A vaginose bacteriana (VB) é a causa mais comum de corrimento vaginal anormal em mulheres em idade reprodutiva — responsável por 40–50% dos casos. Não é uma infecção clássica, mas sim uma disbiose da microbiota vaginal: os Lactobacillus protetores são substituídos por uma comunidade polimicrobiana de anaeróbios. O diagnóstico correto é essencial, pois a VB aumenta o risco de complicações obstétricas e facilita a aquisição de ISTs.
📋 Pontos-chave sobre Vaginose Bacteriana
- Prevalência: 15–30% das mulheres em idade reprodutiva; 10–30% das gestantes
- Diagnóstico clínico: Critérios de Amsel — 3 dos 4 critérios presentes
- Diagnóstico laboratorial: Escore de Nugent ≥7 no esfregaço corado por Gram
- Tratamento principal: metronidazol 500 mg VO 2x/dia por 7 dias (ou gel vaginal)
- Recorrência: muito frequente — 50% recorrem em 12 meses
- Na gravidez: risco aumentado de parto prematuro, rotura prematura de membranas e corioamnionite
Principais sintomas da vaginose bacteriana
A vaginose bacteriana costuma se manifestar de forma discreta — muitas mulheres têm sintomas leves ou nem chegam a percebê-los. Quando presentes, os mais característicos são:
- Corrimento fino e acinzentado — branco-acinzentado, homogêneo, que adere às paredes da vagina
- Odor de "peixe" — que piora após a relação sexual e durante a menstruação
- Pouca ou nenhuma coceira — ao contrário da candidíase
- Ausência de inflamação importante — sem vermelhidão ou inchaço expressivos (por isso o nome "vaginose", e não "vaginite")
- Em geral sem ardência ou dor ao urinar ou na relação
Diagnóstico diferencial: vaginose, candidíase e tricomoníase
O corrimento vaginal pode ter várias origens. A tabela abaixo compara as três principais causas infecciosas — mas vale a ressalva antes de usá-la: esses padrões são típicos, não são diagnóstico. Há grande sobreposição entre as causas, infecções mistas existem, e a aparência do corrimento isolada não confirma nada. A tabela serve para entender o exame, não para substituí-lo.
| Característica | Vaginose Bacteriana | Candidíase | Tricomoníase |
|---|---|---|---|
| Corrimento | Cinza-esbranquiçado, fluido, homogêneo | Branco, grumoso ("queijo cottage") | Amarelo-esverdeado, espumoso |
| Odor | "Peixe" — piora após sexo | Sem odor característico | Fétido |
| pH vaginal | >4,5 | <4,5 (normal) | >4,5 |
| Coceira | Leve ou ausente | Intensa | Moderada |
| Agente | Polimicrobiana — queda dos lactobacilos e aumento de Gardnerella e outros anaeróbios | Candida albicans | Trichomonas vaginalis |
| Tratamento | Metronidazol | Fluconazol / antifúngico vaginal | Metronidazol (casal) |
Microbiota vaginal normal e a disbiose
A vagina saudável em mulheres em idade reprodutiva costuma ser dominada por Lactobacillus spp. — sobretudo L. crispatus, considerado o mais estável, além de L. jensenii, L. gasseri e L. iners. Esses lactobacilos produzem:
- Ácido láctico: mantém o pH vaginal entre 3,8 e 4,5 — inóspito para patógenos
- Bacteriocinas: peptídeos antimicrobianos
- Biossurfactantes: impedem a adesão de patógenos ao epitélio vaginal
Na vaginose bacteriana, os Lactobacillus são substituídos por uma flora polimicrobiana dominada por Gardnerella vaginalis, Prevotella spp., Mobiluncus spp., Fusobacterium, Peptostreptococcus e outras bactérias anaeróbias. A G. vaginalis costuma iniciar o processo formando um biofilme aderido à parede vaginal, que depois abriga várias outras espécies — e esse biofilme polimicrobiano é um dos principais fatores por trás da alta taxa de recorrência.
Corrimento ou odor que não passam?
O diagnóstico correto é fundamental para diferenciar a vaginose bacteriana da candidíase e de outras causas de corrimento — e definir o tratamento certo. A Dra. Gabriella Dourado, ginecologista e obstetra em São Paulo, avalia com exame clínico e laboratorial.
