Ginecologia

Vulvovaginite: causas, sintomas e tratamento

📅 Atualizado em setembro de 2026 ⏱ Leitura: 14 minutos 👩‍⚕️ Revisado por ginecologista especialista

Coceira, ardência, corrimento com odor alterado e desconforto nas relações estão entre os motivos mais frequentes de consulta ginecológica, em todas as idades. Coceira, ardência, corrimento com odor alterado e desconforto durante as relações sexuais são queixas que afetam a qualidade de vida de forma significativa. O ponto mais importante: o diagnóstico correto é essencial, pois candidíase, vaginose bacteriana e tricomoníase têm causas completamente diferentes e exigem tratamentos distintos. Automedicar-se com o remédio errado pode piorar o quadro.

📋 Vulvovaginite — Dados Essenciais

  • Queixa muito frequente: corrimento, coceira e ardência estão entre os motivos mais comuns de consulta ginecológica
  • Candidíase: 75% das mulheres terão pelo menos um episódio ao longo da vida
  • Vaginose bacteriana: é a causa infecciosa mais prevalente de corrimento vaginal alterado
  • Diagnóstico correto é essencial: cada causa tem tratamento específico — usar o medicamento errado não resolve e pode agravar
  • Nem sempre é infecção: quando os exames dão negativos e os tratamentos não funcionam, a resposta costuma estar em causas dermatológicas, hormonais ou dolorosas — e não em repetir antifúngico

O que é vulvovaginite?

Vulvovaginite é um termo amplo que descreve a inflamação da vulva e/ou da vagina. Mas vale um ajuste de conceito logo de início, porque ele organiza tudo o que vem depois: nem todo sintoma vulvovaginal vem de uma inflamação. A vaginose bacteriana, por exemplo, é uma disbiose — um desequilíbrio da microbiota, em geral com pouca resposta inflamatória. É exatamente por isso que ela se chama vaginose, e não vaginite.

Na prática, portanto, é mais útil pensar nas diferentes causas de sintomas e corrimento vulvovaginal do que em um único diagnóstico. Elas podem ser:

  • Infecciosa: a mais comum — fungos (candidíase) ou protozoários (tricomoníase). A vaginose bacteriana entra aqui pelos sintomas, mas é uma disbiose, e não uma infecção por um agente único
  • Alérgica ou irritativa: por sabonetes íntimos, duchas vaginais, látex, espermicidas, absorventes perfumados
  • Atrófica: na menopausa, pela queda dos estrogênios — mucosa vaginal fica fina e ressecada
  • Dermatológica: líquen escleroso, líquen plano, psoríase, dermatite de contato
  • Dolorosa, sem lesão visível: vulvodínia
  • Outras: corpo estranho (especialmente em crianças) e formas menos comuns de vaginite, como a vaginite aeróbica e a vaginite inflamatória descamativa

O diagnóstico correto exige anamnese detalhada, exame físico e, muitas vezes, exames laboratoriais. O corrimento, o odor, o pH vaginal e os sintomas associados ajudam a diferenciar as principais causas.

Principais causas e como diferenciar

Tabela Comparativa: Candidíase × Vaginose Bacteriana × Tricomoníase

Candidíase Vaginose Bacteriana Tricomoníase
Corrimento Branco, grumoso, "queijo cottage" Branco-acinzentado, fluido, homogêneo Amarelo-esverdeado, espumoso
Odor Sem odor característico "Peixe podre" — piora com sêmen Fétido
pH vaginal <4,5 (normal) >4,5 >4,5
Sintomas Coceira intensa, ardência, dispareunia Geralmente sem coceira Coceira, ardência, dispareunia
Teste de aminas Negativo Positivo (KOH — "whiff test") Variável
Causa Candida albicans (fungo) Polimicrobiana — queda dos lactobacilos e aumento de Gardnerella e anaeróbios Trichomonas vaginalis (protozoário)
É IST? Não Não é IST clássica, mas a atividade sexual e a troca de bactérias entre parceiros pesam — sobretudo na recorrência Sim — tratar parceiro
⚠️ Esses são padrões típicos, não são diagnóstico. A aparência do corrimento, sozinha, não confirma a causa: há grande sobreposição entre os quadros, infecções mistas existem e uma parte importante das mulheres com tricomoníase tem sintomas mínimos ou nenhum. Use a tabela para entender o que o exame procura — não para se autodiagnosticar.

