Ginecologia

Infecções Ginecológicas: guia completo das principais condições

📅 Atualizado em agosto de 2026 ⏱ Leitura: 8 minutos 👩‍⚕️ Revisado por ginecologista especialista

Infecções ginecológicas afetam milhões de mulheres no Brasil a cada ano — e muitas delas passam completamente despercebidas. Da candidíase comum às infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) como clamídia, HPV e herpes, essas condições variam enormemente em causa, sintomas, transmissão e consequências. Conhecer o básico sobre cada uma é o primeiro passo para o diagnóstico precoce, o tratamento correto e a prevenção de complicações sérias, como infertilidade e câncer cervical.

📋 Infecções Ginecológicas — Dados Essenciais

  • Alta frequência: as infecções genitais e as ISTs têm alta frequência no Brasil e no mundo
  • Podem ser silenciosas: muitas ISTs — especialmente clamídia, gonorreia, HPV e fases do HIV — podem permanecer assintomáticas por meses ou anos
  • Sequelas evitáveis: diagnóstico e tratamento precoces previnem complicações como DIP, infertilidade tubária, gestação ectópica e transmissão vertical
  • Testagem nos momentos certos: a necessidade e a frequência dos exames dependem da idade, das práticas sexuais e das situações de exposição de cada mulher

Qual a diferença entre IST e infecção vaginal?

Muita gente confunde, mas são coisas diferentes — e a distinção orienta todo o resto:

  • Infecção vaginal (não é IST): resulta do desequilíbrio da própria flora da vagina ou de microrganismos que já vivem na região. Os exemplos clássicos são a candidíase (fungo) e a vaginose bacteriana. Não dependem de contato sexual — mulheres que nunca tiveram relações também podem tê-las.
  • IST (Infecção Sexualmente Transmissível): é transmitida principalmente pelo contato sexual, por um agente externo — como HPV, herpes, clamídia, gonorreia e sífilis.

Na prática, nem todo corrimento ou desconforto genital é uma IST — na maioria das vezes, não é. Apenas a avaliação médica e os exames diferenciam com segurança.

Infecções não sexualmente transmissíveis

Nem toda infecção genital é uma IST. As infecções mais comuns em mulheres têm origem no desequilíbrio da própria microbiota vaginal ou em bactérias do trato urinário, sem relação obrigatória com atividade sexual:

  • Candidíase vulvovaginal: geralmente causada pelo fungo Candida albicans, embora outras espécies também possam ocorrer; coceira intensa, corrimento grumoso branco; tratamento antifúngico. Ver artigo completo: Vulvovaginite
  • Vaginose bacteriana: uma disbiose (desequilíbrio) da microbiota vaginal, com redução dos lactobacilos e aumento de bactérias anaeróbias (incluindo Gardnerella vaginalis); odor de peixe, corrimento homogêneo; metronidazol. Ver artigo completo: Vaginose Bacteriana
  • Cistite / ITU: infecção urinária por E. coli; ardência ao urinar, polaciúria; antibioticoterapia dirigida. Ver artigo completo: Cistite e ITU

Infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) — visão geral

As ISTs são transmitidas principalmente por contato sexual (vaginal, anal ou oral) e algumas também por via sanguínea ou vertical (mãe-bebê). Um ponto importante é que muitas ISTs podem permanecer assintomáticas — o que retarda o diagnóstico e aumenta o risco de transmissão e complicações.