Agendar consulta →Critérios de Amsel para diagnóstico clínico
O diagnóstico clínico padrão de vaginose bacteriana é feito pelos Critérios de Amsel — presença de 3 dos 4 critérios a seguir:
Os 4 Critérios de Amsel
| Critério | Descrição |
|---|---|
| 1. Corrimento homogêneo | Fluido acinzentado ou branco-acinzentado, fino, aderente às paredes vaginais |
| 2. pH vaginal >4,5 | Medido com papel indicador de pH diretamente na parede vaginal lateral |
| 3. Clue cells | Células epiteliais vaginais recobertas por bactérias — bordas obscurecidas; >20% das células no microscópio |
| 4. Whiff test positivo | Odor de peixe após adição de KOH 10% ao corrimento — aminas voláteis liberadas pelos anaeróbios |
Escore de Nugent
O escore de Nugent é o padrão laboratorial para diagnóstico — realizado pela coloração de Gram do esfregaço vaginal. Pontua morfotipos bacterianos de 0 a 10:
- 0–3: flora normal (predominância de Lactobacillus)
- 4–6: flora intermediária
- 7–10: vaginose bacteriana diagnosticada
Testes moleculares
Alguns laboratórios oferecem testes moleculares que avaliam ao mesmo tempo as bactérias associadas à vaginose e as espécies protetoras de Lactobacillus. Eles têm boa acurácia em mulheres com sintomas e vêm ganhando espaço.
Tratamento da vaginose bacteriana
Esquemas recomendados
Os três esquemas abaixo são os de referência. Um ponto que costuma surpreender: não há dados demonstrando que o comprimido seja superior ao creme ou gel vaginal — a escolha entre via oral e via vaginal depende muito mais de tolerância, preferência e adesão.
- Metronidazol 500 mg VO 2x/dia por 7 dias: o esquema mais usado e o preferido pela OMS
- Gel de metronidazol 0,75% vaginal: 5 g (aplicador cheio) intravaginal 1x/noite por 5 noites — menor absorção sistêmica, menos efeitos gastrointestinais
- Creme de clindamicina 2% vaginal: 5 g intravaginal por 7 noites — opção para quem não tolera metronidazol
Alternativas
- Clindamicina 300 mg VO 2x/dia por 7 dias
- Tinidazol: aqui as diretrizes divergem. A OMS aceita 2 g em dose única quando a adesão a esquemas longos é um problema — exceto na gestação; o CDC prefere 2 g por 2 dias ou 1 g por 5 dias. Se você encontrar orientações diferentes, não é erro de ninguém: são consensos distintos
- Secnidazol em dose única, em situações selecionadas
🍷 E o álcool durante o metronidazol?
A orientação clássica é evitar bebidas alcoólicas durante o tratamento e por 24 a 48 horas depois, por causa da chamada "reação tipo antabuse" — rubor, náusea, palpitações. Essa recomendação continua em bulas e protocolos brasileiros.
Vale saber, porém, que revisões modernas não encontraram evidência convincente dessa interação: o metronidazol não bloqueia a enzima aldeído-desidrogenase do mesmo modo que o dissulfiram, e o CDC já não considera necessário evitar álcool por esse mecanismo. Na prática: siga a orientação da sua prescrição e da bula do produto — mas se uma taça escapou, isso não é motivo para pânico nem para interromper o tratamento.
🔬 Aproveite para atualizar a testagem de IST
A vaginose bacteriana não é uma IST, mas ela facilita a aquisição de várias delas. Por isso o diagnóstico de VB — já no primeiro episódio, e não apenas nos casos recorrentes — é uma boa oportunidade para atualizar a testagem de HIV, sífilis, clamídia, gonorreia e tricomoníase, conforme a história sexual de cada uma.
Vaginose bacteriana é uma IST? Preciso tratar o parceiro?
A vaginose bacteriana não é uma IST clássica: não é causada por um único microrganismo adquirido no contato sexual, como acontece na clamídia ou na gonorreia, e mulheres que nunca tiveram relações sexuais também podem desenvolvê-la. Ela é, na origem, um desequilíbrio da própria microbiota vaginal.
Mas essa resposta ficou mais sofisticada nos últimos anos, e vale dizer por quê: as evidências mostram cada vez mais claramente que bactérias associadas à vaginose são trocadas entre parceiros sexuais — e o próprio sucesso do tratamento do casal reforçou essa hipótese. A formulação atual é intermediária: não é uma IST clássica, mas a atividade sexual e a troca de bactérias entre parceiros têm papel importante no desenvolvimento e, sobretudo, na recorrência.
