Ginecologia

ISTs: Infecções Sexualmente Transmissíveis — guia completo para mulheres

📅 Atualizado em agosto de 2026 ⏱ Leitura: 15 minutos 👩‍⚕️ Revisado por especialista em ginecologia

As Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) — anteriormente chamadas de DSTs (Doenças Sexualmente Transmissíveis) — são infecções causadas principalmente por bactérias, vírus e protozoários, transmitidas predominantemente pelo contato sexual; alguns agentes também passam pelo sangue, na gestação, no parto ou na amamentação. A OMS estima que ocorrem mais de 1 milhão de novas infecções curáveis por dia no mundo. Muitas são assintomáticas — e por isso frequentemente não diagnosticadas. Conhecer os sintomas, testar-se nos momentos adequados e usar preservativo são as principais ferramentas de proteção.

IST Agente Principal via de transmissão Tratamento / Cura
Sífilis Treponema pallidum Sexual / vertical Penicilina — curável
HPV Papilomavírus humano Contato pele a pele / sexual Não há remédio que erradique o vírus, mas a maioria das infecções regride sozinha; vacina preventiva
Herpes genital HSV-1 / HSV-2 Contato direto com lesão / assintomático Aciclovir / valaciclovir — sem cura
Clamídia Chlamydia trachomatis Sexual / vertical Azitromicina / doxiciclina — curável
Gonorreia Neisseria gonorrhoeae Sexual / vertical (conjuntivite neonatal) Ceftriaxona — curável
Tricomoníase Trichomonas vaginalis Sexual Metronidazol — curável
HIV Vírus HIV Sexual / sanguínea / vertical TARV — sem cura, controlável
Hepatite B HBV Sexual / sanguínea / vertical Vacina preventiva — tratamento disponível

📋 Principais ISTs e seus agentes

  • Sífilis: Treponema pallidum (bactéria) — curável com penicilina
  • HPV: Papilomavírus humano (vírus) — prevenível com vacina
  • Herpes genital: HSV-2 e HSV-1 (vírus) — sem cura, mas controlável
  • Clamídia: Chlamydia trachomatis (bactéria) — curável; frequentemente assintomática
  • Gonorreia: Neisseria gonorrhoeae (bactéria) — curável; resistência crescente
  • HIV: Vírus da Imunodeficiência Humana — sem cura, mas tratável e controlável
  • Hepatite B: HBV (vírus) — prevenível com vacina; tratamento disponível
  • Hepatite C: HCV (vírus) — cura em >95% com DAA
  • Tricomoníase: Trichomonas vaginalis (protozoário) — curável com metronidazol

Por que as mulheres são mais vulneráveis às ISTs

Biologicamente, as mulheres têm maior risco de adquirir ISTs no contato sexual com parceiros infectados, comparado ao inverso:

  • A mucosa vaginal tem área de exposição maior que a uretra masculina
  • Sêmen permanece na vagina por horas após a relação — contato prolongado
  • Microlesões cervicais e vaginais facilitam a entrada de patógenos
  • Muitas ISTs são mais frequentemente assintomáticas em mulheres — atraso no diagnóstico
  • Complicações como DIP, infertilidade e câncer cervical são exclusivas da anatomia feminina

Rastreio de ISTs no pré-natal ou em consulta ginecológica

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Sífilis: a grande simuladora

A sífilis é causada pela espiroqueta Treponema pallidum e tem estágios bem definidos. Está em ressurgência no Brasil — especialmente a sífilis congênita (transmissão para o bebê). O rastreamento adequado durante o pré-natal é essencial para a prevenção — veja o guia completo de sífilis na gestação.