Como o diagnóstico é feito

Esta talvez seja a parte mais útil do artigo, porque é onde a automedicação costuma dar errado. Cada causa tem um caminho diagnóstico próprio:

  • Candidíase: o diagnóstico junta os sintomas à demonstração do fungo — leveduras ou hifas no exame a fresco com KOH, ou teste laboratorial. Um ponto decisivo: encontrar Candida em quem não tem sintomas não é doença e não se trata — cerca de 10 a 20% das mulheres têm colonização normal. Em quadros recorrentes ou que não respondem, a cultura é importante para identificar a espécie
  • Vaginose bacteriana: critérios de Amsel, escore de Nugent no Gram ou testes moleculares apropriados. PCR positivo só para Gardnerella não fecha o diagnóstico — essa bactéria também existe em mulheres saudáveis
  • Tricomoníase: aqui vale saber que o exame a fresco, apesar de rápido e barato, deixa passar muitos casos — a sensibilidade fica em torno de 51 a 66%, e cai ainda mais se a lâmina demora a ser analisada. Os testes moleculares são bem mais sensíveis e, quando disponíveis, são preferíveis

Coceira, corrimento ou ardência vaginal persistente?

O diagnóstico correto é fundamental para definir o tratamento adequado — antifúngico, antibiótico e estrogênio têm indicações diferentes, e o remédio errado pode piorar o quadro. A Dra. Gabriella Dourado, ginecologista e obstetra em São Paulo, avalia e orienta o tratamento certo.

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Candidíase vulvovaginal

A candidíase é causada principalmente pela Candida albicans, um fungo que faz parte da microbiota vaginal normal em baixas concentrações. O problema surge quando há desequilíbrio e crescimento excessivo (veja o artigo dedicado de candidíase). Fatores predisponentes:

  • Uso de antibióticos de amplo espectro — eliminam bactérias protetoras (lactobacilos)
  • Gravidez — alterações hormonais e glicogênio elevado favorecem o fungo
  • Diabetes mellitus descontrolado
  • Imunossupressão (HIV, corticoides, quimioterapia)
  • Roupas apertadas e sintéticas — ambiente quente e úmido

Tratamento:

  • Candidíase não complicada: tanto os azólicos vaginais (miconazol, clotrimazol) quanto o fluconazol 150 mg em dose única por via oral são opções recomendadas — não existe uma "eleição" universal. Os cremes e óvulos curam a grande maioria das mulheres que completam o tratamento, e são a via usada na gravidez
  • Na gestação: azólico vaginal por 7 dias; o fluconazol oral deve ser evitado
  • Candidíase recorrente: a definição varia conforme a referência — 3 ou mais episódios sintomáticos em 12 meses para umas, 4 ou mais para outras. Antes de iniciar um esquema supressivo longo, o passo mais importante é confirmar que realmente é candidíase e identificar a espécie por cultura: espécies não-albicans costumam responder mal aos azólicos habituais e algumas nem sequer aparecem bem na microscopia. Confirmado o quadro por C. albicans, usa-se uma fase de indução seguida de fluconazol semanal por cerca de 6 meses

Vaginose bacteriana

A vaginose bacteriana (VB) é a causa mais prevalente de corrimento vaginal alterado. Ocorre por um desequilíbrio da microbiota vaginal normal: os lactobacilos protetores são substituídos por um crescimento excessivo de Gardnerella vaginalis e bactérias anaeróbias. O pH vaginal sobe acima de 4,5, e as bactérias produzem aminas voláteis — daí o odor característico de "peixe".