Principais ISTs — Resumo

IST Agente Sintomas principais Tratamento / Prevenção
HPV Papilomavírus humano Em geral assintomático. Tipos de baixo risco causam verrugas; a persistência de tipos de alto risco pode, ao longo de anos, gerar lesões precursoras e câncer (colo, vulva, vagina) Vacina HPV; rastreamento do colo (no Brasil, teste de DNA-HPV)
Herpes genital HSV-2 (principal), HSV-1 Vesículas e úlceras dolorosas na genitália; recorrente; sem cura Aciclovir / valaciclovir (controla surtos); preservativo reduz mas não elimina o risco
Clamídia Chlamydia trachomatis Geralmente assintomática; cervicite, corrimento, dor pélvica nos casos sintomáticos Doxiciclina 100 mg 2x/dia por 7 dias ou azitromicina 1 g dose única (a doxiciclina é preferida em adultos não gestantes; na gestação, azitromicina)
Gonorreia Neisseria gonorrhoeae Descarga purulenta, disúria; frequentemente assintomática em mulheres No Brasil, o PCDT do Ministério da Saúde recomenda ceftriaxona 500 mg IM + azitromicina 1 g VO; os esquemas variam conforme o país e a resistência antimicrobiana (crescente)
Sífilis Treponema pallidum Cancro indolor (1ª fase); lesões cutâneas (2ª fase); estágios avançados comprometem órgãos Penicilina benzatina; rastreio por teste treponêmico (inclusive teste rápido) + teste não treponêmico (VDRL) conforme algoritmo; grave risco em gestantes (sífilis congênita)
HIV Vírus da imunodeficiência humana Assintomático por anos; síndrome gripal aguda na infecção inicial; AIDS na fase avançada TARV (antiretroviral); rastreio universal no pré-natal; PrEP para prevenção
Hepatite B / C VHB / VHC Fadiga, icterícia (casos sintomáticos); maioria é assintomática — cronifica silenciosamente Vacina hepatite B (previne VHB); tratamento antiviral; transmissão vertical relevante

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Corrimento vaginal: quando é normal e quando é sinal de infecção?

Uma certa quantidade de corrimento é normal e fisiológica — claro ou esbranquiçado, sem odor forte e sem coceira, variando ao longo do ciclo. Ele passa a ser sinal de infecção quando muda de cor ou odor, ou vem acompanhado de coceira, ardência ou dor. A tabela abaixo ajuda a orientar (não substitui a avaliação médica):

Sintoma Possível causa
Corrimento branco e espesso ("leite coalhado"), com coceiraCandidíase
Corrimento acinzentado, fino, com odor de "peixe"Vaginose bacteriana
Corrimento amarelo-esverdeado, bolhoso, com odorTricomoníase
Feridas/úlceras ou vesículas dolorosasHerpes genital
Corrimento + dor pélvica e/ou febreDIP (sinal de alerta)

Diante de odor forte, cor amarelada/esverdeada, coceira intensa, sangramento ou dor, procure avaliação. Aprofunde no artigo dedicado ao corrimento vaginal.

Doença Inflamatória Pélvica (DIP) — sequela grave de ISTs não tratadas

A Doença Inflamatória Pélvica é uma das complicações mais sérias das ISTs — especialmente de clamídia e gonorreia não tratadas. Ocorre quando bactérias do trato genital inferior ascendem e infectam o útero, as trompas e os ovários.

  • Sintomas: dor pélvica (aguda ou crônica), leucorreia aumentada, febre, dor durante relação sexual
  • Diagnóstico: principalmente clínico, com limiar baixo — suspeita-se de DIP diante de dor pélvica/abdominal inferior em mulher com risco para IST, sobretudo com dor à mobilização do colo ou dor uterina/anexial. Exames (hemograma, PCR, ultrassom) e a própria detecção de clamídia/gonorreia ajudam, mas um ultrassom normal não exclui DIP (e cerca de metade dos casos não tem clamídia ou gonococo detectáveis — a DIP é polimicrobiana)
  • Tratamento: antibioticoterapia combinada — por exemplo ceftriaxona + doxiciclina + metronidazol, estes dois por 14 dias. Casos graves ou com abscesso tubo-ovariano podem exigir internação e antibióticos IV; a drenagem ou a cirurgia ficam para situações selecionadas (não são rotina de todo abscesso)

Sequelas da DIP não tratada adequadamente:

  • Infertilidade por obstrução tubária — cada episódio de DIP aumenta o risco
  • Dor pélvica crônica — impacto profundo na qualidade de vida
  • Gravidez ectópica — risco elevado após DIP (trompa lesada)
  • Aderências pélvicas

Infecção ginecológica pode causar infertilidade?

Pode — principalmente quando não tratada. O elo mais importante é a Doença Inflamatória Pélvica (DIP): ISTs como clamídia e gonorreia, muitas vezes silenciosas, ascendem e inflamam as trompas, podendo causar obstrução tubária — uma das principais causas de infertilidade e de gravidez ectópica. Pontos-chave:

  • Cada episódio de DIP aumenta o risco de infertilidade.
  • Como clamídia e gonorreia costumam ser assintomáticas, o rastreamento e o tratamento precoces são a melhor forma de proteger a fertilidade.
  • A candidíase não é causa de infertilidade. A vaginose bacteriana não é considerada uma causa direta estabelecida de infertilidade tubária, embora se associe a DIP e a alguns desfechos reprodutivos e obstétricos adversos.