Por outro lado, a VB tem clara associação com a atividade sexual: novos parceiros, múltiplos parceiros e o pH alcalino do sêmen favorecem o desequilíbrio. Por isso é descrita como "sexualmente associada", e não "sexualmente transmissível".
- Parceiro masculino: isso mudou recentemente. Durante anos o tratamento do parceiro não era recomendado. Em 2025, o ensaio StepUp, publicado no New England Journal of Medicine, foi interrompido antes do previsto porque tratar apenas a mulher se mostrou inferior a tratar o casal: acrescentar antibiótico oral e tópico para o parceiro reduziu de forma importante a recorrência. Na sequência, em outubro de 2025, o ACOG passou a recomendar, pela primeira vez, considerar o tratamento concomitante do parceiro sexual masculino em mulheres adultas com vaginose recorrente e sintomática — na prática, metronidazol oral associado a creme de clindamicina 2% aplicado na pele do pênis, os dois por 7 dias. Para parceiras do mesmo sexo e para um primeiro episódio, a orientação é decisão compartilhada.
- Parceira feminina: entre mulheres que fazem sexo com mulheres há alta concordância da microbiota, e na vaginose recorrente faz sentido discutir a avaliação e o eventual tratamento da parceira. Mas aqui a evidência é bem menos robusta: não existe um estudo equivalente ao StepUp definindo qual esquema usar. A orientação do ACOG é de decisão compartilhada, e não de tratar automaticamente.
- Preservativo: ajuda a reduzir as recorrências e protege contra as ISTs propriamente ditas, cuja aquisição a VB facilita.
💡 Então, resumindo: meu parceiro precisa tratar?
Num primeiro episódio, em geral não. O tratamento de rotina de toda parceria, depois de qualquer episódio de vaginose, continua não sendo recomendação universal.
Na vaginose recorrente e sintomática, hoje sim — considera-se. E há um detalhe importante que explica por que essa recomendação demorou tanto a aparecer: quando se olha o conjunto dos estudos, tratar o parceiro só com comprimido não reduziu a recorrência. O que funcionou foi justamente a combinação de antibiótico oral e creme aplicado na pele do pênis, usada no StepUp. Ou seja: não é "tratar o parceiro" de qualquer jeito — é um esquema específico.
Como a mudança é recente, é possível que você encontre orientações diferentes, inclusive em protocolos ainda não atualizados. Vale conversar com quem está acompanhando o caso.
Vaginose bacteriana recorrente
Define-se como 3 ou mais episódios em 12 meses. Ocorre em cerca de metade das mulheres tratadas. Não há um único mecanismo por trás disso — vários fatores parecem se somar:
- Biofilme polimicrobiano que persiste aderido à parede vaginal e sobrevive ao antibiótico
- Dificuldade de restabelecer uma microbiota dominada por lactobacilos depois do tratamento
- Suscetibilidade variável das bactérias envolvidas ao antibiótico usado
- Reintrodução de bactérias pela parceria sexual — a hipótese que mais ganhou força desde 2025
Depois de uma primeira recorrência, pode-se repetir o mesmo esquema ou usar outro dos regimes recomendados. Quando os episódios se repetem muitas vezes, existem estratégias adicionais:
- Supressão com metronidazol gel 0,75% vaginal 2x/semana por 4 a 6 meses, depois do tratamento inicial — a estratégia de manutenção mais estabelecida
- Esquema sequencial: antibiótico oral por 7 dias, seguido de ácido bórico vaginal 600 mg/noite por 21 dias e, na sequência, metronidazol gel 2x/semana por 4 a 6 meses. É um esquema para casos selecionados de múltiplas recorrências, prescrito e acompanhado
- Tratamento concomitante do parceiro, na vaginose recorrente e sintomática (ver a seção acima)
- Avaliação da parceira, em mulheres que fazem sexo com mulheres, dentro de uma decisão compartilhada
Probióticos funcionam?
Essa é uma pergunta honesta que merece uma resposta honesta: a evidência é promissora, mas ainda inconsistente. Existem estudos positivos, e faz todo sentido biológico repor lactobacilos depois de um tratamento que zerou a microbiota. O problema é que os estudos usam espécies, cepas, doses, vias e durações completamente diferentes — e revisões recentes chegam a apontar cepas distintas como a melhor opção. Não existe, hoje, um "probiótico padrão" com recomendação firme para todas as mulheres.
Um exemplo ajuda a entender a nuance: um produto específico à base de Lactobacillus crispatus reduziu a recorrência em ensaio clínico — mas esse resultado não pode ser transferido automaticamente para qualquer probiótico de farmácia, que provavelmente contém outras cepas em outra dose. Probióticos são complemento, nunca substituto do antibiótico.
