Ginecologia

Vaginose Bacteriana: diagnóstico, tratamento e como prevenir recorrências

📅 Atualizado em maio de 2026 ⏱ Leitura: 9 minutos 👩‍⚕️ Revisado por especialista em ginecologia

A vaginose bacteriana (VB) é a causa mais comum de corrimento vaginal anormal em mulheres em idade reprodutiva — responsável por 40–50% dos casos. Não é uma infecção clássica, mas sim uma disbiose da microbiota vaginal: os Lactobacillus protetores são substituídos por uma comunidade polimicrobiana de anaeróbios. O diagnóstico correto é essencial, pois a VB aumenta o risco de complicações obstétricas e facilita a aquisição de ISTs.

📋 Pontos-chave sobre Vaginose Bacteriana

  • Prevalência: 15–30% das mulheres em idade reprodutiva; 10–30% das gestantes
  • Diagnóstico clínico: Critérios de Amsel — 3 dos 4 critérios presentes
  • Diagnóstico laboratorial: Escore de Nugent ≥7 no esfregaço corado por Gram
  • Tratamento principal: metronidazol 500 mg VO 2x/dia por 7 dias (ou gel vaginal)
  • Recorrência: muito frequente — 50% recorrem em 12 meses
  • Na gravidez: risco aumentado de parto prematuro, rotura prematura de membranas e corioamnionite

Principais sintomas da vaginose bacteriana

A vaginose bacteriana costuma se manifestar de forma discreta — muitas mulheres têm sintomas leves ou nem chegam a percebê-los. Quando presentes, os mais característicos são:

  • Corrimento fino e acinzentado — branco-acinzentado, homogêneo, que adere às paredes da vagina
  • Odor de "peixe" — que piora após a relação sexual e durante a menstruação
  • Pouca ou nenhuma coceira — ao contrário da candidíase
  • Ausência de inflamação importante — sem vermelhidão ou inchaço expressivos (por isso o nome "vaginose", e não "vaginite")
  • Em geral sem ardência ou dor ao urinar ou na relação

Diagnóstico diferencial: vaginose, candidíase e tricomoníase

O corrimento vaginal pode ter várias origens. A tabela abaixo compara as três principais causas infecciosas para facilitar o diagnóstico diferencial:

Característica Vaginose Bacteriana Candidíase Tricomoníase
Corrimento Cinza-esbranquiçado, fluido, homogêneo Branco, grumoso ("queijo cottage") Amarelo-esverdeado, espumoso
Odor "Peixe" — piora após sexo Sem odor característico Fétido
pH vaginal >4,5 <4,5 (normal) >4,5
Coceira Leve ou ausente Intensa Moderada
Agente Gardnerella + anaeróbios Candida albicans Trichomonas vaginalis
Tratamento Metronidazol Fluconazol / antifúngico vaginal Metronidazol (casal)

Microbiota vaginal normal e a disbiose

A vagina saudável em mulheres em idade reprodutiva é colonizada predominantemente por Lactobacillus spp. — especialmente L. crispatus, L. iners, L. jensenii e L. gasseri. Esses lactobacilos produzem:

  • Ácido láctico: mantém o pH vaginal entre 3,8 e 4,5 — inóspito para patógenos
  • Peróxido de hidrogênio (H₂O₂): atividade bactericida direta
  • Bacteriocinas: peptídeos antimicrobianos
  • Biossurfactantes: impedem a adesão de patógenos ao epitélio vaginal

Na vaginose bacteriana, os Lactobacillus são substituídos por uma flora polimicrobiana dominada por Gardnerella vaginalis, Prevotella spp., Mobiluncus spp., Fusobacterium, Peptostreptococcus e outras bactérias anaeróbias. A G. vaginalis inicia o processo formando um biofilme na parede vaginal — esse biofilme é a principal razão para a alta taxa de recorrência.

Corrimento ou odor que não passam?

O diagnóstico correto é fundamental para diferenciar a vaginose bacteriana da candidíase e de outras causas de corrimento — e definir o tratamento certo. A Dra. Gabriella Dourado, ginecologista e obstetra em São Paulo, avalia com exame clínico e laboratorial.

