A vaginose bacteriana (VB) é a causa mais comum de corrimento vaginal anormal em mulheres em idade reprodutiva — responsável por 40–50% dos casos. Não é uma infecção clássica, mas sim uma disbiose da microbiota vaginal: os Lactobacillus protetores são substituídos por uma comunidade polimicrobiana de anaeróbios. O diagnóstico correto é essencial, pois a VB aumenta o risco de complicações obstétricas e facilita a aquisição de ISTs.
📋 Pontos-chave sobre Vaginose Bacteriana
- Prevalência: 15–30% das mulheres em idade reprodutiva; 10–30% das gestantes
- Diagnóstico clínico: Critérios de Amsel — 3 dos 4 critérios presentes
- Diagnóstico laboratorial: Escore de Nugent ≥7 no esfregaço corado por Gram
- Tratamento principal: metronidazol 500 mg VO 2x/dia por 7 dias (ou gel vaginal)
- Recorrência: muito frequente — 50% recorrem em 12 meses
- Na gravidez: risco aumentado de parto prematuro, rotura prematura de membranas e corioamnionite
Principais sintomas da vaginose bacteriana
A vaginose bacteriana costuma se manifestar de forma discreta — muitas mulheres têm sintomas leves ou nem chegam a percebê-los. Quando presentes, os mais característicos são:
- Corrimento fino e acinzentado — branco-acinzentado, homogêneo, que adere às paredes da vagina
- Odor de "peixe" — que piora após a relação sexual e durante a menstruação
- Pouca ou nenhuma coceira — ao contrário da candidíase
- Ausência de inflamação importante — sem vermelhidão ou inchaço expressivos (por isso o nome "vaginose", e não "vaginite")
- Em geral sem ardência ou dor ao urinar ou na relação
Diagnóstico diferencial: vaginose, candidíase e tricomoníase
O corrimento vaginal pode ter várias origens. A tabela abaixo compara as três principais causas infecciosas para facilitar o diagnóstico diferencial:
| Característica | Vaginose Bacteriana | Candidíase | Tricomoníase |
|---|---|---|---|
| Corrimento | Cinza-esbranquiçado, fluido, homogêneo | Branco, grumoso ("queijo cottage") | Amarelo-esverdeado, espumoso |
| Odor | "Peixe" — piora após sexo | Sem odor característico | Fétido |
| pH vaginal | >4,5 | <4,5 (normal) | >4,5 |
| Coceira | Leve ou ausente | Intensa | Moderada |
| Agente | Gardnerella + anaeróbios | Candida albicans | Trichomonas vaginalis |
| Tratamento | Metronidazol | Fluconazol / antifúngico vaginal | Metronidazol (casal) |
Microbiota vaginal normal e a disbiose
A vagina saudável em mulheres em idade reprodutiva é colonizada predominantemente por Lactobacillus spp. — especialmente L. crispatus, L. iners, L. jensenii e L. gasseri. Esses lactobacilos produzem:
- Ácido láctico: mantém o pH vaginal entre 3,8 e 4,5 — inóspito para patógenos
- Peróxido de hidrogênio (H₂O₂): atividade bactericida direta
- Bacteriocinas: peptídeos antimicrobianos
- Biossurfactantes: impedem a adesão de patógenos ao epitélio vaginal
Na vaginose bacteriana, os Lactobacillus são substituídos por uma flora polimicrobiana dominada por Gardnerella vaginalis, Prevotella spp., Mobiluncus spp., Fusobacterium, Peptostreptococcus e outras bactérias anaeróbias. A G. vaginalis inicia o processo formando um biofilme na parede vaginal — esse biofilme é a principal razão para a alta taxa de recorrência.
Corrimento ou odor que não passam?
O diagnóstico correto é fundamental para diferenciar a vaginose bacteriana da candidíase e de outras causas de corrimento — e definir o tratamento certo. A Dra. Gabriella Dourado, ginecologista e obstetra em São Paulo, avalia com exame clínico e laboratorial.