Vaginose bacteriana na gravidez
A VB na gestação está associada a riscos obstétricos significativos. Para mais detalhes sobre o acompanhamento durante a gestação, veja os artigos sobre pré-natal e gravidez de alto risco:
- Parto prematuro — associação bem documentada, embora a magnitude do risco varie bastante conforme o momento do diagnóstico, os sintomas, a população estudada e a história obstétrica
- Rotura prematura de membranas (RPM)
- Corioamnionite e endometrite puerperal
- Baixo peso ao nascer
Vale a leitura correta desses dados: associação não quer dizer que toda gestante com vaginose terá essas complicações — a maioria não terá.
Gestante com sintomas: tratar
Este ponto é direto e não tem controvérsia: toda gestante com vaginose sintomática deve ser tratada, em qualquer trimestre.
- Metronidazol 500 mg VO 2x/dia por 7 dias — o esquema preferido na gestação
- Clindamicina 300 mg VO 2x/dia por 7 dias — alternativa
- Metronidazol vaginal também pode ser usado em situações selecionadas. O antigo receio de usá-lo no primeiro trimestre não corresponde à orientação atual: o metronidazol é considerado de baixo risco na gestação, e não há restrição por trimestre — embora várias recomendações brasileiras prefiram a via oral por 7 dias
- Tinidazol não é a opção usada na gestação
E rastrear a gestante sem sintomas?
Aqui a resposta é mais matizada do que se costuma dizer:
- Gestante assintomática sem risco aumentado: o rastreamento não é recomendado — não traz benefício em prevenir prematuridade
- Gestante assintomática com risco aumentado, inclusive com parto prematuro anterior: ao contrário do que muito material afirma, não existe recomendação firme de rastrear. As revisões internacionais classificam a evidência como insuficiente para recomendar a favor ou contra, porque os estudos nessa população deram resultados conflitantes. Na prática brasileira, alguns serviços consideram a pesquisa em casos selecionados de alto risco — mas isso é uma decisão individualizada, e não uma regra
⚠️ Quando Consultar um Ginecologista por Vaginose
- Vulvovaginite recorrente com sintomas que não melhoram com tratamento convencional
- Corrimento com odor forte (característico de peixe), especialmente após relação sexual
- Recorrência frequente (3 ou mais vezes em 12 meses)
- Gestante com corrimento anormal — procurar avaliação, sobretudo com odor forte, irritação ou recorrência. Avaliação imediata fica reservada para febre, dor importante, sangramento, perda de líquido, contrações ou redução dos movimentos do bebê
- Ausência de melhora após tratamento correto
- Sintomas associados a dor pélvica — descartar DIP
- O diagnóstico de VB — inclusive no primeiro episódio — é uma boa ocasião para atualizar a testagem de IST: HIV, sífilis, clamídia, gonorreia e tricomoníase
Prevenção e cuidados para reduzir recorrências
- Evitar duchas vaginais — destroem a microbiota protetora
- Usar preservativo — reduz risco de VB recorrente em parceiras múltiplas
- Não usar antissépticos nem produtos perfumados dentro da vagina — a vagina não precisa ser lavada por dentro; a higiene é externa e suave
- Completar o tratamento até o fim, mesmo que os sintomas melhorem antes
- Na vaginose recorrente, discutir o manejo da parceria sexual e as estratégias de supressão
- Probióticos com lactobacilos podem ser usados como complemento após o tratamento — com a ressalva, explicada acima, de que a evidência ainda é heterogênea
- Géis acidificantes vêm sendo estudados para prevenir recorrências, com resultados promissores — mas ainda não substituem as estratégias recomendadas em diretriz. Ácido bórico não entra aqui: ele é tratamento para casos selecionados de recorrência, com prescrição, e não um produto de manutenção
💬 Da prática clínica
A vaginose é uma das causas mais comuns de corrimento com odor — e não é uma IST. Explico que vem de um desequilíbrio da flora vaginal, não de falta de higiene (lavar demais até piora). Tem tratamento, mas pode recorrer, então às vezes ajustamos a abordagem. — Dra. Gabriella Dourado
Perguntas Frequentes
Meu parceiro precisa tratar a vaginose bacteriana?