A vaginose bacteriana não é uma IST, mas está associada à atividade sexual e aumenta significativamente o risco de adquirir outras ISTs, além de complicações obstétricas (parto prematuro) quando ocorre na gestação.

  • Diagnóstico: critérios de Amsel (≥3 de 4: corrimento homogêneo, pH >4,5, teste de aminas positivo, clue cells no microscópio) ou escore de Nugent no Gram
  • Tratamento: metronidazol 500 mg 2x/dia por 7 dias (VO) ou gel vaginal de metronidazol; alternativa: clindamicina vaginal
  • Recorrência é frequente — algumas mulheres necessitam de tratamento supressivo. Na vaginose recorrente e sintomática, o ACOG (2025) passou a recomendar considerar também o tratamento concomitante do parceiro masculino; veja vaginose bacteriana
  • Na gestação: gestante com sintomas deve ser tratada, em qualquer trimestre. Isso não se estende a rastrear e tratar toda gestante assintomática — ver a seção específica abaixo

Tricomoníase

A tricomoníase é causada pelo protozoário Trichomonas vaginalis e é a IST não viral mais prevalente no mundo. Diferente da candidíase e da vaginose bacteriana, é uma infecção sexualmente transmissível — o que significa que o parceiro deve ser tratado simultaneamente para evitar reinfecção.

  • Corrimento amarelo-esverdeado, espumoso, com odor fétido — clássico, mas não universal
  • A maioria das pessoas infectadas tem sintomas mínimos ou nenhum sintoma — e isso vale tanto para mulheres quanto, ainda mais, para homens
  • Tratamento: para a mulher, metronidazol 500 mg 2x/dia por 7 dias é o esquema preferencial; a dose única de 2 g é alternativa. O parceiro deve ser tratado (metronidazol 2 g dose única). Tinidazol 2 g dose única é outra opção eficaz
  • Resistência ao metronidazol: ocorre em cerca de 4 a 10% das infecções vaginais — incomum, mas longe de ser desprezível. Deve ser considerada quando a infecção persiste apesar de tratamento correto, adesão confirmada e sem nova exposição
  • Repetir o exame em cerca de 3 meses: recomenda-se retestar todas as mulheres sexualmente ativas cerca de três meses após o tratamento, mesmo que os sintomas tenham desaparecido e mesmo acreditando que a parceria foi tratada — a reinfecção é frequente
  • Na gestação: gestante com sintomas deve ser testada e tratada, em qualquer trimestre — o metronidazol é seguro. Já o rastreamento universal de gestantes sem sintomas não tem benefício estabelecido

Vulvovaginite por faixa etária

Faixa Etária Causas Mais Comuns Particularidades Clínicas
Infância (pré-púbere) Na maioria das vezes inespecífica/irritativa; parasitas intestinais; corpo estranho; menos comumente uma infecção bacteriana específica Mucosa fina e sem proteção estrogênica; candidíase é rara nessa idade; exame vaginal interno não é rotina
Idade reprodutiva Candidíase, vaginose bacteriana, tricomoníase, ISTs Diagnóstico diferencial essencial; tratamento específico por agente; rastreio de ISTs
Gestação Candidíase (mais comum), vaginose bacteriana, tricomoníase Tratar o que é sintomático — achado assintomático é outra conversa; fluconazol oral deve ser evitado
Menopausa Vaginite atrófica (síndrome geniturinária da menopausa) Queda de estrogênio; mucosa fina e seca; tratamento escalonado, de hidratantes ao estrogênio vaginal local

Vulvovaginite na gestação: o que tratar e o que não tratar

Esta é a seção em que mais se erra — inclusive em material médico. A frase "na gravidez, tratar sempre" junta três condições diferentes como se toda positividade em exame exigisse antibiótico ou antifúngico, e como se tratar todas prevenisse complicações obstétricas. Não é assim. O que decide é haver sintomas:

Situação na gestaçãoConduta
Candidíase sintomáticaTratar — azólico vaginal por 7 dias; fluconazol oral deve ser evitado
Candida encontrada sem sintomasNão tratar. É colonização, não doença
Vaginose bacteriana sintomáticaTratar, em qualquer trimestre
Vaginose sem sintomasNão se rastreia nem se trata de rotina — inclusive em quem já teve parto prematuro, a evidência é insuficiente
Tricomoníase sintomáticaTestar e tratar com metronidazol, em qualquer trimestre
Trichomonas sem sintomasO benefício do rastreamento universal não está estabelecido

Resumindo em uma frase: na gravidez, trata-se doença sintomática — e não todo resultado de exame.

Vulvovaginite na infância

Em meninas pré-púberes, a vulvovaginite tem etiologia diferente da mulher adulta. Nessa faixa etária, a mucosa vaginal é fina e sem proteção estrogênica, tornando-a mais vulnerável:

  • A causa mais comum é a vulvovaginite inespecífica (irritativa) — e vale dizer isso com clareza, porque muitas mães chegam ao consultório achando que fizeram algo errado. Não é falta de higiene: a mucosa é fina e sem estrogênio, o pH é mais alcalino, a região fica próxima do ânus e é naturalmente úmida, e nessa idade a criança ainda tem dificuldade de se limpar sozinha. Sabonetes, banhos de espuma e xampu na região pioram o quadro
  • A maioria melhora só com medidas locais: suspender irritantes, roupas folgadas, secar bem, higiene suave com água
  • Parasitas intestinais (Enterobius vermicularis) — pensar sobretudo quando a coceira piora à noite
  • Candidíase é incomum entre os 2 anos e a puberdade. Se for realmente confirmada nessa faixa, e principalmente se for persistente, vale investigar fatores como diabetes ou imunossupressão
  • Corpo estranho vaginal: causa corrimento fétido e persistente — deve ser descartado
  • Exame vaginal interno não é rotina: em meninas antes da puberdade, a avaliação é predominantemente externa. Exame com espéculo e coleta de material de dentro da vagina não devem ser feitos de rotina, e o conforto e a privacidade da criança precisam ser respeitados
⚠️ Vulvovaginite na infância NÃO é sinal automático de abuso sexual. Vale insistir nisso: o quadro inespecífico é muito comum e, na imensa maioria das vezes, não tem nenhuma relação com violência.

Isso não significa ignorar sinais de alerta. Achados genitais atípicos, trauma, uma história que não fecha ou a identificação de determinadas infecções sexualmente transmissíveis exigem avaliação especializada para investigar violência sexual. As duas coisas convivem: não presumir, e não deixar passar.

Síndrome geniturinária da menopausa (a antiga "vaginite atrófica")

Com a queda dos estrogênios, a mucosa vaginal se torna mais fina, menos lubrificada e mais suscetível a irritações. O nome antigo era "vaginite atrófica", mas ele ficou estreito demais: hoje se fala em síndrome geniturinária da menopausa (SGM), porque o quadro vai além da vagina e nem sempre é uma "vaginite".

Dois esclarecimentos úteis:

  • Não é só vaginal. A SGM reúne sintomas vulvares (ressecamento, ardência), sexuais (dor na relação, sangramento após o sexo) e urinários (urgência, aumento da frequência, infecções urinárias de repetição)
  • Não é exclusiva da menopausa. O hipoestrogenismo que a provoca também pode ocorrer durante a amamentação, em tratamentos oncológicos e com medicamentos antiestrogênicos

Sobre o quadro e o tratamento:

  • Sintomas: ressecamento, ardência, dispareunia (dor na relação), maior frequência de infecções
  • Sintomas leves: hidratantes vaginais de uso regular e lubrificantes nas relações podem ser suficientes — nem toda mulher com ressecamento precisa de hormônio
  • Sintomas moderados, importantes ou persistentes: o estrogênio vaginal de baixa dose (creme, óvulo ou anel) é uma das opções mais eficazes, com absorção sistêmica mínima
  • Terapia hormonal sistêmica: discutir individualmente com o ginecologista

Quando não é candidíase, vaginose nem tricomoníase

Esta seção é para quem já passou por vários tratamentos e continua com sintomas — uma situação mais comum do que parece. Se os exames dão negativos, ou se os antifúngicos e antibióticos não resolvem, a resposta quase nunca é repetir o remédio: é voltar ao diagnóstico.

Coceira, ardência e corrimento persistentes também podem vir de:

  • Dermatite de contato: reação a sabonetes íntimos, absorventes, lenços umedecidos, depilação, tecidos ou até ao próprio creme usado para tratar a "candidíase" — uma armadilha frequente
  • Líquen escleroso: pele vulvar esbranquiçada e afinada, coceira intensa e crônica; precisa de diagnóstico e acompanhamento
  • Líquen plano: pode causar ardor, dor, erosões na vulva e na vagina, corrimento e sangramento ao contato — imita muito bem uma vaginite que não passa
  • Vulvodínia: dor ou ardência vulvar persistente sem lesão visível e sem infecção. O exame ser normal não significa que a dor não seja real
  • Síndrome geniturinária por queda de estrogênio — inclusive fora da menopausa, como na amamentação
  • Vaginite aeróbica e vaginite inflamatória descamativa (VID): formas menos comuns de vaginite, com inflamação de verdade, corrimento amarelado e ardência, que não respondem a antifúngico e exigem microscopia e critérios próprios

💡 O sinal de alerta é o tratamento que não funciona

Se você já usou antifúngico mais de uma vez sem melhora, ou se os sintomas voltam assim que o tratamento acaba, isso por si só é motivo para reavaliar o diagnóstico — e não para aumentar a dose ou repetir o esquema. Chegar à consulta sem ter se automedicado nos dias anteriores ajuda bastante, porque o tratamento recente pode mascarar o que os exames encontrariam.

Quando procurar avaliação médica

A maioria das vulvovaginites é benigna e tratável, mas alguns sinais indicam que a avaliação ginecológica é necessária — para confirmar o diagnóstico e afastar outras causas. Procure atendimento se houver:

  • Corrimento persistente ou que não melhora após o tratamento
  • Odor vaginal forte, especialmente o cheiro de "peixe"
  • Coceira ou ardência intensas que atrapalham o dia a dia
  • Dor durante as relações sexuais (dispareunia)
  • Sangramento fora do período menstrual — não é típico de vulvovaginite e exige investigar outra causa (ex.: cervicite, lesões)
  • Sintomas recorrentes (por exemplo, candidíase 4 ou mais vezes ao ano)
  • Dor pélvica ou febre associadas — podem indicar infecção mais profunda (doença inflamatória pélvica)
  • Sintomas na gestação ou em meninas (infância) — sempre merecem avaliação
⚠️ Evite automedicação: cada tipo de vulvovaginite tem tratamento específico. Usar antifúngico para vaginose bacteriana ou antibiótico para candidíase não apenas não resolve o problema — pode desequilibrar ainda mais a microbiota vaginal e piorar o quadro. Sempre consulte o ginecologista para diagnóstico correto.

💬 Da prática clínica

Coceira, ardência e corrimento levam muitas mulheres a se automedicar — e nem sempre a causa é candidíase. Como a vulvovaginite tem várias causas (fungo, bactéria, irritação), o tratamento certo depende de identificar a origem. Vale avaliar antes de repetir remédios por conta própria. — Dra. Gabriella Dourado

Perguntas Frequentes

Toda coceira vaginal é candidíase?

