Coceira, ardência, corrimento com odor alterado e desconforto nas relações estão entre os motivos mais frequentes de consulta ginecológica, em todas as idades. Coceira, ardência, corrimento com odor alterado e desconforto durante as relações sexuais são queixas que afetam a qualidade de vida de forma significativa. O ponto mais importante: o diagnóstico correto é essencial, pois candidíase, vaginose bacteriana e tricomoníase têm causas completamente diferentes e exigem tratamentos distintos. Automedicar-se com o remédio errado pode piorar o quadro.
📋 Vulvovaginite — Dados Essenciais
- Queixa muito frequente: corrimento, coceira e ardência estão entre os motivos mais comuns de consulta ginecológica
- Candidíase: 75% das mulheres terão pelo menos um episódio ao longo da vida
- Vaginose bacteriana: é a causa infecciosa mais prevalente de corrimento vaginal alterado
- Diagnóstico correto é essencial: cada causa tem tratamento específico — usar o medicamento errado não resolve e pode agravar
- Nem sempre é infecção: quando os exames dão negativos e os tratamentos não funcionam, a resposta costuma estar em causas dermatológicas, hormonais ou dolorosas — e não em repetir antifúngico
O que é vulvovaginite?
Vulvovaginite é um termo amplo que descreve a inflamação da vulva e/ou da vagina. Mas vale um ajuste de conceito logo de início, porque ele organiza tudo o que vem depois: nem todo sintoma vulvovaginal vem de uma inflamação. A vaginose bacteriana, por exemplo, é uma disbiose — um desequilíbrio da microbiota, em geral com pouca resposta inflamatória. É exatamente por isso que ela se chama vaginose, e não vaginite.
Na prática, portanto, é mais útil pensar nas diferentes causas de sintomas e corrimento vulvovaginal do que em um único diagnóstico. Elas podem ser:
- Infecciosa: a mais comum — fungos (candidíase) ou protozoários (tricomoníase). A vaginose bacteriana entra aqui pelos sintomas, mas é uma disbiose, e não uma infecção por um agente único
- Alérgica ou irritativa: por sabonetes íntimos, duchas vaginais, látex, espermicidas, absorventes perfumados
- Atrófica: na menopausa, pela queda dos estrogênios — mucosa vaginal fica fina e ressecada
- Dermatológica: líquen escleroso, líquen plano, psoríase, dermatite de contato
- Dolorosa, sem lesão visível: vulvodínia
- Outras: corpo estranho (especialmente em crianças) e formas menos comuns de vaginite, como a vaginite aeróbica e a vaginite inflamatória descamativa
O diagnóstico correto exige anamnese detalhada, exame físico e, muitas vezes, exames laboratoriais. O corrimento, o odor, o pH vaginal e os sintomas associados ajudam a diferenciar as principais causas.
Principais causas e como diferenciar
Tabela Comparativa: Candidíase × Vaginose Bacteriana × Tricomoníase
| Candidíase | Vaginose Bacteriana | Tricomoníase | |
|---|---|---|---|
| Corrimento | Branco, grumoso, "queijo cottage" | Branco-acinzentado, fluido, homogêneo | Amarelo-esverdeado, espumoso |
| Odor | Sem odor característico | "Peixe podre" — piora com sêmen | Fétido |
| pH vaginal | <4,5 (normal) | >4,5 | >4,5 |
| Sintomas | Coceira intensa, ardência, dispareunia | Geralmente sem coceira | Coceira, ardência, dispareunia |
| Teste de aminas | Negativo | Positivo (KOH — "whiff test") | Variável |
| Causa | Candida albicans (fungo) | Polimicrobiana — queda dos lactobacilos e aumento de Gardnerella e anaeróbios | Trichomonas vaginalis (protozoário) |
| É IST? | Não | Não é IST clássica, mas a atividade sexual e a troca de bactérias entre parceiros pesam — sobretudo na recorrência | Sim — tratar parceiro |
Como o diagnóstico é feito
Esta talvez seja a parte mais útil do artigo, porque é onde a automedicação costuma dar errado. Cada causa tem um caminho diagnóstico próprio:
- Candidíase: o diagnóstico junta os sintomas à demonstração do fungo — leveduras ou hifas no exame a fresco com KOH, ou teste laboratorial. Um ponto decisivo: encontrar Candida em quem não tem sintomas não é doença e não se trata — cerca de 10 a 20% das mulheres têm colonização normal. Em quadros recorrentes ou que não respondem, a cultura é importante para identificar a espécie
- Vaginose bacteriana: critérios de Amsel, escore de Nugent no Gram ou testes moleculares apropriados. PCR positivo só para Gardnerella não fecha o diagnóstico — essa bactéria também existe em mulheres saudáveis
- Tricomoníase: aqui vale saber que o exame a fresco, apesar de rápido e barato, deixa passar muitos casos — a sensibilidade fica em torno de 51 a 66%, e cai ainda mais se a lâmina demora a ser analisada. Os testes moleculares são bem mais sensíveis e, quando disponíveis, são preferíveis
Coceira, corrimento ou ardência vaginal persistente?
