Ginecologia

Vulvovaginite: causas, sintomas e tratamento

📅 Atualizado em maio de 2026 ⏱ Leitura: 8 minutos 👩‍⚕️ Revisado por ginecologista especialista

A vulvovaginite — inflamação da vulva e da vagina — é o motivo de consulta ginecológica mais comum entre mulheres de todas as idades. Coceira, ardência, corrimento com odor alterado e desconforto durante as relações sexuais são queixas que afetam a qualidade de vida de forma significativa. O ponto mais importante: o diagnóstico correto é essencial, pois candidíase, vaginose bacteriana e tricomoníase têm causas completamente diferentes e exigem tratamentos distintos. Automedicar-se com o remédio errado pode piorar o quadro.

📋 Vulvovaginite — Dados Essenciais

  • Causa mais comum: motivo mais frequente de consulta ginecológica em todo o mundo
  • Candidíase: 75% das mulheres terão pelo menos um episódio ao longo da vida
  • Vaginose bacteriana: é a causa infecciosa mais prevalente de corrimento vaginal alterado
  • Diagnóstico correto é essencial: cada tipo tem tratamento específico — usar o medicamento errado não resolve e pode agravar

O que é vulvovaginite?

Vulvovaginite é um termo amplo que descreve a inflamação da vulva e/ou da vagina. Pode ter diferentes origens:

  • Infecciosa: a mais comum — causada por fungos (candidíase), bactérias (vaginose bacteriana) ou protozoários (tricomoníase)
  • Alérgica ou irritativa: por sabonetes íntimos, duchas vaginais, látex, espermicidas, absorventes perfumados
  • Atrófica: na menopausa, pela queda dos estrogênios — mucosa vaginal fica fina e ressecada
  • Outras causas: dermatoses (líquen escleroso, psoríase), corpo estranho (especialmente em crianças)

O diagnóstico correto exige anamnese detalhada, exame físico e, muitas vezes, exames laboratoriais. O corrimento, o odor, o pH vaginal e os sintomas associados ajudam a diferenciar as principais causas.

Principais causas e como diferenciar

Tabela Comparativa: Candidíase × Vaginose Bacteriana × Tricomoníase

Candidíase Vaginose Bacteriana Tricomoníase
Corrimento Branco, grumoso, "queijo cottage" Branco-acinzentado, fluido, homogêneo Amarelo-esverdeado, espumoso
Odor Sem odor característico "Peixe podre" — piora com sêmen Fétido
pH vaginal <4,5 (normal) >4,5 >4,5
Sintomas Coceira intensa, ardência, dispareunia Geralmente sem coceira Coceira, ardência, dispareunia
Teste de aminas Negativo Positivo (KOH — "whiff test") Variável
Causa Candida albicans (fungo) Gardnerella + anaeróbios (bactérias) Trichomonas vaginalis (protozoário)
É IST? Não Não (mas favorece ISTs) Sim — tratar parceiro

Coceira, corrimento ou ardência vaginal persistente?

O diagnóstico correto é fundamental para definir o tratamento adequado — antifúngico, antibiótico e estrogênio têm indicações diferentes, e o remédio errado pode piorar o quadro. A Dra. Gabriella Dourado, ginecologista e obstetra em São Paulo, avalia e orienta o tratamento certo.

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Candidíase vulvovaginal

A candidíase é causada principalmente pela Candida albicans, um fungo que faz parte da microbiota vaginal normal em baixas concentrações. O problema surge quando há desequilíbrio e crescimento excessivo. Fatores predisponentes:

  • Uso de antibióticos de amplo espectro — eliminam bactérias protetoras (lactobacilos)
  • Gravidez — alterações hormonais e glicogênio elevado favorecem o fungo
  • Diabetes mellitus descontrolado
  • Imunossupressão (HIV, corticoides, quimioterapia)
  • Roupas apertadas e sintéticas — ambiente quente e úmido

Tratamento:

  • Fluconazol 150 mg — dose única via oral (tratamento de eleição para candidíase não complicada)
  • Miconazol ou clotrimazol — óvulo ou creme vaginal (opção tópica, segura na gravidez)
  • Candidíase recorrente (≥4 episódios/ano): protocolo supressivo com fluconazol semanal por 6 meses após indução; investigar fatores predisponentes (diabetes, imunossupressão)

Vaginose bacteriana

A vaginose bacteriana (VB) é a causa mais prevalente de corrimento vaginal alterado. Ocorre por um desequilíbrio da microbiota vaginal normal: os lactobacilos protetores são substituídos por um crescimento excessivo de Gardnerella vaginalis e bactérias anaeróbias. O pH vaginal sobe acima de 4,5, e as bactérias produzem aminas voláteis — daí o odor característico de "peixe".