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Critérios de Amsel para diagnóstico clínico

O diagnóstico clínico padrão de vaginose bacteriana é feito pelos Critérios de Amsel — presença de 3 dos 4 critérios a seguir:

Os 4 Critérios de Amsel

Critério Descrição
1. Corrimento homogêneoFluido acinzentado ou branco-acinzentado, fino, aderente às paredes vaginais
2. pH vaginal >4,5Medido com papel indicador de pH diretamente na parede vaginal lateral
3. Clue cellsCélulas epiteliais vaginais recobertas por bactérias — bordas obscurecidas; >20% das células no microscópio
4. Whiff test positivoOdor de peixe após adição de KOH 10% ao corrimento — aminas voláteis liberadas pelos anaeróbios

Escore de Nugent

O escore de Nugent é o padrão laboratorial para diagnóstico — realizado pela coloração de Gram do esfregaço vaginal. Pontua morfotipos bacterianos de 0 a 10:

  • 0–3: flora normal (predominância de Lactobacillus)
  • 4–6: flora intermediária
  • 7–10: vaginose bacteriana diagnosticada

Tratamento da vaginose bacteriana

Regimes de primeira linha

  • Metronidazol 500 mg VO 2x/dia por 7 dias: eficácia de 70–80%; preferido para cure completa
  • Gel de metronidazol 0,75% vaginal: 5 g (aplicador cheio) intravaginal 1x/noite por 5 noites — menor absorção sistêmica, menos efeitos GI
  • Tinidazol 2 g VO dose única: alternativa em dose única — menor adesão a regimes mais longos
  • Tinidazol 1 g VO 1x/dia por 5 dias: boa eficácia, boa tolerância
  • Creme de clindamicina 2% vaginal: 5 g intravaginal por 7 noites — alternativa para intolerância ao metronidazol
  • Clindamicina 300 mg VO 2x/dia por 7 dias: alternativa oral

Importante: evitar bebidas alcoólicas durante uso de metronidazol e por 24–48h após o término (reação antabuse-like). O tratamento do parceiro sexual não é recomendado rotineiramente — VB não é considerada IST clássica.

Vaginose bacteriana é uma IST? Preciso tratar o parceiro?

Não — a vaginose bacteriana não é uma IST (infecção sexualmente transmissível) clássica. Ela resulta de um desequilíbrio da própria microbiota vaginal (disbiose), e não da transmissão de um agente por contato sexual. Inclusive, mulheres que nunca tiveram relações sexuais também podem desenvolvê-la.

Por outro lado, a VB tem clara associação com a atividade sexual: novos parceiros, múltiplos parceiros e o pH alcalino do sêmen favorecem o desequilíbrio. Por isso é descrita como "sexualmente associada", e não "sexualmente transmissível".

  • Parceiro masculino: pelas diretrizes atuais, o tratamento de rotina ainda não é recomendado. No entanto, estudos recentes têm mudado essa visão: um ensaio clínico randomizado de 2024 (publicado no New England Journal of Medicine) mostrou que tratar o parceiro masculino — com antibiótico oral associado a um tópico — reduziu significativamente a recorrência da vaginose na mulher. É uma evidência promissora que pode vir a alterar as recomendações nos próximos anos.
  • Parceira feminina: entre mulheres que fazem sexo com mulheres há alta concordância da microbiota — avaliar e tratar a parceira pode ser indicado, sobretudo na vaginose recorrente.
  • Preservativo: ajuda a reduzir as recorrências e protege contra ISTs verdadeiras, cuja aquisição a VB facilita.

Vaginose bacteriana recorrente

Define-se como 3 ou mais episódios em 12 meses. Ocorre em 50% das mulheres tratadas. Mecanismo principal: o biofilme de G. vaginalis persiste e recoloniza a vagina após o tratamento.

Estratégias de supressão para recorrência:

  • Metronidazol gel 0,75% vaginal 2x/semana por 4–6 meses (após tratamento inicial)
  • Ácido bórico intravaginal 600 mg/noite por 21 dias + borate supressivo
  • Probióticos vaginais/orais com L. rhamnosus GR-1 e L. reuteri RC-14 — evidência crescente para redução de recorrências
  • Investigar e tratar parceiras femininas (transmissão entre mulheres que fazem sexo com mulheres)

Vaginose bacteriana na gravidez

A VB na gestação está associada a riscos obstétricos significativos. Para mais detalhes sobre o acompanhamento durante a gestação, veja os artigos sobre pré-natal e gravidez de alto risco:

  • Parto prematuro: risco aumentado em 2–4x — especialmente se detectada no 1º/2º trimestre
  • Rotura prematura de membranas (RPM): as enzimas bacterianas degradam as membranas amnióticas
  • Corioamnionite e endometrite puerperal
  • Baixo peso ao nascer

Triagem universal não é recomendada atualmente, mas mulheres com história de parto prematuro anterior devem ser rastreadas. Tratamento na gravidez:

  • Metronidazol 250 mg VO 3x/dia por 7 dias (seguro em todos os trimestres)
  • Clindamicina 300 mg VO 2x/dia por 7 dias (alternativa)
  • Gel vaginal de metronidazol pode ser usado no 2º e 3º trimestres