Fases da sífilis

Sífilis primária (10–90 dias após infecção)

  • Cancro duro (úlcera de Hunter): úlcera única, indolor, de borda endurecida, fundo limpo — genitais, vagina, colo do útero, ânus, lábios
  • Linfonodomegalia regional indolor
  • Resolve espontaneamente em 3–6 semanas mesmo sem tratamento — mas a infecção continua

Sífilis secundária (6 semanas–6 meses após primária)

  • Roséola sifilítica: exantema maculopapular que acomete palmas e plantas (característico!)
  • Condiloma plano (latum) — lesões úmidas nas genitais e períneo
  • Alopecia em "traça"
  • Adenopatia generalizada
  • Febre, mal-estar, cefaleia
  • Altamente contagiosa

Sífilis latente (sem sintomas)

Após a fase secundária, a sífilis entra em período de latência — recente (<1 ano) ou tardia (>1 ano). Sem sintomas, mas a sorologia é positiva. Transmissão possível na fase latente recente.

Sífilis terciária (anos–décadas depois)

  • Gomas sifilíticas (lesões granulomatosas) — pele, ossos, mucosas
  • Neurossífilis — meningite, comprometimento neurológico, demência
  • Cardiovascular — aneurisma de aorta, insuficiência aórtica

Sífilis congênita

A transmissão vertical pode ocorrer durante a gestação, especialmente quando a infecção materna não é diagnosticada e tratada — o risco é maior nas fases recentes da sífilis. Causa aborto, natimorto, prematuridade, sepse neonatal, malformações ósseas, surdez e cegueira — um dos maiores problemas de saúde pública no Brasil atualmente.

Diagnóstico e tratamento

  • Diagnóstico: combina testes treponêmicos (teste rápido, TPHA/TPPA ou outros imunoensaios) e não treponêmicos (VDRL ou RPR). O algoritmo pode começar por qualquer um dos dois — não existe a regra única "VDRL rastreia, FTA confirma". O VDRL/RPR quantitativo também acompanha a resposta ao tratamento
  • Tratamento: a penicilina benzatina é o tratamento de escolha (e a penicilina é o único tratamento comprovadamente eficaz na gestação, prevenindo a sífilis congênita)
    • Primária/Secundária/Latente recente: penicilina benzatina 2.400.000 UI IM dose única
    • Latente tardia/de duração ignorada/Terciária: penicilina benzatina 2.400.000 UI IM, 3 doses semanais
    • Neurossífilis: penicilina G cristalina EV por 10–14 dias
  • Tratar parcerias
  • Seguimento com VDRL/RPR quantitativo: na população geral, em 3, 6, 9 e 12 meses; na gestante, mensalmente
  • Rastreamento no pré-natal: na primeira consulta (idealmente no 1º trimestre), no início do 3º trimestre, no parto ou abortamento e diante de nova exposição

HPV: o mais prevalente

O HPV (Papilomavírus Humano) é a IST mais comum no mundo — estima-se que 80% das pessoas sexualmente ativas serão infectadas em algum momento da vida. A maioria das infecções é transitória e eliminada pelo sistema imune em 1–2 anos. Veja nosso artigo completo sobre HPV.

  • HPV de baixo risco: tipos 6 e 11 — condilomas acuminados (verrugas genitais)
  • HPV de alto risco: tipos 16 e 18 — câncer de colo, vaginal, vulvar, anal, orofaríngeo, peniano
  • Vacina: no SUS, HPV quadrivalente (6, 11, 16, 18), em dose única para meninas e meninos de 9–14 anos (com resgate de 15–19 anos em 2026 e grupos especiais até 45 anos). A nonavalente (9 tipos) está disponível na rede privada
  • Rastreamento: no Brasil, desde 2025, o método primário é o teste de DNA-HPV oncogênico (25–64 anos, repetido a cada 5 anos quando negativo); a citologia (Papanicolau) permanece onde o teste molecular não está disponível e em triagem/seguimento. Veja o artigo sobre HPV

Herpes genital: a mais comum ulceração genital

O herpes genital é causado principalmente pelo HSV-2 (Herpes simplex vírus tipo 2), mas também pelo HSV-1 (via sexo oral). Afeta cerca de 500 milhões de pessoas no mundo (OMS) — e a grande maioria não sabe que tem.