O diagnóstico correto é fundamental para definir o tratamento adequado — antifúngico, antibiótico e estrogênio têm indicações diferentes, e o remédio errado pode piorar o quadro. A Dra. Gabriella Dourado, ginecologista e obstetra em São Paulo, avalia e orienta o tratamento certo.
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A candidíase é causada principalmente pela Candida albicans, um fungo que faz parte da microbiota vaginal normal em baixas concentrações. O problema surge quando há desequilíbrio e crescimento excessivo (veja o artigo dedicado de candidíase). Fatores predisponentes:
- Uso de antibióticos de amplo espectro — eliminam bactérias protetoras (lactobacilos)
- Gravidez — alterações hormonais e glicogênio elevado favorecem o fungo
- Diabetes mellitus descontrolado
- Imunossupressão (HIV, corticoides, quimioterapia)
- Roupas apertadas e sintéticas — ambiente quente e úmido
Tratamento:
- Candidíase não complicada: tanto os azólicos vaginais (miconazol, clotrimazol) quanto o fluconazol 150 mg em dose única por via oral são opções recomendadas — não existe uma "eleição" universal. Os cremes e óvulos curam a grande maioria das mulheres que completam o tratamento, e são a via usada na gravidez
- Na gestação: azólico vaginal por 7 dias; o fluconazol oral deve ser evitado
- Candidíase recorrente: a definição varia conforme a referência — 3 ou mais episódios sintomáticos em 12 meses para umas, 4 ou mais para outras. Antes de iniciar um esquema supressivo longo, o passo mais importante é confirmar que realmente é candidíase e identificar a espécie por cultura: espécies não-albicans costumam responder mal aos azólicos habituais e algumas nem sequer aparecem bem na microscopia. Confirmado o quadro por C. albicans, usa-se uma fase de indução seguida de fluconazol semanal por cerca de 6 meses
Vaginose bacteriana
A vaginose bacteriana (VB) é a causa mais prevalente de corrimento vaginal alterado. Ocorre por um desequilíbrio da microbiota vaginal normal: os lactobacilos protetores são substituídos por um crescimento excessivo de Gardnerella vaginalis e bactérias anaeróbias. O pH vaginal sobe acima de 4,5, e as bactérias produzem aminas voláteis — daí o odor característico de "peixe".
A vaginose bacteriana não é uma IST, mas está associada à atividade sexual e aumenta significativamente o risco de adquirir outras ISTs, além de complicações obstétricas (parto prematuro) quando ocorre na gestação.
- Diagnóstico: critérios de Amsel (≥3 de 4: corrimento homogêneo, pH >4,5, teste de aminas positivo, clue cells no microscópio) ou escore de Nugent no Gram
- Tratamento: metronidazol 500 mg 2x/dia por 7 dias (VO) ou gel vaginal de metronidazol; alternativa: clindamicina vaginal
- Recorrência é frequente — algumas mulheres necessitam de tratamento supressivo. Na vaginose recorrente e sintomática, o ACOG (2025) passou a recomendar considerar também o tratamento concomitante do parceiro masculino; veja vaginose bacteriana
- Na gestação: gestante com sintomas deve ser tratada, em qualquer trimestre. Isso não se estende a rastrear e tratar toda gestante assintomática — ver a seção específica abaixo
Tricomoníase
A tricomoníase é causada pelo protozoário Trichomonas vaginalis e é a IST não viral mais prevalente no mundo. Diferente da candidíase e da vaginose bacteriana, é uma infecção sexualmente transmissível — o que significa que o parceiro deve ser tratado simultaneamente para evitar reinfecção.