A vaginose bacteriana não é uma IST, mas está associada à atividade sexual e aumenta significativamente o risco de adquirir outras ISTs, além de complicações obstétricas (parto prematuro) quando ocorre na gestação.

  • Diagnóstico: critérios de Amsel (≥3 de 4: corrimento homogêneo, pH >4,5, teste de aminas positivo, clue cells no microscópio) ou escore de Nugent no Gram
  • Tratamento: metronidazol 500 mg 2x/dia por 7 dias (VO) ou gel vaginal de metronidazol; alternativa: clindamicina vaginal
  • Recorrência é frequente — algumas mulheres necessitam de tratamento supressivo
  • Na gestação: tratar sempre — risco de parto prematuro e rotura prematura de membranas

Tricomoníase

A tricomoníase é causada pelo protozoário Trichomonas vaginalis e é a IST não viral mais prevalente no mundo. Diferente da candidíase e da vaginose bacteriana, é uma infecção sexualmente transmissível — o que significa que o parceiro deve ser tratado simultaneamente para evitar reinfecção.

  • Corrimento amarelo-esverdeado, espumoso, com odor fétido — clássico, mas não universal
  • Muitas mulheres (e praticamente todos os homens) são assintomáticos
  • Tratamento: para a mulher, metronidazol 500 mg 2x/dia por 7 dias é o esquema preferencial (CDC 2021); a dose única de 2 g é alternativa. O parceiro deve ser tratado (metronidazol 2 g dose única). Tinidazol 2 g dose única é outra opção eficaz. Resistência ao metronidazol é rara, mas existe
  • Controle pós-tratamento: retornar se sintomas persistirem
  • Na gestação: metronidazol é seguro e deve ser usado — tricomoníase se associa a parto prematuro

Vulvovaginite por faixa etária

Faixa Etária Causas Mais Comuns Particularidades Clínicas
Infância (pré-púbere) Higiene inadequada, bactérias entéricas (E. coli), parasitas, irritantes Mucosa sem proteção estrogênica; descartar corpo estranho; abordagem multidisciplinar se suspeita de abuso
Idade reprodutiva Candidíase, vaginose bacteriana, tricomoníase, ISTs Diagnóstico diferencial essencial; tratamento específico por agente; rastreio de ISTs
Gestação Candidíase (mais comum), vaginose bacteriana, tricomoníase Tratar sempre — risco de parto prematuro e infecção neonatal; fluconazol oral contraindicado
Menopausa Vaginite atrófica (síndrome geniturinária da menopausa) Queda de estrogênio; mucosa fina e seca; tratamento de eleição: estrogênio vaginal local

Vulvovaginite na infância

Em meninas pré-púberes, a vulvovaginite tem etiologia diferente da mulher adulta. Nessa faixa etária, a mucosa vaginal é fina e sem proteção estrogênica, tornando-a mais vulnerável:

  • Causas mais comuns: higiene inadequada, parasitas intestinais (Enterobius vermicularis), bactérias entéricas (E. coli), irritantes (sabonetes, shampoo de banho na região)
  • Corpo estranho vaginal: causa corrimento fétido e persistente — deve ser descartado
  • Importante: vulvovaginite na infância NÃO deve ser interpretada automaticamente como sinal de abuso sexual — a avaliação deve ser cuidadosa e multidisciplinar

Vulvovaginite atrófica na menopausa

Com a queda dos estrogênios após a menopausa, a mucosa vaginal se torna mais fina, menos lubrificada e mais suscetível a irritações e infecções. Atualmente, essa condição é chamada de síndrome geniturinária da menopausa (SGM):