Apresentação clínica

  • Primoinfecção: vesículas agrupadas sobre base eritematosa → úlceras rasas, dolorosas — vulva, vagina, colo, períneo, ânus, coxas; febre, mal-estar, adenopatia; dura 2–3 semanas
  • Recorrências: surtos repetidos (4–5 vezes/ano no 1º ano), tipicamente mais brandos, com pródromo de ardência/formigamento; frequência diminui com o tempo
  • Assintomático (mais comum): maioria das pessoas infectadas nunca tem sintomas óbvios — mas pode transmitir pelo "shed" viral assintomático

Diagnóstico e tratamento

  • Diagnóstico: quando há lesão, deve ser confirmado por teste virológico da lesão, preferencialmente NAAT/PCR (quando disponível), porque o aspecto clínico pode ser atípico; a sorologia tipo-específica ajuda em situações selecionadas, mas não é rastreamento populacional
  • Tratamento episódico: aciclovir 400 mg 3×/dia por 7–10 dias (primoinfecção) ou 5 dias (recorrência); ou valaciclovir 1 g 2×/dia
  • Tratamento supressivo: aciclovir 400 mg 2×/dia continuamente — considerado quando as recorrências são frequentes ou incômodas, ou para reduzir a transmissão; reduz recorrências em 70–80% (transmissão de HSV-2 ~pela metade em casais sorodiscordantes)
  • Gestação: herpes neonatal é raro mas grave — aciclovir supressivo a partir de 36 semanas em gestantes com herpes genital recorrente; a cesárea é indicada quando há lesões genitais ativas ou sintomas prodrômicos no trabalho de parto. Não se usa antiviral só porque a sorologia é positiva, sem história de herpes genital

⚠️ Herpes não tem cura — mas tem tratamento eficaz

O vírus do herpes permanece latente nos gânglios nervosos para sempre. No entanto, o tratamento antiviral reduz a frequência, a intensidade e a duração dos surtos, e diminui o risco de transmissão. Herpes não é "o fim" da vida sexual — com informação e tratamento, é muito bem manejável.

Clamídia: a silenciosa

A Chlamydia trachomatis é a IST bacteriana mais prevalente no mundo. No Brasil, dados subestimam sua real prevalência porque 70–80% das mulheres infectadas são assintomáticas. A clamídia não tratada pode causar infertilidade por obstrução das trompas.

Manifestações

  • Muitas vezes assintomática — a principal razão para o rastreamento
  • Corrimento mucopurulento (cervicite)
  • Sangramento pós-coital
  • Disúria
  • DIP (Doença Inflamatória Pélvica): extensão para endométrio, trompas, ovários — dor pélvica, febre, leucorreia purulenta
  • Perihepatite (síndrome de Fitz-Hugh-Curtis): dor em hipocôndrio direito — confundida com hepatite ou pleurite

Complicações não tratadas

  • Infertilidade por fator tubário (oclusão)
  • Gravidez ectópica
  • Dor pélvica crônica
  • Artrite reativa (síndrome de Reiter)

Diagnóstico e tratamento

  • Diagnóstico: NAAT (PCR) — gold standard; swab endocervical ou amostra de urina; cultura raramente usada
  • Rastreamento: recomendado anualmente para mulheres sexualmente ativas com <25 anos, e para mulheres mais velhas com múltiplos parceiros
  • Tratamento: azitromicina 1 g oral dose única OU doxiciclina 100 mg 2×/dia por 7 dias (mais eficaz, recomendado pelo CDC)
  • Tratar parceiro(s)
  • Testar para outras ISTs

Gonorreia: resistência crescente

A gonorreia, causada pela Neisseria gonorrhoeae, é a 2ª IST bacteriana mais prevalente. Preocupa pela resistência crescente a antibióticos — a OMS incluiu a gonorreia multidroga-resistente entre as principais ameaças antimicrobianas do mundo.