⚠️ Quando Consultar um Ginecologista por Vaginose

  • Vulvovaginite recorrente com sintomas que não melhoram com tratamento convencional
  • Corrimento com odor forte (característico de peixe), especialmente após relação sexual
  • Recorrência frequente (3 ou mais vezes em 12 meses)
  • Gestante com corrimento vaginal anormal — avaliar urgentemente
  • Ausência de melhora após tratamento correto
  • Sintomas associados a dor pélvica — descartar DIP
  • VB recorrente pode ser marcador de ISTs — rastrear gonorreia, clamídia, HIV

Prevenção e cuidados para reduzir recorrências

  • Evitar duchas vaginais — destroem a microbiota protetora
  • Usar preservativo — reduz risco de VB recorrente em parceiras múltiplas
  • Evitar sabonetes íntimos com pH alcalino ou antissépticos na região vaginal
  • Roupas íntimas de algodão — reduzem umidade e proliferação bacteriana
  • Probióticos com lactobacilos (vaginais ou orais) — uso adjunto após tratamento
  • Gel de ácido láctico ou ácido bórico intravaginal — manutenção do pH vaginal ácido

Perguntas Frequentes

Vaginose bacteriana é uma IST (doença sexualmente transmissível)?

Não, a vaginose bacteriana não é classificada como IST clássica. Ela resulta de um desequilíbrio da microbiota vaginal, não necessariamente de uma transmissão sexual. Por isso, o tratamento do parceiro sexual não é recomendado de rotina — embora em mulheres que fazem sexo com mulheres a investigação da parceira seja indicada.

Vaginose bacteriana volta sempre?

Infelizmente, a recorrência é muito comum — cerca de 50% das mulheres têm um novo episódio em até 12 meses após o tratamento. Isso ocorre porque a bactéria Gardnerella vaginalis forma um biofilme nas paredes vaginais que persiste mesmo após os antibióticos. Estratégias de supressão com gel de metronidazol e probióticos podem ajudar a reduzir as recaídas.

Como saber se o corrimento é vaginose ou candidíase?

O corrimento da vaginose é tipicamente cinza-esbranquiçado, fluido e com odor forte de peixe, especialmente após a relação sexual. Já a candidíase tem corrimento branco espesso (tipo ricota), sem odor, com coceira intensa. Apenas o exame ginecológico com análise do pH e microscopia confirma o diagnóstico correto.

Posso tomar metronidazol durante a gravidez?

Sim. O metronidazol é considerado seguro em todos os trimestres da gestação e é o antibiótico recomendado para tratar vaginose bacteriana na gravidez. O tratamento é importante porque a vaginose não tratada aumenta o risco de parto prematuro e rotura prematura de membranas.

Ducha vaginal ajuda a tratar ou prevenir a vaginose?

Não — pelo contrário. A ducha vaginal elimina os lactobacilos protetores e eleva o pH vaginal, criando exatamente o ambiente que favorece a vaginose bacteriana. É uma prática que deve ser evitada; a limpeza da área interna da vagina não é necessária e prejudica o equilíbrio natural da microbiota.

O que são os probióticos vaginais e eles realmente funcionam?

Probióticos com Lactobacillus rhamnosus GR-1 e L. reuteri RC-14 — usados por via oral ou vaginal — têm evidências crescentes de ajudar a restaurar a microbiota vaginal e reduzir recorrências de vaginose. Eles são usados como complemento ao tratamento antibiótico, não como substitutos.

Preciso evitar álcool enquanto tomo metronidazol?

Sim. O metronidazol pode causar uma reação desagradável com o álcool — rubor, náuseas, palpitações e mal-estar geral (reação tipo antabuse). Recomenda-se evitar bebidas alcoólicas durante o tratamento e por pelo menos 24 a 48 horas após a última dose.

O cheiro de peixe que piora depois da relação sexual tem explicação?

Sim. O sêmen tem pH alcalino, e quando entra em contato com a secreção vaginal na vaginose bacteriana, ocorre uma reação química que libera aminas voláteis — as responsáveis pelo odor característico. Esse agravamento do odor após a relação sexual é, inclusive, um dos sinais clínicos que ajuda a identificar a vaginose.

Corrimento com odor? Não ignore.

A vaginose bacteriana tem diagnóstico preciso e tratamento eficaz. A Dra. Gabriella Dourado avalia o corrimento vaginal com exame clínico e laboratorial, identificando a causa exata e indicando o tratamento correto para eliminar e prevenir recorrências.

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Conteúdo informativo. Este artigo não substitui a consulta médica. Para avaliação individualizada, procure um ginecologista de sua confiança.

Referências: FEBRASGO, Centers for Disease Control and Prevention (CDC), International Urogynecological Association (IUGA), World Health Organization (WHO), European Society for Sexually Transmitted Infections (IUSTI).