  • Sintomas: ressecamento, ardência, dispareunia (dor na relação), maior frequência de infecções
  • Tratamento de eleição: estrogênio vaginal local (creme, óvulo ou anel) — age localmente com absorção sistêmica mínima; altamente eficaz
  • Alternativas não hormonais: hidratantes vaginais e lubrificantes
  • Terapia hormonal sistêmica: discutir individualmente com o ginecologista

Quando procurar avaliação médica

A maioria das vulvovaginites é benigna e tratável, mas alguns sinais indicam que a avaliação ginecológica é necessária — para confirmar o diagnóstico e afastar outras causas. Procure atendimento se houver:

  • Corrimento persistente ou que não melhora após o tratamento
  • Odor vaginal forte, especialmente o cheiro de "peixe"
  • Coceira ou ardência intensas que atrapalham o dia a dia
  • Dor durante as relações sexuais (dispareunia)
  • Sangramento fora do período menstrual — não é típico de vulvovaginite e exige investigar outra causa (ex.: cervicite, lesões)
  • Sintomas recorrentes (por exemplo, candidíase 4 ou mais vezes ao ano)
  • Dor pélvica ou febre associadas — podem indicar infecção mais profunda (doença inflamatória pélvica)
  • Sintomas na gestação ou em meninas (infância) — sempre merecem avaliação
⚠️ Evite automedicação: cada tipo de vulvovaginite tem tratamento específico. Usar antifúngico para vaginose bacteriana ou antibiótico para candidíase não apenas não resolve o problema — pode desequilibrar ainda mais a microbiota vaginal e piorar o quadro. Sempre consulte o ginecologista para diagnóstico correto.

Perguntas Frequentes

Posso tratar a candidíase sem consulta médica?

Uma candidíase isolada, típica, em mulher adulta sem fatores de risco pode ser tratada com medicamentos disponíveis sem prescrição. Porém, se os sintomas forem recorrentes, atípicos, ou se não melhorarem em 7 dias, a consulta é necessária — outros diagnósticos podem mimetizar a candidíase.

Vaginose bacteriana é uma doença sexualmente transmissível?

Não é classicamente uma IST, mas está associada à atividade sexual — o pH do sêmen (alcalino) favorece o crescimento das bactérias causadoras. O parceiro masculino em geral não precisa ser tratado, mas parceiras femininas de mulheres com vaginose recorrente devem ser avaliadas.

Por que a candidíase fica recorrente?

A candidíase recorrente (≥4 episódios por ano) pode ocorrer por resistência da cepa, fatores predisponentes mantidos (diabetes descontrolado, uso prolongado de antibióticos, imunossupressão), ou reinfecção. Investigação de doenças subjacentes e protocolo supressivo de longa duração são necessários.

O cheiro de "peixe" na vagina sempre significa infecção?

O odor característico de "peixe" — especialmente após relação sexual — é muito sugestivo de vaginose bacteriana. Ocorre porque as bactérias anaeróbias produzem aminas voláteis que se intensificam em contato com o pH alcalino do sêmen. A consulta para diagnóstico e tratamento é recomendada.

Tricomoníase pode ser transmitida sem relação sexual?

Raramente. O Trichomonas vaginalis sobrevive por horas em superfícies úmidas, mas a transmissão via objetos ou toalhas compartilhadas é muito incomum. A via sexual é a principal e praticamente exclusiva forma de transmissão — o que a classifica como IST com necessidade de tratar o parceiro.

Usar calcinhas de algodão e evitar roupas apertadas realmente ajuda?

Sim, especialmente para prevenção de candidíase recorrente. Ambientes quentes e úmidos favorecem o crescimento de Candida. Calcinhas de algodão, evitar roupas sintéticas apertadas e secar bem a região após banho ajudam a manter o ambiente vaginal desfavorável ao crescimento fúngico.

Diagnóstico preciso para o tratamento certo

Corrimento, coceira ou odor vaginal alterado merecem avaliação ginecológica especializada. A Dra. Gabriella Dourado realiza o diagnóstico correto de vulvovaginites, orienta o tratamento adequado e investiga causas recorrentes para oferecer solução definitiva.

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Conteúdo informativo. Este artigo não substitui a consulta médica. Para avaliação individualizada, procure um ginecologista de sua confiança.

Referências: FEBRASGO, Centers for Disease Control and Prevention (CDC), World Health Organization (WHO), International Union against Sexually Transmitted Infections (IUSTI).