Manifestações em mulheres

  • 50% assintomáticas
  • Cervicite: corrimento mucopurulento, sangramento pós-coital
  • Uretrite: disúria
  • DIP: doença mais grave — dor pélvica, febre
  • Bartholinite: inflamação/abscesso da glândula de Bartholin
  • Infecção disseminada gonocócica (rara): artrite, dermatite, endocardite
  • Conjuntivite gonocócica neonatal — conjuntivite purulenta intensa, edema palpebral e, se não tratada, ulceração/perfuração da córnea e cegueira

Diagnóstico e tratamento

  • Diagnóstico: NAAT (PCR) — mais sensível e específico; cultura (para teste de sensibilidade antimicrobiana)
  • Tratamento (PCDT/Ministério da Saúde): no Brasil, mantém-se a terapia dupla — ceftriaxona 500 mg IM + azitromicina 1 g VO, ambos em dose única (a monoterapia com ceftriaxona é a recomendação do CDC dos EUA, não do MS brasileiro)
  • Tratar parceria(s) simultaneamente; testar para clamídia, sífilis e HIV
  • Reavaliação clínica após ~7 dias; teste de cura não é necessário de rotina na infecção urogenital/retal bem tratada — é recomendado na gonorreia faríngea (7–14 dias). A retestagem em ~3 meses busca reinfecção (é diferente de teste de cura)

HIV: prevenir, testar, tratar

O HIV (Vírus da Imunodeficiência Humana) causa a AIDS (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida). O Brasil possui uma ampla rede pública de diagnóstico e tratamento e já atingiu elevados níveis de diagnóstico e de supressão viral entre as pessoas em acompanhamento, embora ainda existam desafios de acesso, início e retenção no tratamento. Com o tratamento antirretroviral (TARV), uma pessoa com HIV diagnosticada e tratada precocemente tem expectativa de vida normal.

Transmissão

  • Sexual (principal via): anal receptivo > vaginal receptivo > outros
  • Sanguínea: compartilhamento de seringas, transfusão
  • Vertical: mãe para filho (gestação, parto, amamentação) — prevenível com TARV

Fases da infecção

  • Infecção aguda (síndrome retroviral aguda): 2–4 semanas após a infecção; febre, faringite, adenopatia, exantema — frequentemente não reconhecida
  • Fase assintomática: anos sem sintomas; o vírus se replica e destrói lentamente as células CD4
  • AIDS: CD4 <200 células/mm³ ou doença definidora de AIDS (pneumocistose, toxoplasmose cerebral, tuberculose disseminada, linfoma)

Diagnóstico

  • Testes rápidos ou imunoensaios laboratoriais seguindo os algoritmos confirmatórios do Ministério da Saúde (por exemplo, dois testes rápidos diferentes em sequência); em situações específicas, testes moleculares participam da investigação. (O "ELISA + Western blot" é linguagem de material antigo.)
  • Carga viral + CD4: após o diagnóstico — avalia progressão e resposta ao tratamento
  • Rastreamento: recomendado para todas as gestantes (início do pré-natal e 3º trimestre) e conforme exposição/práticas sexuais

Prevenção combinada

  • Preservativo: o uso correto e consistente reduz muito o risco de HIV
  • PrEP (Profilaxia Pré-Exposição): tenofovir/entricitabina para pessoas de alto risco — muito eficaz quando usada conforme prescrita; disponível no SUS. Para a proteção por exposição vaginal (mulheres cis), usa-se a PrEP diária (proteção após ~7 dias de uso adequado); o Brasil também dispõe de PrEP sob demanda para grupos elegíveis específicos
  • PEP (Profilaxia Pós-Exposição): iniciar o quanto antes, em até 72h após a exposição, por 28 dias — oferecida gratuitamente pelo SUS em serviços habilitados (unidades de saúde e serviços de urgência)
  • TasP (Treatment as Prevention): pessoa com HIV em TARV com carga viral indetectável não transmite sexualmente (U=U: Indetectável = Intransmissível)
  • TARV para gestante: reduz a transmissão vertical para menos de 1%

Hepatite B: a vacinável

A hepatite B (HBV) é altamente transmissível pelo contato com sangue e fluidos corporais e tem transmissão sexual eficiente; também pode ser transmitida verticalmente. Há vacina altamente eficaz no calendário básico do SUS — 3 doses.