Depende de qual situação. Num primeiro episódio, em geral não — o tratamento de rotina de toda parceria não é recomendação universal. Já na vaginose recorrente e sintomática a orientação mudou: desde 2025 recomenda-se considerar o tratamento simultâneo do parceiro masculino. E há um detalhe que explica por que essa recomendação demorou tanto: quando se olha o conjunto dos estudos, tratar o parceiro apenas com comprimido não reduziu a recorrência. O que funcionou foi a combinação de antibiótico oral com creme aplicado na pele do pênis, por sete dias — um esquema específico, e não "tratar o parceiro" de qualquer forma.
Meu parceiro pode estar me reinfectando?
Essa hipótese ganhou muita força recentemente. A vaginose não é uma IST clássica, mas as bactérias associadas a ela podem ser trocadas entre parceiros, e a reintrodução dessas bactérias parece explicar parte das recorrências — foi justamente o sucesso do tratamento do casal que reforçou essa ideia. Se você tem episódios que voltam sempre, vale levar essa conversa ao consultório: na vaginose recorrente e sintomática, o tratamento simultâneo do parceiro masculino é hoje uma opção a considerar.
Meu exame deu Gardnerella positiva. Preciso tratar?
Não necessariamente. Encontrar Gardnerella vaginalis não é o mesmo que ter vaginose bacteriana: essa bactéria também está presente em muitas mulheres saudáveis, sem doença nenhuma. O que caracteriza a vaginose é o desequilíbrio do conjunto — queda dos lactobacilos com aumento de várias bactérias anaeróbias —, avaliado pelos critérios clínicos, pelo escore de Nugent ou por testes moleculares que analisam a microbiota como um todo. Um PCR positivo isolado para Gardnerella, em mulher sem sintomas, não é indicação de antibiótico.
Ácido bórico trata vaginose? Pode usar na gravidez?
O ácido bórico vaginal tem um lugar no tratamento, mas um lugar bem específico: casos de vaginose que recorre muitas vezes, dentro de um esquema sequencial — antibiótico oral por sete dias, depois ácido bórico 600 mg por noite durante 21 dias e, na sequência, metronidazol gel duas vezes por semana durante 4 a 6 meses. É um uso fora de bula, com prescrição e acompanhamento. Não é um produto de manutenção nem algo para usar por conta própria, é tóxico se ingerido, e deve ser evitado na gestação, porque os dados de segurança são insuficientes.
Já tive parto prematuro. Preciso pesquisar vaginose nesta gravidez?
Não existe uma recomendação firme nesse sentido, ao contrário do que muito material afirma. Para gestantes assintomáticas sem risco aumentado, o rastreamento não é recomendado. Para gestantes assintomáticas com risco aumentado — incluindo quem já teve parto prematuro —, as revisões internacionais classificam a evidência como insuficiente para recomendar a favor ou contra, porque os estudos nessa população deram resultados conflitantes. Na prática, alguns serviços consideram a pesquisa em casos selecionados, como decisão individualizada. O que não tem controvérsia é o outro lado: gestante com sintomas deve ser tratada, em qualquer trimestre.
Vaginose bacteriana é uma IST (doença sexualmente transmissível)?
Não é uma IST clássica: não existe um único microrganismo transmitido no sexo, e mulheres que nunca tiveram relações também podem desenvolver vaginose. Mas a resposta ficou mais sofisticada nos últimos anos — há evidência crescente de que bactérias associadas à vaginose são trocadas entre parceiros, e isso pesa bastante na recorrência. Na prática: num primeiro episódio, o tratamento da parceria em geral não é indicado; na vaginose recorrente e sintomática, desde 2025 recomenda-se considerar o tratamento simultâneo do parceiro masculino. Para parceiras do mesmo sexo, a orientação é de decisão compartilhada.
Vaginose bacteriana volta sempre?
A recorrência é muito comum — cerca de metade das mulheres tem um novo episódio em até 12 meses. E não há uma causa única: pesa o biofilme polimicrobiano que fica aderido à parede vaginal e sobrevive ao antibiótico, a dificuldade de os lactobacilos voltarem a dominar, a suscetibilidade variável das bactérias e, com força crescente desde 2025, a reintrodução de bactérias pela parceria sexual. As estratégias que ajudam incluem a supressão com gel de metronidazol por alguns meses e, na vaginose recorrente e sintomática, o tratamento do parceiro.
Como saber se o corrimento é vaginose ou candidíase?