- Corrimento amarelo-esverdeado, espumoso, com odor fétido — clássico, mas não universal
- A maioria das pessoas infectadas tem sintomas mínimos ou nenhum sintoma — e isso vale tanto para mulheres quanto, ainda mais, para homens
- Tratamento: para a mulher, metronidazol 500 mg 2x/dia por 7 dias é o esquema preferencial; a dose única de 2 g é alternativa. O parceiro deve ser tratado (metronidazol 2 g dose única). Tinidazol 2 g dose única é outra opção eficaz
- Resistência ao metronidazol: ocorre em cerca de 4 a 10% das infecções vaginais — incomum, mas longe de ser desprezível. Deve ser considerada quando a infecção persiste apesar de tratamento correto, adesão confirmada e sem nova exposição
- Repetir o exame em cerca de 3 meses: recomenda-se retestar todas as mulheres sexualmente ativas cerca de três meses após o tratamento, mesmo que os sintomas tenham desaparecido e mesmo acreditando que a parceria foi tratada — a reinfecção é frequente
- Na gestação: gestante com sintomas deve ser testada e tratada, em qualquer trimestre — o metronidazol é seguro. Já o rastreamento universal de gestantes sem sintomas não tem benefício estabelecido
Vulvovaginite por faixa etária
| Faixa Etária | Causas Mais Comuns | Particularidades Clínicas |
|---|---|---|
| Infância (pré-púbere) | Na maioria das vezes inespecífica/irritativa; parasitas intestinais; corpo estranho; menos comumente uma infecção bacteriana específica | Mucosa fina e sem proteção estrogênica; candidíase é rara nessa idade; exame vaginal interno não é rotina |
| Idade reprodutiva | Candidíase, vaginose bacteriana, tricomoníase, ISTs | Diagnóstico diferencial essencial; tratamento específico por agente; rastreio de ISTs |
| Gestação | Candidíase (mais comum), vaginose bacteriana, tricomoníase | Tratar o que é sintomático — achado assintomático é outra conversa; fluconazol oral deve ser evitado |
| Menopausa | Vaginite atrófica (síndrome geniturinária da menopausa) | Queda de estrogênio; mucosa fina e seca; tratamento escalonado, de hidratantes ao estrogênio vaginal local |
Vulvovaginite na gestação: o que tratar e o que não tratar
Esta é a seção em que mais se erra — inclusive em material médico. A frase "na gravidez, tratar sempre" junta três condições diferentes como se toda positividade em exame exigisse antibiótico ou antifúngico, e como se tratar todas prevenisse complicações obstétricas. Não é assim. O que decide é haver sintomas:
| Situação na gestação | Conduta |
|---|---|
| Candidíase sintomática | Tratar — azólico vaginal por 7 dias; fluconazol oral deve ser evitado |
| Candida encontrada sem sintomas | Não tratar. É colonização, não doença |
| Vaginose bacteriana sintomática | Tratar, em qualquer trimestre |
| Vaginose sem sintomas | Não se rastreia nem se trata de rotina — inclusive em quem já teve parto prematuro, a evidência é insuficiente |
| Tricomoníase sintomática | Testar e tratar com metronidazol, em qualquer trimestre |
| Trichomonas sem sintomas | O benefício do rastreamento universal não está estabelecido |
Resumindo em uma frase: na gravidez, trata-se doença sintomática — e não todo resultado de exame.
Vulvovaginite na infância
Em meninas pré-púberes, a vulvovaginite tem etiologia diferente da mulher adulta. Nessa faixa etária, a mucosa vaginal é fina e sem proteção estrogênica, tornando-a mais vulnerável:
- A causa mais comum é a vulvovaginite inespecífica (irritativa) — e vale dizer isso com clareza, porque muitas mães chegam ao consultório achando que fizeram algo errado. Não é falta de higiene: a mucosa é fina e sem estrogênio, o pH é mais alcalino, a região fica próxima do ânus e é naturalmente úmida, e nessa idade a criança ainda tem dificuldade de se limpar sozinha. Sabonetes, banhos de espuma e xampu na região pioram o quadro
- A maioria melhora só com medidas locais: suspender irritantes, roupas folgadas, secar bem, higiene suave com água
- Parasitas intestinais (Enterobius vermicularis) — pensar sobretudo quando a coceira piora à noite
- Candidíase é incomum entre os 2 anos e a puberdade. Se for realmente confirmada nessa faixa, e principalmente se for persistente, vale investigar fatores como diabetes ou imunossupressão
- Corpo estranho vaginal: causa corrimento fétido e persistente — deve ser descartado
- Exame vaginal interno não é rotina: em meninas antes da puberdade, a avaliação é predominantemente externa. Exame com espéculo e coleta de material de dentro da vagina não devem ser feitos de rotina, e o conforto e a privacidade da criança precisam ser respeitados
Isso não significa ignorar sinais de alerta. Achados genitais atípicos, trauma, uma história que não fecha ou a identificação de determinadas infecções sexualmente transmissíveis exigem avaliação especializada para investigar violência sexual. As duas coisas convivem: não presumir, e não deixar passar.