  • HBsAg (antígeno de superfície): marcador de infecção ativa
  • Anti-HBs: anticorpo protetor (pós-vacinação ou cura)
  • Hepatite B crônica (HBsAg >6 meses): risco de cirrose e carcinoma hepatocelular
  • Tratamento: tenofovir ou entecavir (hepatite crônica); interferona pegilada
  • Gestação: tratamento antiviral materno (geralmente tenofovir) em gestantes com alta carga viral, conforme critérios; imunoglobulina + vacina para o recém-nascido ao nascer previnem a transmissão vertical em >95%

Hepatite C: a curável

A hepatite C (HCV) tem transmissão principalmente sanguínea (compartilhamento de seringas, tatuagens, piercing). A transmissão sexual é possível, mas menos eficiente que o HBV. Hoje, o HCV tem cura em >95% dos casos com os antivirais de ação direta (DAA) em 8–12 semanas de tratamento.

  • Rastreamento: toda gestante deve ser testada para hepatite C no pré-natal. Fora da gestação, a testagem é ampla (internacionalmente, recomenda-se ao menos uma vez na vida adulta) e reforçada em fatores de risco (uso de drogas injetáveis, transfusão antes de 1993, parceria infectada)
  • Tratamento: cura em mais de 95% dos casos com antivirais de ação direta, em esquemas definidos conforme o quadro clínico e o protocolo vigente do Ministério da Saúde (o novo PCDT de hepatite C, de 2026, privilegia esquemas pangenotípicos como sofosbuvir/velpatasvir; o ledipasvir/sofosbuvir foi excluído)
  • Não há vacina para HCV

ISTs na gestação: cuidados especiais

As ISTs na gestação têm implicações para a mãe e para o bebê:

  • Sífilis: testagem no início do pré-natal, no 3º trimestre e no parto/abortamento — sífilis congênita é prevenível com tratamento materno adequado com penicilina
  • HIV: TARV reduz a transmissão vertical para <1%
  • Hepatite B: vacina + imunoglobulina ao RN; hepatite C: testagem universal no pré-natal
  • Herpes: aciclovir supressivo a partir de 36 semanas (herpes recorrente); cesárea se lesão ativa ou pródromo no trabalho de parto
  • HPV: condilomas podem crescer na gestação; não indicar tratamento agressivo
  • Clamídia/Gonorreia: tratar (na gestação, azitromicina para clamídia; ceftriaxona + azitromicina para gonorreia); podem causar corioamnionite, parto prematuro e infecção neonatal
  • Tricomoníase: metronidazol — pode ser usado em qualquer trimestre da gestação; associada a parto prematuro

Prevenção: estratégias combinadas

Preservativo (camisinha)

O uso correto e consistente de preservativos (masculino ou feminino) reduz significativamente o risco de HIV e de muitas ISTs transmitidas por secreções genitais. A proteção é menor para infecções que também se transmitem pelo contato pele a pele, como HPV, herpes e a sífilis quando há lesões fora da área coberta.

Vacinas disponíveis

  • HPV: no SUS, HPV quadrivalente em dose única para meninas e meninos de 9–14 anos (grupos especiais até 45 anos); a nonavalente é opção na rede privada
  • Hepatite B: 3 doses; disponível no SUS para todas as idades
  • Hepatite A: no SUS, é oferecida no calendário infantil e para determinados grupos de risco/condições especiais (não é rotina para todo adulto). A hepatite A não é uma IST clássica, mas pode ser transmitida em práticas sexuais com exposição fecal-oral
  • Pesquisa em andamento: vacinas para HIV, herpes e gonorreia