Não — e essa é provavelmente a suposição que mais leva a tratamento errado. A coceira é o sintoma mais típico da candidíase, mas também aparece em dermatite de contato (inclusive reação ao próprio creme usado para tratar a "candidíase"), líquen escleroso, líquen plano, tricomoníase, ressecamento por queda de estrogênio e vulvodínia. A vaginose bacteriana, ao contrário, costuma cursar sem coceira. Se o antifúngico não resolveu, a conclusão não é que faltou dose: é que provavelmente não era candidíase.

Meus exames dão negativos e continuo com ardência. O que pode ser?

Essa é uma situação mais comum do que parece, e ela tem explicações. Quando candidíase, vaginose e tricomoníase são afastadas, entram no diagnóstico a dermatite de contato, o líquen escleroso, o líquen plano, a síndrome geniturinária por queda de estrogênio — que também ocorre na amamentação, não só na menopausa —, formas menos comuns de vaginite como a vaginite aeróbica e a vaginite inflamatória descamativa, e a vulvodínia, em que há dor ou ardência persistente sem lesão visível e sem infecção. O exame vir normal não significa que a sua dor não seja real. O caminho é reavaliar o diagnóstico, e não repetir antifúngicos e antibióticos.

Grávida com corrimento precisa sempre tratar?

Não. O que decide é haver sintomas, e não o resultado do exame. Candidíase sintomática se trata com azólico vaginal por 7 dias, e o fluconazol oral deve ser evitado; encontrar Candida em gestante sem sintomas é colonização e não se trata. Vaginose sintomática se trata em qualquer trimestre, mas não se rastreia nem se trata vaginose assintomática de rotina — inclusive em quem já teve parto prematuro, onde a evidência é insuficiente. Tricomoníase sintomática deve ser testada e tratada com metronidazol, que é seguro na gravidez, enquanto o rastreamento universal de gestantes sem sintomas não tem benefício estabelecido.

Minha filha pequena tem vermelhidão e corrimento. É candidíase?

Provavelmente não. Entre os 2 anos e a puberdade, a candidíase vaginal é incomum. O quadro mais frequente nessa idade é a vulvovaginite inespecífica, de origem irritativa: a mucosa é fina e sem estrogênio, o pH é mais alcalino, a região é úmida e próxima do ânus, e a criança ainda tem dificuldade de se limpar sozinha. Sabonetes, banhos de espuma e xampu na região costumam piorar. A maioria melhora só com medidas locais — suspender irritantes, roupas folgadas, higiene suave com água. Vale lembrar também que corrimento fétido e persistente pede que se descarte corpo estranho, e que o exame nessa idade é externo: exame vaginal interno não é rotina.

Posso tratar a candidíase sem consulta médica?

Algumas mulheres com episódio anterior confirmado e sintomas muito típicos usam antifúngicos de venda livre, e isso é uma realidade. Mas vale saber de um dado que surpreende: o autodiagnóstico falha mesmo entre mulheres que já tiveram candidíase confirmada por médico — coceira e corrimento têm muitas outras causas. Se for o primeiro episódio, se houver dúvida, se os sintomas forem atípicos, se você estiver grávida, se não melhorar em uma semana ou se o quadro voltar em menos de dois meses, o caminho é confirmar a causa antes de repetir remédio.

Vaginose bacteriana é uma doença sexualmente transmissível?

Não é uma IST clássica: não há um único microrganismo transmitido no sexo, e mulheres que nunca tiveram relações também podem ter vaginose. Mas essa resposta ficou mais sofisticada — há evidência crescente de que bactérias associadas à vaginose são trocadas entre parceiros, o que pesa bastante na recorrência. Na prática: num primeiro episódio, o tratamento da parceria em geral não é indicado; já na vaginose recorrente e sintomática, desde 2025 recomenda-se considerar o tratamento simultâneo do parceiro masculino. Para parceiras do mesmo sexo, a orientação é de decisão compartilhada, e não de tratar automaticamente.

Por que a candidíase fica recorrente?