Síndrome geniturinária da menopausa (a antiga "vaginite atrófica")
Com a queda dos estrogênios, a mucosa vaginal se torna mais fina, menos lubrificada e mais suscetível a irritações. O nome antigo era "vaginite atrófica", mas ele ficou estreito demais: hoje se fala em síndrome geniturinária da menopausa (SGM), porque o quadro vai além da vagina e nem sempre é uma "vaginite".
Dois esclarecimentos úteis:
- Não é só vaginal. A SGM reúne sintomas vulvares (ressecamento, ardência), sexuais (dor na relação, sangramento após o sexo) e urinários (urgência, aumento da frequência, infecções urinárias de repetição)
- Não é exclusiva da menopausa. O hipoestrogenismo que a provoca também pode ocorrer durante a amamentação, em tratamentos oncológicos e com medicamentos antiestrogênicos
Sobre o quadro e o tratamento:
- Sintomas: ressecamento, ardência, dispareunia (dor na relação), maior frequência de infecções
- Sintomas leves: hidratantes vaginais de uso regular e lubrificantes nas relações podem ser suficientes — nem toda mulher com ressecamento precisa de hormônio
- Sintomas moderados, importantes ou persistentes: o estrogênio vaginal de baixa dose (creme, óvulo ou anel) é uma das opções mais eficazes, com absorção sistêmica mínima
- Terapia hormonal sistêmica: discutir individualmente com o ginecologista
Quando não é candidíase, vaginose nem tricomoníase
Esta seção é para quem já passou por vários tratamentos e continua com sintomas — uma situação mais comum do que parece. Se os exames dão negativos, ou se os antifúngicos e antibióticos não resolvem, a resposta quase nunca é repetir o remédio: é voltar ao diagnóstico.
Coceira, ardência e corrimento persistentes também podem vir de:
- Dermatite de contato: reação a sabonetes íntimos, absorventes, lenços umedecidos, depilação, tecidos ou até ao próprio creme usado para tratar a "candidíase" — uma armadilha frequente
- Líquen escleroso: pele vulvar esbranquiçada e afinada, coceira intensa e crônica; precisa de diagnóstico e acompanhamento
- Líquen plano: pode causar ardor, dor, erosões na vulva e na vagina, corrimento e sangramento ao contato — imita muito bem uma vaginite que não passa
- Vulvodínia: dor ou ardência vulvar persistente sem lesão visível e sem infecção. O exame ser normal não significa que a dor não seja real
- Síndrome geniturinária por queda de estrogênio — inclusive fora da menopausa, como na amamentação
- Vaginite aeróbica e vaginite inflamatória descamativa (VID): formas menos comuns de vaginite, com inflamação de verdade, corrimento amarelado e ardência, que não respondem a antifúngico e exigem microscopia e critérios próprios
💡 O sinal de alerta é o tratamento que não funciona
Se você já usou antifúngico mais de uma vez sem melhora, ou se os sintomas voltam assim que o tratamento acaba, isso por si só é motivo para reavaliar o diagnóstico — e não para aumentar a dose ou repetir o esquema. Chegar à consulta sem ter se automedicado nos dias anteriores ajuda bastante, porque o tratamento recente pode mascarar o que os exames encontrariam.