PrEP e PEP

  • PrEP: medicamento diário para prevenir HIV — indicado para pessoas de alto risco (múltiplos parceiros, parceiro HIV+, uso de drogas IV). Disponível gratuitamente no SUS nas UBS
  • PEP: após exposição de risco (relação desprotegida com pessoa HIV+, violência sexual) — iniciar em até 72h; duração de 28 dias. Disponível 24h nas UBS e prontos-socorros

Testagem conforme o perfil

Não se rastreiam todas as ISTs periodicamente em toda pessoa sexualmente ativa. A necessidade e a frequência dos testes dependem da idade, das práticas sexuais, do número e tipo de parcerias, do uso de preservativo, de IST prévia, da gestação e de outras exposições:

  • Sífilis: conforme risco; na gestação, testagem no início do pré-natal, no 3º trimestre e no parto
  • Clamídia/gonorreia: anual para mulheres <25 anos; acima disso, com risco aumentado (nova parceria, múltiplas parcerias, parceria com outras parcerias, IST prévia)
  • HIV: oferta ampla e repetição conforme exposição; toda gestante
  • Hepatites B e C: toda gestante; fora da gestação, conforme risco (HCV com testagem ampla na vida adulta)
  • Câncer do colo (HPV): tem estratégia própria — no Brasil, teste de DNA-HPV oncogênico dos 25 aos 64 anos

💡 Testagem rápida para ISTs no SUS

O Ministério da Saúde oferece testes rápidos para HIV, sífilis, hepatite B e hepatite C nas Unidades Básicas de Saúde (UBS). São gratuitos, com resultado em 30 minutos. Sem necessidade de encaminhamento — qualquer pessoa pode solicitar. A testagem é o primeiro passo para o diagnóstico e tratamento precoces.

Corrimento sempre significa IST?

Não. Essa é uma das maiores confusões — a maioria dos corrimentos vaginais não é causada por IST:

  • Corrimento fisiológico (normal): claro ou esbranquiçado, sem odor forte nem coceira; muda de aspecto ao longo do ciclo.
  • Candidíase: corrimento branco e espesso ("leite coalhado"), com coceira intensa — causada por um fungo; não é IST. Veja as vulvovaginites.
  • Vaginose bacteriana: corrimento acinzentado com odor de "peixe" — é um desequilíbrio da flora vaginal, não uma IST clássica.
  • Aí sim, corrimentos que podem ser IST: clamídia e gonorreia (mucopurulento, cervicite) e tricomoníase (amarelo-esverdeado, bolhoso, com odor).

Como a distinção exige avaliação, vale procurar o ginecologista diante de odor forte, cor amarelada/esverdeada, coceira intensa, sangramento ou dor. Entenda melhor no artigo sobre corrimento vaginal.

Posso ter IST mesmo usando camisinha?

Sim — a camisinha reduz muito o risco, mas não o elimina por completo. As principais situações em que a infecção ainda pode ocorrer:

  • Transmissão pele a pele: herpes e HPV passam pelo contato de áreas não cobertas pelo preservativo (base do pênis, bolsa escrotal, vulva, região perianal).
  • Uso inconsistente ou tardio: colocar a camisinha só perto da ejaculação deixa um período de exposição.
  • Uso incorreto ou ruptura: lubrificação inadequada, produto vencido ou rompimento durante a relação.
  • Sexo oral sem proteção: várias ISTs se transmitem por essa via (veja a seguir).

Por isso, a proteção ideal é combinada: preservativo + vacinação (HPV e hepatite B) + rastreamento regular.

Quanto tempo após a relação os exames detectam uma IST?