Ureaplasma e Mycoplasma

Estes dois nomes costumam aparecer juntos, mas representam situações muito diferentes — e é importante não confundi-las.

Ureaplasma (e Mycoplasma hominis)

O Ureaplasma (espécies U. urealyticum e U. parvum) é frequentemente encontrado como colonizante do trato genital de pessoas saudáveis — ou seja, pode estar presente sem causar doença. Diretrizes internacionais (European STI Guidelines) não recomendam testar nem tratar de rotina o Ureaplasma, mesmo em mulheres com sintomas, apenas porque um exame de PCR o detectou. Não há evidência de que rastrear e erradicar o Ureaplasma melhore desfechos como infertilidade, resultados de FIV ou prematuridade — e o tratamento indiscriminado favorece resistência a antibióticos e a medicalização de uma colonização normal.

Mycoplasma genitalium

Já o Mycoplasma genitalium é uma IST verdadeira, associada a uretrite, cervicite e DIP (a pessoa pode ser assintomática, mas isso não faz dele "flora normal"). Ainda assim, também não se recomenda rastreamento universal em mulheres sem sintomas — a investigação é considerada sobretudo em cervicite ou uretrite persistente/recorrente e, em alguns protocolos, na DIP.

Sobre o tratamento: a resistência aos macrolídeos tornou-se um problema importante, e a azitromicina 1 g em dose única não deve ser usada isoladamente para o M. genitalium. O tratamento é individualizado conforme a síndrome clínica, a resistência local e o protocolo vigente — por isso deve ser conduzido pelo médico, não por conta própria. Veja o artigo completo sobre Ureaplasma e Mycoplasma.

Rastreio recomendado para infecções ginecológicas

A necessidade e a frequência dos testes dependem da idade, das práticas sexuais, de novas parcerias, do uso de preservativo, de IST prévia e da gestação. Não existe um "painel anual" único para toda mulher:

  • Clamídia e gonorreia: rastreio anual em mulheres sexualmente ativas com menos de 25 anos; acima dessa idade, na presença de risco aumentado (múltiplas parcerias, nova parceria, parceiro com IST)
  • HIV: rastreio universal no pré-natal; nas demais situações, conforme exposição e práticas sexuais
  • Sífilis: na gestação, testagem universal — no início do pré-natal, no 3º trimestre e no parto/abortamento —, usando teste treponêmico (inclusive teste rápido) + teste não treponêmico (VDRL) conforme o algoritmo; fora da gestação, conforme exposição
  • Hepatite B: HBsAg no pré-natal; vacinação se suscetível
  • Hepatite C: anti-HCV conforme fatores de risco (a transmissão parenteral costuma ter papel maior que a sexual)
  • HPV / câncer do colo: no Brasil, desde 2025 o método primário é o teste de DNA-HPV oncogênico, dos 25 aos 64 anos, repetido a cada 5 anos quando negativo (o Papanicolau permanece onde o teste molecular ainda não está disponível). Veja o artigo sobre HPV e o de Papanicolau/DNA-HPV

Prevenção de infecções ginecológicas e ISTs

  • Preservativo masculino ou feminino: é a melhor proteção disponível contra ISTs de transmissão sexual — use de forma consistente e correta
  • Vacinação: vacina HPV (idealmente antes do início da vida sexual, mas eficaz mesmo depois) e vacina hepatite B
  • PrEP (profilaxia pré-exposição ao HIV): para pessoas em situação de risco elevado — reduz o risco de aquisição sexual do HIV em cerca de 99% quando utilizada conforme prescrita
  • Testagem conforme o perfil: a frequência dos exames de IST depende da idade, das práticas sexuais e das situações de exposição — não é um painel fixo para todas
  • Avaliar as parcerias: quando indicado para a IST diagnosticada, as parcerias sexuais também devem ser avaliadas, testadas e/ou tratadas (isso vale para clamídia, gonorreia, sífilis e tricomoníase, por exemplo; para HPV e herpes, não se trata parceiro assintomático de rotina)
  • Higienizar brinquedos sexuais: não compartilhar sem higienização adequada ou sem trocar o preservativo usado sobre o objeto entre parcerias
⚠️ ISTs silenciosas: clamídia, gonorreia, HIV e sífilis podem estar presentes sem nenhum sintoma por meses ou anos. Como muitas ISTs podem ser assintomáticas, a testagem nos grupos e momentos recomendados permite diagnosticá-las precocemente, reduzir a transmissão e prevenir complicações como DIP, infertilidade tubária, transmissão vertical e — no caso do HPV oncogênico persistente — câncer do colo do útero.

