utiliza a vacina quadrivalente (Gardasil) no PNI, que protege contra os genótipos 6, 11, 16 e 18 — responsáveis por 70% dos cânceres do colo do útero e 90% das verrugas genitais.
- Meninas e meninos de 9 a 14 anos: dose única no SUS. Esta é uma mudança recente e importante — o esquema de 2 doses para essa faixa etária foi substituído, porque a dose única mostrou proteção equivalente em pessoas sem imunossupressão
- Pessoas imunossuprimidas (vivendo com HIV, transplantadas, em tratamento oncológico): 3 doses, dos 9 aos 45 anos — inclusive na faixa de 9 a 14 anos, em que não se aplica a dose única
- Rede privada: a vacina nonavalente (Gardasil 9) protege contra 9 genótipos (6, 11, 16, 18, 31, 33, 45, 52 e 58), que respondem pela grande maioria dos cânceres cervicais relacionados ao HPV. O benefício individual depende da idade, da exposição prévia e do esquema — por isso a vacinação não substitui o rastreamento
- Há ainda esquemas específicos para outros grupos prioritários (como vítimas de violência sexual e usuários de PrEP), definidos pelo calendário do PNI
A vacina é mais eficaz quando administrada antes do início da atividade sexual, mas beneficia mulheres sexualmente ativas que ainda não foram expostas a todos os genótipos vacinais.
O câncer do colo do útero é, em grande parte, uma doença evitável. Com rastreamento regular, vacina e seguimento adequado, podemos mudar completamente esse cenário — e salvar vidas.
💬 Da prática clínica
No consultório, percebo que muitas mulheres deixam o preventivo de lado por medo ou vergonha. É um exame rápido que salva vidas: a maioria dos cânceres de colo é evitável quando o rastreamento é feito no tempo certo. Hoje explico também que a mensagem mudou de "mantenha o Papanicolau em dia" para "mantenha o seu rastreamento em dia" — de preferência com o teste de DNA-HPV, que hoje é o exame primário e, quando negativo, dá cinco anos de tranquilidade. Muita gente estranha o intervalo maior e acha que está sendo menos cuidada; é o contrário. — Dra. Gabriella Dourado
Perguntas Frequentes
Papanicolau alterado significa que eu tenho câncer?
Não necessariamente. A maioria dos resultados alterados indica lesões precursoras ou infecção por HPV, que na maior parte dos casos regridem sozinhas. O Papanicolau é um exame de rastreamento, e um resultado alterado é um sinal para investigar mais — não um diagnóstico de câncer.
O que significa ASCUS no resultado do Papanicolau?
ASCUS significa "células escamosas atípicas de significado indeterminado" — é uma alteração leve, frequentemente associada a uma infecção passageira por HPV. Na maioria das mulheres, o acompanhamento com um novo exame em alguns meses é suficiente para verificar se a alteração regrediu.
E se o resultado for HSIL? É grave?
HSIL indica uma lesão de alto grau que precisa de atenção. Ela representa uma alteração mais significativa nas células e exige encaminhamento para colposcopia e, possivelmente, tratamento. Com acompanhamento adequado, o risco de evolução para câncer invasivo é muito baixo.
Com que idade devo começar a fazer o preventivo?
O rastreamento começa aos 25 anos para mulheres que já tiveram relação sexual. A frequência depende do exame usado: com o teste de DNA-HPV, hoje o método primário recomendado no Brasil, um resultado negativo permite repetir a cada 5 anos. Onde ainda se usa o Papanicolau como rastreamento, o exame é anual nos dois primeiros anos e, se ambos forem normais, passa a ser feito a cada três anos.
Quem tomou a vacina contra HPV ainda precisa fazer o Papanicolau?
Sim, com certeza. A vacina protege contra os principais tipos de HPV causadores de câncer, mas não contra todos os genótipos. Além disso, ela não trata infecções que já existiam antes da vacinação, por isso o rastreamento regular continua sendo indispensável.
Para que serve o teste de HPV DNA? É melhor que o Papanicolau?
O teste molecular de DNA-HPV detecta diretamente o vírus nas células do colo do útero e é mais sensível que o Papanicolau isolado. Desde 2025 ele é o exame primário do rastreamento brasileiro, definido pela Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 13: um resultado negativo está associado a risco muito baixo e permite repetir o exame em 5 anos. Não é que o Papanicolau tenha perdido a validade — ele passou a ser o exame complementar, feito quando o teste de HPV é positivo, e segue como rastreamento onde o teste molecular ainda não chegou. Na rede privada, o teste já está amplamente disponível.
O que é a colposcopia e dói muito?
A colposcopia é um exame realizado no consultório em que o médico usa um aparelho óptico para examinar o colo do útero de perto. O exame em si é indolor; apenas a biópsia, quando necessária, pode causar um leve desconforto ou cólica rápida. Após o procedimento é normal um pequeno sangramento por alguns dias.
Posso fazer o Papanicolau durante a menstruação?
É preferível evitar o período menstrual, pois o sangue em quantidade pode dificultar a análise das células. Fora isso, não existe um dia certo do ciclo: o exame pode ser feito em qualquer fase. Também é recomendado evitar relações sexuais e duchas vaginais ou medicamentos vaginais nas 48 horas antes do exame.
Tirei o útero: ainda preciso fazer o preventivo?
Depende de dois pontos: qual cirurgia foi feita e qual foi o motivo. Se a histerectomia foi total (retirou o colo do útero) e ocorreu por uma condição benigna, como miomas, em mulher sem histórico de lesão cervical de alto grau ou câncer, em geral não é necessário manter o rastreamento do colo — simplesmente não há mais colo a rastrear. A recomendação muda se o colo foi preservado (histerectomia subtotal) ou se existe antecedente de NIC 2, NIC 3, adenocarcinoma in situ ou câncer: nesses casos o acompanhamento continua, e por muitos anos. Leve o relatório da cirurgia à consulta para que o ginecologista defina o seu caso.
Estou grávida e com o preventivo atrasado. Posso fazer?
Pode. A coleta da citologia é segura na gestação quando há indicação, e a colposcopia com biópsia dirigida também pode ser realizada se necessário — o que não se faz na gestante é a curetagem do canal endocervical. Uma ressalva do novo programa brasileiro: a gravidez não é o momento ideal para o rastreamento de rotina com teste de DNA-HPV, porque pode haver aumento transitório da positividade. A decisão leva em conta o seu histórico de rastreamento e o contexto clínico, então converse com quem faz o seu pré-natal em vez de simplesmente adiar.
Está em dia com seu preventivo e teste de HPV?
A Dra. Gabriella Dourado realiza Papanicolau, teste de HPV DNA e colposcopia em São Paulo, com laudo detalhado e acompanhamento individualizado. Cuide da sua saúde com quem entende do assunto.
Agendar consulta com a Dra. Gabriella Dourado →Conteúdo informativo. Este artigo não substitui a consulta médica. Para avaliação individualizada, procure um ginecologista.
Referências: Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 13, de 29 de julho de 2025 — Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer do Colo do Útero, Parte I (rastreamento organizado com testes moleculares de DNA-HPV oncogênico); INCA (Estimativa 2026–2028 e orientações de rastreamento); Programa Nacional de Imunizações (esquema de dose única para 9 a 14 anos); FEBRASGO; ABPTGIC; American Society for Colposcopy and Cervical Pathology (ASCCP); Organização Mundial da Saúde (OMS).