Agendar consulta →Critérios de Amsel para diagnóstico clínico
O diagnóstico clínico padrão de vaginose bacteriana é feito pelos Critérios de Amsel — presença de 3 dos 4 critérios a seguir:
Os 4 Critérios de Amsel
| Critério | Descrição |
|---|---|
| 1. Corrimento homogêneo | Fluido acinzentado ou branco-acinzentado, fino, aderente às paredes vaginais |
| 2. pH vaginal >4,5 | Medido com papel indicador de pH diretamente na parede vaginal lateral |
| 3. Clue cells | Células epiteliais vaginais recobertas por bactérias — bordas obscurecidas; >20% das células no microscópio |
| 4. Whiff test positivo | Odor de peixe após adição de KOH 10% ao corrimento — aminas voláteis liberadas pelos anaeróbios |
Escore de Nugent
O escore de Nugent é o padrão laboratorial para diagnóstico — realizado pela coloração de Gram do esfregaço vaginal. Pontua morfotipos bacterianos de 0 a 10:
- 0–3: flora normal (predominância de Lactobacillus)
- 4–6: flora intermediária
- 7–10: vaginose bacteriana diagnosticada
Tratamento da vaginose bacteriana
Regimes de primeira linha
- Metronidazol 500 mg VO 2x/dia por 7 dias: eficácia de 70–80%; preferido para cure completa
- Gel de metronidazol 0,75% vaginal: 5 g (aplicador cheio) intravaginal 1x/noite por 5 noites — menor absorção sistêmica, menos efeitos GI
- Tinidazol 2 g VO dose única: alternativa em dose única — menor adesão a regimes mais longos
- Tinidazol 1 g VO 1x/dia por 5 dias: boa eficácia, boa tolerância
- Creme de clindamicina 2% vaginal: 5 g intravaginal por 7 noites — alternativa para intolerância ao metronidazol
- Clindamicina 300 mg VO 2x/dia por 7 dias: alternativa oral
Importante: evitar bebidas alcoólicas durante uso de metronidazol e por 24–48h após o término (reação antabuse-like). O tratamento do parceiro sexual não é recomendado rotineiramente — VB não é considerada IST clássica.
Vaginose bacteriana é uma IST? Preciso tratar o parceiro?
Não — a vaginose bacteriana não é uma IST (infecção sexualmente transmissível) clássica. Ela resulta de um desequilíbrio da própria microbiota vaginal (disbiose), e não da transmissão de um agente por contato sexual. Inclusive, mulheres que nunca tiveram relações sexuais também podem desenvolvê-la.
Por outro lado, a VB tem clara associação com a atividade sexual: novos parceiros, múltiplos parceiros e o pH alcalino do sêmen favorecem o desequilíbrio. Por isso é descrita como "sexualmente associada", e não "sexualmente transmissível".
- Parceiro masculino: pelas diretrizes atuais, o tratamento de rotina ainda não é recomendado. No entanto, estudos recentes têm mudado essa visão: um ensaio clínico randomizado de 2024 (publicado no New England Journal of Medicine) mostrou que tratar o parceiro masculino — com antibiótico oral associado a um tópico — reduziu significativamente a recorrência da vaginose na mulher. É uma evidência promissora que pode vir a alterar as recomendações nos próximos anos.
- Parceira feminina: entre mulheres que fazem sexo com mulheres há alta concordância da microbiota — avaliar e tratar a parceira pode ser indicado, sobretudo na vaginose recorrente.
- Preservativo: ajuda a reduzir as recorrências e protege contra ISTs verdadeiras, cuja aquisição a VB facilita.
Vaginose bacteriana recorrente
Define-se como 3 ou mais episódios em 12 meses. Ocorre em 50% das mulheres tratadas. Mecanismo principal: o biofilme de G. vaginalis persiste e recoloniza a vagina após o tratamento.
Estratégias de supressão para recorrência:
- Metronidazol gel 0,75% vaginal 2x/semana por 4–6 meses (após tratamento inicial)
- Ácido bórico intravaginal 600 mg/noite por 21 dias + borate supressivo
- Probióticos vaginais/orais com L. rhamnosus GR-1 e L. reuteri RC-14 — evidência crescente para redução de recorrências
- Investigar e tratar parceiras femininas (transmissão entre mulheres que fazem sexo com mulheres)
Vaginose bacteriana na gravidez
A VB na gestação está associada a riscos obstétricos significativos. Para mais detalhes sobre o acompanhamento durante a gestação, veja os artigos sobre pré-natal e gravidez de alto risco:
- Parto prematuro: risco aumentado em 2–4x — especialmente se detectada no 1º/2º trimestre
- Rotura prematura de membranas (RPM): as enzimas bacterianas degradam as membranas amnióticas
- Corioamnionite e endometrite puerperal
- Baixo peso ao nascer
Triagem universal não é recomendada atualmente, mas mulheres com história de parto prematuro anterior devem ser rastreadas. Tratamento na gravidez:
- Metronidazol 250 mg VO 3x/dia por 7 dias (seguro em todos os trimestres)
- Clindamicina 300 mg VO 2x/dia por 7 dias (alternativa)
- Gel vaginal de metronidazol pode ser usado no 2º e 3º trimestres
⚠️ Quando Consultar um Ginecologista por Vaginose
- Vulvovaginite recorrente com sintomas que não melhoram com tratamento convencional
- Corrimento com odor forte (característico de peixe), especialmente após relação sexual
- Recorrência frequente (3 ou mais vezes em 12 meses)
- Gestante com corrimento vaginal anormal — avaliar urgentemente
- Ausência de melhora após tratamento correto
- Sintomas associados a dor pélvica — descartar DIP
- VB recorrente pode ser marcador de ISTs — rastrear gonorreia, clamídia, HIV
Prevenção e cuidados para reduzir recorrências
- Evitar duchas vaginais — destroem a microbiota protetora
- Usar preservativo — reduz risco de VB recorrente em parceiras múltiplas
- Evitar sabonetes íntimos com pH alcalino ou antissépticos na região vaginal
- Roupas íntimas de algodão — reduzem umidade e proliferação bacteriana
- Probióticos com lactobacilos (vaginais ou orais) — uso adjunto após tratamento
- Gel de ácido láctico ou ácido bórico intravaginal — manutenção do pH vaginal ácido
Perguntas Frequentes
Vaginose bacteriana é uma IST (doença sexualmente transmissível)?