Cada IST tem um "período de janela" — o intervalo entre a infecção e o momento em que o exame consegue detectá-la. Testar cedo demais pode dar um falso-negativo. Os tempos aproximados:

IST (exame) Período de janela aproximado
HIV (teste de 4ª geração)~2 a 6 semanas
Sífilis (VDRL)~1 a 3 semanas (até 6)
Clamídia e gonorreia (PCR/NAAT)~1 a 2 semanas
Hepatite B (HBsAg)~4 a 8 semanas
Hepatite C (anti-HCV)~8 a 11 semanas

Esses períodos são aproximados e variam conforme o teste utilizado — uma exposição recente pode exigir testagem inicial e repetição posterior. Por isso, em geral, repete-se o exame após a janela para confirmar um resultado negativo. Atenção: diante de uma exposição de risco ao HIV, a PEP deve ser iniciada em até 72 horas, sem esperar qualquer exame.

Quais ISTs podem ser transmitidas pelo sexo oral?

Várias — o sexo oral sem proteção pode transmitir ISTs em ambas as direções (da boca para os genitais e vice-versa):

  • Herpes: o HSV-1 (oral) é causa frequente de herpes genital pelo sexo oral, e vice-versa.
  • Gonorreia: pode infectar a garganta (gonorreia faríngea), muitas vezes sem sintomas.
  • Sífilis: o cancro pode surgir nos lábios, boca ou garganta.
  • HPV: associado ao câncer de orofaringe.
  • Clamídia: também pode causar infecção faríngea, geralmente silenciosa.
  • HIV: risco bem menor que na relação vaginal ou anal, mas não nulo — sobretudo havendo lesões ou sangramento na boca.

Como muitas infecções de garganta não dão sintomas, a coleta de swab orofaríngeo para gonococo/clamídia deve considerar o sítio de exposição — a urina ou o swab vaginal podem não detectar uma infecção apenas faríngea. Para reduzir o risco, pode-se usar preservativo ou barreira de látex no sexo oral, além da vacinação contra o HPV.

Doença Inflamatória Pélvica (DIP): a complicação mais grave

A DIP é uma síndrome infecciosa e inflamatória do trato genital superior — endométrio (endometrite), trompas (salpingite), ovários (ooforite) e peritônio pélvico. Está frequentemente relacionada a clamídia e gonorreia, mas é polimicrobiana: pode envolver anaeróbios e bactérias da microbiota vaginal, e cerca de metade dos casos não tem clamídia ou gonococo detectáveis. O corrimento vaginal purulento é um dos sinais de alerta.

Diagnóstico clínico (critérios mínimos do CDC)

Pelo menos um dos seguintes em mulher sexualmente ativa sem outra causa:

  • Sensibilidade à mobilização do colo uterino (cervical motion tenderness)
  • Sensibilidade uterina
  • Sensibilidade anexial

Tratamento

  • Ambulatorial (DIP leve a moderada): ceftriaxona 500 mg IM dose única + doxiciclina 100 mg 2×/dia por 14 dias + metronidazol 500 mg 2×/dia por 14 dias
  • Hospitalar (DIP grave): cefoxitina + doxiciclina EV; ou clindamicina + gentamicina EV
  • Tratar parceiro(s)
  • Abstinência sexual até conclusão do tratamento e cura

Abordagem clínica de IST: o que acontece na consulta

  1. Anamnese: vida sexual (número de parceiros, uso de preservativo, últimas relações), sintomas atuais, ISTs anteriores, história de DIP
  2. Exame físico: pele (exantemas, úlceras), gânglios, vulva, vagina, colo, útero e anexos
  3. Coleta de material: swabs para cultura/NAAT; amostras de sangue para sorologias
  4. Tratamento: abordagem sindrômica (tratar antes mesmo do resultado laboratorial em casos claros) ou baseada em diagnóstico laboratorial
  5. Notificação: no Brasil, sífilis, infecção pelo HIV/aids e hepatites virais estão entre os agravos de notificação compulsória, conforme os critérios de vigilância vigentes
  6. Orientação e prevenção: educação sobre uso de preservativo, testagem de parceiros, rastreamento regular

💬 Da prática clínica

Muitas ISTs são silenciosas — a pessoa não sente nada e mesmo assim pode transmitir. Por isso converso com cada paciente sobre quais testes fazem sentido no seu caso (pela idade, pelas práticas e pelas exposições) e reforço a dupla proteção. Diagnóstico precoce muda tudo, e a maioria das ISTs tem tratamento. — Dra. Gabriella Dourado

Perguntas Frequentes

Posso ter uma IST sem nunca ter sentido nenhum sintoma?