Quando procurar avaliação médica
A maioria das vulvovaginites é benigna e tratável, mas alguns sinais indicam que a avaliação ginecológica é necessária — para confirmar o diagnóstico e afastar outras causas. Procure atendimento se houver:
- Corrimento persistente ou que não melhora após o tratamento
- Odor vaginal forte, especialmente o cheiro de "peixe"
- Coceira ou ardência intensas que atrapalham o dia a dia
- Dor durante as relações sexuais (dispareunia)
- Sangramento fora do período menstrual — não é típico de vulvovaginite e exige investigar outra causa (ex.: cervicite, lesões)
- Sintomas recorrentes (por exemplo, candidíase 4 ou mais vezes ao ano)
- Dor pélvica ou febre associadas — podem indicar infecção mais profunda (doença inflamatória pélvica)
- Sintomas na gestação ou em meninas (infância) — sempre merecem avaliação
💬 Da prática clínica
Coceira, ardência e corrimento levam muitas mulheres a se automedicar — e nem sempre a causa é candidíase. Como a vulvovaginite tem várias causas (fungo, bactéria, irritação), o tratamento certo depende de identificar a origem. Vale avaliar antes de repetir remédios por conta própria. — Dra. Gabriella Dourado
Perguntas Frequentes
Toda coceira vaginal é candidíase?
Não — e essa é provavelmente a suposição que mais leva a tratamento errado. A coceira é o sintoma mais típico da candidíase, mas também aparece em dermatite de contato (inclusive reação ao próprio creme usado para tratar a "candidíase"), líquen escleroso, líquen plano, tricomoníase, ressecamento por queda de estrogênio e vulvodínia. A vaginose bacteriana, ao contrário, costuma cursar sem coceira. Se o antifúngico não resolveu, a conclusão não é que faltou dose: é que provavelmente não era candidíase.
Meus exames dão negativos e continuo com ardência. O que pode ser?
Essa é uma situação mais comum do que parece, e ela tem explicações. Quando candidíase, vaginose e tricomoníase são afastadas, entram no diagnóstico a dermatite de contato, o líquen escleroso, o líquen plano, a síndrome geniturinária por queda de estrogênio — que também ocorre na amamentação, não só na menopausa —, formas menos comuns de vaginite como a vaginite aeróbica e a vaginite inflamatória descamativa, e a vulvodínia, em que há dor ou ardência persistente sem lesão visível e sem infecção. O exame vir normal não significa que a sua dor não seja real. O caminho é reavaliar o diagnóstico, e não repetir antifúngicos e antibióticos.
Grávida com corrimento precisa sempre tratar?
Não. O que decide é haver sintomas, e não o resultado do exame. Candidíase sintomática se trata com azólico vaginal por 7 dias, e o fluconazol oral deve ser evitado; encontrar Candida em gestante sem sintomas é colonização e não se trata. Vaginose sintomática se trata em qualquer trimestre, mas não se rastreia nem se trata vaginose assintomática de rotina — inclusive em quem já teve parto prematuro, onde a evidência é insuficiente. Tricomoníase sintomática deve ser testada e tratada com metronidazol, que é seguro na gravidez, enquanto o rastreamento universal de gestantes sem sintomas não tem benefício estabelecido.
Minha filha pequena tem vermelhidão e corrimento. É candidíase?
Provavelmente não. Entre os 2 anos e a puberdade, a candidíase vaginal é incomum. O quadro mais frequente nessa idade é a vulvovaginite inespecífica, de origem irritativa: a mucosa é fina e sem estrogênio, o pH é mais alcalino, a região é úmida e próxima do ânus, e a criança ainda tem dificuldade de se limpar sozinha. Sabonetes, banhos de espuma e xampu na região costumam piorar. A maioria melhora só com medidas locais — suspender irritantes, roupas folgadas, higiene suave com água. Vale lembrar também que corrimento fétido e persistente pede que se descarte corpo estranho, e que o exame nessa idade é externo: exame vaginal interno não é rotina.
Posso tratar a candidíase sem consulta médica?
Algumas mulheres com episódio anterior confirmado e sintomas muito típicos usam antifúngicos de venda livre, e isso é uma realidade. Mas vale saber de um dado que surpreende: o autodiagnóstico falha mesmo entre mulheres que já tiveram candidíase confirmada por médico — coceira e corrimento têm muitas outras causas. Se for o primeiro episódio, se houver dúvida, se os sintomas forem atípicos, se você estiver grávida, se não melhorar em uma semana ou se o quadro voltar em menos de dois meses, o caminho é confirmar a causa antes de repetir remédio.
Vaginose bacteriana é uma doença sexualmente transmissível?