Não, a vaginose bacteriana não é classificada como IST clássica. Ela resulta de um desequilíbrio da microbiota vaginal, não necessariamente de uma transmissão sexual. Por isso, o tratamento do parceiro sexual não é recomendado de rotina — embora em mulheres que fazem sexo com mulheres a investigação da parceira seja indicada.
Vaginose bacteriana volta sempre?
Infelizmente, a recorrência é muito comum — cerca de 50% das mulheres têm um novo episódio em até 12 meses após o tratamento. Isso ocorre porque a bactéria Gardnerella vaginalis forma um biofilme nas paredes vaginais que persiste mesmo após os antibióticos. Estratégias de supressão com gel de metronidazol e probióticos podem ajudar a reduzir as recaídas.
Como saber se o corrimento é vaginose ou candidíase?
O corrimento da vaginose é tipicamente cinza-esbranquiçado, fluido e com odor forte de peixe, especialmente após a relação sexual. Já a candidíase tem corrimento branco espesso (tipo ricota), sem odor, com coceira intensa. Apenas o exame ginecológico com análise do pH e microscopia confirma o diagnóstico correto.
Posso tomar metronidazol durante a gravidez?
Sim. O metronidazol é considerado seguro em todos os trimestres da gestação e é o antibiótico recomendado para tratar vaginose bacteriana na gravidez. O tratamento é importante porque a vaginose não tratada aumenta o risco de parto prematuro e rotura prematura de membranas.
Ducha vaginal ajuda a tratar ou prevenir a vaginose?
Não — pelo contrário. A ducha vaginal elimina os lactobacilos protetores e eleva o pH vaginal, criando exatamente o ambiente que favorece a vaginose bacteriana. É uma prática que deve ser evitada; a limpeza da área interna da vagina não é necessária e prejudica o equilíbrio natural da microbiota.
O que são os probióticos vaginais e eles realmente funcionam?
Probióticos com Lactobacillus rhamnosus GR-1 e L. reuteri RC-14 — usados por via oral ou vaginal — têm evidências crescentes de ajudar a restaurar a microbiota vaginal e reduzir recorrências de vaginose. Eles são usados como complemento ao tratamento antibiótico, não como substitutos.
Preciso evitar álcool enquanto tomo metronidazol?
Sim. O metronidazol pode causar uma reação desagradável com o álcool — rubor, náuseas, palpitações e mal-estar geral (reação tipo antabuse). Recomenda-se evitar bebidas alcoólicas durante o tratamento e por pelo menos 24 a 48 horas após a última dose.
O cheiro de peixe que piora depois da relação sexual tem explicação?
Sim. O sêmen tem pH alcalino, e quando entra em contato com a secreção vaginal na vaginose bacteriana, ocorre uma reação química que libera aminas voláteis — as responsáveis pelo odor característico. Esse agravamento do odor após a relação sexual é, inclusive, um dos sinais clínicos que ajuda a identificar a vaginose.
Corrimento com odor? Não ignore.
A vaginose bacteriana tem diagnóstico preciso e tratamento eficaz. A Dra. Gabriella Dourado avalia o corrimento vaginal com exame clínico e laboratorial, identificando a causa exata e indicando o tratamento correto para eliminar e prevenir recorrências.
Agendar consulta com a Dra. Gabriella Dourado →Conteúdo informativo. Este artigo não substitui a consulta médica. Para avaliação individualizada, procure um ginecologista de sua confiança.
Referências: FEBRASGO, Centers for Disease Control and Prevention (CDC), International Urogynecological Association (IUGA), World Health Organization (WHO), European Society for Sexually Transmitted Infections (IUSTI).