O corrimento da vaginose é tipicamente cinza-esbranquiçado, fluido e com odor forte de peixe, sobretudo após a relação sexual; o da candidíase é branco e espesso, sem odor, com coceira intensa. Mas a aparência ajuda e não decide: há muita sobreposição entre as causas, e infecções mistas existem. O diagnóstico é feito pelos critérios clínicos com pH e microscopia, pelo escore de Nugent ou, em situações selecionadas, por testes moleculares.
Posso tomar metronidazol durante a gravidez?
Sim. O metronidazol é considerado de baixo risco na gestação, inclusive no primeiro trimestre, e é o antibiótico preferido para tratar a vaginose na gravidez — em geral 500 mg de 12 em 12 horas por 7 dias. Gestante com vaginose sintomática deve ser tratada em qualquer trimestre. Uma observação: o tinidazol, que aparece como alternativa fora da gestação, não é a opção usada na gravidez.
Ducha vaginal ajuda a tratar ou prevenir a vaginose?
Não — pelo contrário. A ducha vaginal elimina os lactobacilos protetores e eleva o pH vaginal, criando exatamente o ambiente que favorece a vaginose bacteriana. É uma prática que deve ser evitada; a limpeza da área interna da vagina não é necessária e prejudica o equilíbrio natural da microbiota.
O que são os probióticos vaginais e eles realmente funcionam?
A resposta honesta é: talvez, e ainda não se sabe qual. Faz sentido biológico repor lactobacilos depois de um tratamento que zerou a microbiota, e há estudos com resultados positivos. Mas a evidência é heterogênea — os estudos usam espécies, cepas, doses, vias e durações diferentes, e revisões recentes chegam a apontar cepas distintas como a melhor escolha. Não existe hoje um "probiótico padrão" recomendado para todas. Um produto específico à base de Lactobacillus crispatus reduziu recorrências em ensaio clínico, mas esse resultado não se transfere automaticamente para qualquer probiótico de farmácia. Em todo caso, são complemento — nunca substituto do antibiótico.
Preciso evitar álcool enquanto tomo metronidazol?
A orientação clássica é sim — evitar durante o tratamento e por 24 a 48 horas depois —, e ela continua nas bulas e nos protocolos brasileiros, então vale seguir a sua prescrição. Mas há uma atualização importante: revisões modernas não encontraram evidência convincente da clássica reação tipo dissulfiram, porque o metronidazol não bloqueia a enzima aldeído-desidrogenase do mesmo modo que o dissulfiram. O CDC já não considera necessário evitar álcool por esse mecanismo. Na prática: siga a orientação da prescrição, mas se uma taça escapou, isso não é motivo para pânico nem para interromper o tratamento.
O cheiro de peixe que piora depois da relação sexual tem explicação?
Sim. O sêmen tem pH alcalino, e quando entra em contato com a secreção vaginal na vaginose bacteriana, ocorre uma reação química que libera aminas voláteis — as responsáveis pelo odor característico. Esse agravamento do odor após a relação sexual é, inclusive, um dos sinais clínicos que ajuda a identificar a vaginose.
Corrimento com odor? Não ignore.
A vaginose bacteriana tem diagnóstico preciso e tratamento eficaz. A Dra. Gabriella Dourado avalia o corrimento vaginal com exame clínico e laboratorial, identificando a causa exata e indicando o tratamento correto para eliminar e prevenir recorrências.
Agendar consulta com a Dra. Gabriella Dourado →Conteúdo informativo. Este artigo não substitui a consulta médica. Para avaliação individualizada, procure um ginecologista de sua confiança.
Referências: Vodstrcil e cols. — “Male-Partner Treatment to Prevent Recurrence of Bacterial Vaginosis” (StepUp Trial), New England Journal of Medicine, 2025; American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG) — atualização de outubro de 2025 sobre tratamento da parceria na vaginose recorrente; revisão sistemática com meta-análise de ensaios randomizados sobre tratamento do parceiro masculino, que não encontrou redução da recorrência com a monoterapia oral, tendo o StepUp como exceção por combinar tratamento oral e tópico; Centers for Disease Control and Prevention (CDC) — “Sexually Transmitted Infections Treatment Guidelines”, para os esquemas recomendados, o esquema sequencial com ácido bórico e a revisão da interação entre metronidazol e álcool; Organização Mundial da Saúde (OMS) — diretriz de 2024 para o tratamento da vaginose bacteriana; US Preventive Services Task Force — “Screening for Bacterial Vaginosis in Pregnant Persons to Prevent Preterm Delivery”, que classifica como insuficiente a evidência para rastrear gestantes assintomáticas de risco aumentado; FEBRASGO; IUSTI.