Primeiro, a definição: dependendo da referência, candidíase recorrente é 3 ou mais ou 4 ou mais episódios sintomáticos em 12 meses. Quanto à causa, vale corrigir uma ideia comum: não costuma ser "reinfecção". A candidíase não é adquirida pela relação sexual como uma IST, e não há indicação de tratar a parceria de rotina — procurar uma "fonte" externa quase sempre é caminho errado. O que pode estar por trás são fatores da própria pessoa: uso frequente de antibióticos, diabetes mal controlado, imunossupressão, espécies não-albicans ou menor sensibilidade aos azólicos. E é honesto dizer que em boa parte das mulheres não se encontra nenhum fator predisponente. Antes de começar um esquema supressivo longo, o passo mais importante é confirmar que é mesmo candidíase e identificar a espécie por cultura.

O cheiro de "peixe" na vagina sempre significa infecção?

É muito sugestivo de vaginose bacteriana, mas não fecha o diagnóstico sozinho. O odor se intensifica após a relação porque o sêmen eleva temporariamente o pH vaginal e favorece a liberação das aminas produzidas pelas bactérias anaeróbias. Vale saber, porém, que outras causas de corrimento e variações normais após o sexo ou a menstruação também podem alterar o odor — e que a relação entre atividade sexual e vaginose envolve mais do que o pH do sêmen: a troca de bactérias entre parceiros parece ter papel relevante. Quando o odor persiste, o diagnóstico não deve ser feito pelo cheiro.

Tricomoníase pode ser transmitida sem relação sexual?

Na prática, não. A tricomoníase é uma IST e sua transmissão ocorre pelo contato sexual genital, com a troca de secreções — transmissão por vaso sanitário, toalha ou piscina não é uma via relevante e não vale a pena se preocupar com isso. O que importa clinicamente é outra coisa: como é uma IST, a parceria precisa ser tratada ao mesmo tempo, e recomenda-se repetir o exame cerca de três meses depois, mesmo sem sintomas, porque a reinfecção é frequente.

Usar calcinhas de algodão e evitar roupas apertadas realmente ajuda?

Ajudam, com uma ressalva importante sobre o tamanho do efeito. Roupa íntima de algodão, roupas mais folgadas e secar bem a região podem reduzir calor e umidade local, e estão entre as medidas que costumam ser recomendadas. Mas seria injusto prometer que elas previnem a candidíase recorrente: quando os episódios se repetem muitas vezes, a explicação em geral é bem mais complexa do que a roupa — e insistir só nessas medidas atrasa a investigação que realmente resolveria o caso.

Diagnóstico preciso para o tratamento certo

Corrimento, coceira ou odor vaginal alterado merecem avaliação ginecológica especializada. A Dra. Gabriella Dourado realiza o diagnóstico correto de vulvovaginites, orienta o tratamento adequado e investiga causas recorrentes para oferecer solução definitiva.

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Conteúdo informativo. Este artigo não substitui a consulta médica. Para avaliação individualizada, procure um ginecologista de sua confiança.

Referências: Centers for Disease Control and Prevention (CDC) — “Sexually Transmitted Infections Treatment Guidelines”, para os capítulos de candidíase vulvovaginal (definição de recorrência a partir de três episódios em um ano, colonização assintomática, cultura e identificação de espécie, azólico vaginal por 7 dias na gestação), vaginose bacteriana e tricomoníase (sensibilidade do exame a fresco, resistência ao metronidazol em 4 a 10% e reteste em cerca de três meses); American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG) — atualização de outubro de 2025 sobre tratamento da parceria na vaginose recorrente, e documentos sobre síndrome geniturinária da menopausa; International Society for the Study of Vulvovaginal Disease (ISSVD) — para as demais formas de vaginite, incluindo vaginite aeróbica e vaginite inflamatória descamativa; US Preventive Services Task Force, para o rastreamento de vaginose na gestação; Organização Mundial da Saúde (OMS); FEBRASGO.