💬 Da prática clínica

Boa parte das infecções ginecológicas é comum e tratável — mas o autodiagnóstico erra muito. Corrimento, coceira e odor têm causas diferentes (fungo, bactéria, IST), com tratamentos diferentes. Avaliar antes de se automedicar evita recidivas e resistência. — Dra. Gabriella Dourado

Perguntas Frequentes

Posso ter uma IST sem saber?

Sim — a maioria das infecções por clamídia e gonorreia em mulheres é assintomática, e o HIV pode ficar sem sintomas por anos. Por isso a testagem nos momentos e grupos recomendados (conforme a idade, as práticas sexuais e as exposições) é importante para quem tem vida sexual ativa.

Qual IST pode causar infertilidade?

A clamídia e a gonorreia são as principais causas de Doença Inflamatória Pélvica (DIP), que pode obstruir as trompas e levar à infertilidade. Como são frequentemente assintomáticas, o rastreio anual em mulheres com menos de 25 anos sexualmente ativas é recomendado.

Preservativo protege contra todas as ISTs?

O preservativo é altamente eficaz contra HIV, gonorreia e clamídia. Contra HSV e HPV, a proteção é parcial — ambos podem ser transmitidos por contato com pele não coberta pelo preservativo. Ainda assim, seu uso consistente reduz significativamente o risco geral.

Ureaplasma no exame sempre precisa de tratamento?

Não. O Ureaplasma pode colonizar a vagina de mulheres saudáveis sem causar doença, e diretrizes internacionais não recomendam testá-lo nem tratá-lo de rotina — nem mesmo por causa de infertilidade, FIV ou histórico de prematuridade, porque não há evidência de que erradicá-lo melhore esses desfechos. Situação diferente é o Mycoplasma genitalium, uma IST verdadeira, investigada e tratada em contextos específicos, sempre pelo médico.

É possível ter mais de uma infecção genital ao mesmo tempo?

Sim, coinfecções são comuns. Vaginose bacteriana, por exemplo, aumenta o risco de contrair outras ISTs ao elevar o pH vaginal e alterar a microbiota de proteção. Clamídia e gonorreia frequentemente coexistem. O diagnóstico laboratorial é necessário para identificar e tratar todas as infecções presentes.

Quando devo ir ao ginecologista mesmo sem sintomas?

A consulta preventiva é periódica, conforme a idade e as necessidades individuais. O rastreamento do câncer do colo, no Brasil, é feito hoje pelo teste de DNA-HPV (dos 25 aos 64 anos, a cada 5 anos quando negativo). O rastreio de clamídia/gonorreia é anual se você tiver menos de 25 anos e vida sexual ativa; e a avaliação é mais frequente diante de novas parcerias ou parceiro com IST conhecida.

Cuide da sua saúde ginecológica com rastreio regular

A prevenção e o diagnóstico precoce de infecções ginecológicas protegem sua fertilidade, sua saúde e sua qualidade de vida. A Dra. Gabriella Dourado realiza avaliação completa, solicitação dos exames adequados ao seu perfil e orientação individualizada sobre prevenção de ISTs.

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Conteúdo informativo. Este artigo não substitui a consulta médica. Para avaliação individualizada, procure um ginecologista de sua confiança.

Referências: Ministério da Saúde — PCDT para Atenção Integral às Pessoas com IST (esquema de gonorreia, sífilis na gestação); Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer do Colo do Útero (Portaria SAES/SECTICS nº 13/2025, INCA); CDC — Sexually Transmitted Infections Treatment Guidelines (incluindo Mycoplasma genitalium); European STI Guidelines Editorial Board — posição sobre Ureaplasma/Mycoplasma; OMS; FEBRASGO.