Sim, é bastante comum. Infecções como clamídia (em 70–80% das mulheres), gonorreia (em cerca de 50%) e sífilis latente podem estar presentes por meses ou anos sem qualquer sinal. O HIV também costuma passar anos sem sintomas evidentes. Por isso a testagem nos momentos e grupos recomendados — conforme a idade, as práticas sexuais e as exposições — é importante, mesmo sem sintomas.

Se eu receber tratamento para uma IST bacteriana, posso me infectar de novo?

Sim. Sífilis, clamídia e gonorreia são curáveis, mas não geram imunidade permanente — uma nova exposição pode causar reinfecção. É fundamental tratar o(a) parceiro(a) ao mesmo tempo para evitar o efeito "ping-pong" de reinfecção mútua.

O que é PrEP e quem pode usar?

A PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) é um medicamento diário que previne a infecção pelo HIV com eficácia superior a 99% quando tomado corretamente. É indicada para pessoas com risco elevado, como mulheres com parceiro HIV positivo não tratado, múltiplos parceiros sem uso consistente de preservativo, ou usuárias de drogas injetáveis. Está disponível gratuitamente nas Unidades Básicas de Saúde do SUS.

Sífilis na gravidez é grave? Como prevenir?

A sífilis na gestação é uma das principais emergências de saúde pública no Brasil. Sem tratamento, pode causar aborto, natimorto, malformações ósseas, surdez e cegueira no bebê. A boa notícia é que é prevenível: a testagem deve ser feita no início do pré-natal, no 3º trimestre e no parto, e o tratamento com penicilina durante a gestação protege o bebê.

Herpes genital tem cura?

Não tem cura — o vírus permanece latente nos gânglios nervosos para sempre. No entanto, com o tratamento antiviral (aciclovir ou valaciclovir), é possível reduzir muito a frequência, a intensidade e a duração dos surtos, além de diminuir o risco de transmissão ao parceiro. Muitas pessoas com herpes têm vida sexual ativa e saudável com as orientações corretas.

Clamídia pode causar infertilidade?

Sim, quando não tratada. A clamídia pode se disseminar silenciosamente para as trompas de Falópio, causando inflamação (DIP) e fibrose que leva à obstrução tubária. É uma das principais causas de infertilidade por fator tubário e de gravidez ectópica em mulheres jovens. O rastreamento anual é recomendado para mulheres sexualmente ativas com menos de 25 anos.

Tenho HIV e faço tratamento — posso transmitir para meu parceiro?

Quando o tratamento antirretroviral está funcionando bem e a carga viral está indetectável, a transmissão sexual é praticamente zero. Esse conceito é chamado de U=U (Indetectável = Intransmissível) e é reconhecido pela OMS. Isso não elimina a importância do acompanhamento médico regular e do uso de preservativo para proteção contra outras ISTs.

Rastreamento de ISTs: cuide da sua saúde sexual

Muitas ISTs são silenciosas — e o diagnóstico precoce faz toda a diferença para o tratamento e para a prevenção de complicações. A Dra. Gabriella Dourado realiza consultas de saúde sexual com rastreamento completo em São Paulo, com toda a discrição e cuidado.

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Conteúdo informativo. Este artigo não substitui a consulta médica. Para avaliação individualizada, procure um ginecologista ou infectologista de sua confiança.

Referências: Ministério da Saúde — PCDT para Atenção Integral às Pessoas com IST; PCDT de Hepatite C (2026); Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer do Colo do Útero (2025); Programa Nacional de Imunizações (HPV dose única); Prevenção da Transmissão Vertical de HIV, Sífilis e Hepatites; CDC — Sexually Transmitted Infections Treatment Guidelines; OMS; FEBRASGO; Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).