Não é uma IST clássica: não há um único microrganismo transmitido no sexo, e mulheres que nunca tiveram relações também podem ter vaginose. Mas essa resposta ficou mais sofisticada — há evidência crescente de que bactérias associadas à vaginose são trocadas entre parceiros, o que pesa bastante na recorrência. Na prática: num primeiro episódio, o tratamento da parceria em geral não é indicado; já na vaginose recorrente e sintomática, desde 2025 recomenda-se considerar o tratamento simultâneo do parceiro masculino. Para parceiras do mesmo sexo, a orientação é de decisão compartilhada, e não de tratar automaticamente.
Por que a candidíase fica recorrente?
Primeiro, a definição: dependendo da referência, candidíase recorrente é 3 ou mais ou 4 ou mais episódios sintomáticos em 12 meses. Quanto à causa, vale corrigir uma ideia comum: não costuma ser "reinfecção". A candidíase não é adquirida pela relação sexual como uma IST, e não há indicação de tratar a parceria de rotina — procurar uma "fonte" externa quase sempre é caminho errado. O que pode estar por trás são fatores da própria pessoa: uso frequente de antibióticos, diabetes mal controlado, imunossupressão, espécies não-albicans ou menor sensibilidade aos azólicos. E é honesto dizer que em boa parte das mulheres não se encontra nenhum fator predisponente. Antes de começar um esquema supressivo longo, o passo mais importante é confirmar que é mesmo candidíase e identificar a espécie por cultura.
O cheiro de "peixe" na vagina sempre significa infecção?
É muito sugestivo de vaginose bacteriana, mas não fecha o diagnóstico sozinho. O odor se intensifica após a relação porque o sêmen eleva temporariamente o pH vaginal e favorece a liberação das aminas produzidas pelas bactérias anaeróbias. Vale saber, porém, que outras causas de corrimento e variações normais após o sexo ou a menstruação também podem alterar o odor — e que a relação entre atividade sexual e vaginose envolve mais do que o pH do sêmen: a troca de bactérias entre parceiros parece ter papel relevante. Quando o odor persiste, o diagnóstico não deve ser feito pelo cheiro.
Tricomoníase pode ser transmitida sem relação sexual?
Na prática, não. A tricomoníase é uma IST e sua transmissão ocorre pelo contato sexual genital, com a troca de secreções — transmissão por vaso sanitário, toalha ou piscina não é uma via relevante e não vale a pena se preocupar com isso. O que importa clinicamente é outra coisa: como é uma IST, a parceria precisa ser tratada ao mesmo tempo, e recomenda-se repetir o exame cerca de três meses depois, mesmo sem sintomas, porque a reinfecção é frequente.
Usar calcinhas de algodão e evitar roupas apertadas realmente ajuda?
Ajudam, com uma ressalva importante sobre o tamanho do efeito. Roupa íntima de algodão, roupas mais folgadas e secar bem a região podem reduzir calor e umidade local, e estão entre as medidas que costumam ser recomendadas. Mas seria injusto prometer que elas previnem a candidíase recorrente: quando os episódios se repetem muitas vezes, a explicação em geral é bem mais complexa do que a roupa — e insistir só nessas medidas atrasa a investigação que realmente resolveria o caso.
Diagnóstico preciso para o tratamento certo
Corrimento, coceira ou odor vaginal alterado merecem avaliação ginecológica especializada. A Dra. Gabriella Dourado realiza o diagnóstico correto de vulvovaginites, orienta o tratamento adequado e investiga causas recorrentes para oferecer solução definitiva.
Agendar consulta com a Dra. Gabriella Dourado →Conteúdo informativo. Este artigo não substitui a consulta médica. Para avaliação individualizada, procure um ginecologista de sua confiança.
Referências: Centers for Disease Control and Prevention (CDC) — “Sexually Transmitted Infections Treatment Guidelines”, para os capítulos de candidíase vulvovaginal (definição de recorrência a partir de três episódios em um ano, colonização assintomática, cultura e identificação de espécie, azólico vaginal por 7 dias na gestação), vaginose bacteriana e tricomoníase (sensibilidade do exame a fresco, resistência ao metronidazol em 4 a 10% e reteste em cerca de três meses); American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG) — atualização de outubro de 2025 sobre tratamento da parceria na vaginose recorrente, e documentos sobre síndrome geniturinária da menopausa; International Society for the Study of Vulvovaginal Disease (ISSVD) — para as demais formas de vaginite, incluindo vaginite aeróbica e vaginite inflamatória descamativa; US Preventive Services Task Force, para o rastreamento de vaginose na gestação; Organização Mundial da Saúde (OMS); FEBRASGO.