Ginecologia

Infertilidade e Reprodução Assistida: investigação do casal e caminhos para a gestação

📅 Atualizado em maio de 2026 ⏱ Leitura: 10 minutos 👩‍⚕️ Revisado por ginecologista especialista

Cerca de 15% dos casais em idade reprodutiva enfrentam dificuldade para engravidar. O que muitos não sabem é que a infertilidade tem causa identificável na maioria dos casos — e tratamento disponível para grande parte deles. Compreender o processo de investigação e as opções terapêuticas é o primeiro passo para transformar o desejo de ser mãe em realidade.

📋 Infertilidade: Dados Essenciais

  • Definição: ausência de gestação após 12 meses de relações sexuais regulares sem contracepção (6 meses se ≥35 anos)
  • Prevalência: afeta ~15% dos casais — equivale a 1 em cada 6 a 7 casais
  • Distribuição das causas: fator feminino (~40%), fator masculino (~40%), ambos (~10%), idiopática (~10%)
  • Fator idade: fertilidade feminina começa a declinar após os 32 anos e cai significativamente após os 37
  • Resolução: com investigação e tratamento, ~60–70% dos casais conseguem gestação

Quanto tempo tentar antes de investigar a infertilidade?

A busca por avaliação especializada é recomendada quando:

  • Mulher <35 anos: após 12 meses de tentativas sem sucesso
  • Mulher ≥35 anos: após 6 meses de tentativas — o fator tempo é mais crítico
  • Investigar imediatamente (independente do tempo) se: amenorreia, ciclos muito irregulares, endometriose conhecida, cirurgia pélvica prévia, DIP, fator masculino suspeito
  • Mulher ≥40 anos: iniciar investigação imediatamente, sem período de espera

Causas de infertilidade feminina

1. Fator ovulatório (30–40% das causas femininas)

  • SOP (Síndrome dos Ovários Policísticos): causa mais comum de anovulação — hiperandrogenismo, ciclos irregulares, ovários com múltiplos folículos
  • Insuficiência ovariana prematura (IOP): falência ovariana antes dos 40 anos — FSH elevado, menopausa precoce
  • Hiperprolactinemia: prolactina elevada inibe GnRH → anovulação
  • Disfunção tireoidiana: hipo e hipertireoidismo causam anovulação
  • Hipogonadismo hipogonadotrófico: anorexia, exercício excessivo, estresse
  • Diminuição da reserva ovariana: FSH elevado, AMH baixo, contagem de folículos antrais reduzida

2. Fator tubário e peritoneal (30–40%)

  • DIP (Doença Inflamatória Pélvica): sequela de clamídia, gonorreia — obstrução tubária, hidrossalpinge
  • Endometriose: aderências pélvicas, distorção anatômica, inflamação local — compromete transporte do óvulo e implantação
  • Cirurgias pélvicas/abdominais prévias: aderências pós-operatórias
  • Laqueadura tubária: oclusão intencional mas tratável por recanalização ou FIV

3. Fator uterino (10–15%)

  • Miomas submucosos (distorcem a cavidade uterina)
  • Pólipo endometrial
  • Sinéquias uterinas (Síndrome de Asherman) — após curetagem, infecção
  • Malformações uterinas congênitas (útero bicorno, septo uterino)
  • Adenomiose

4. Fator cervical

  • Muco cervical hostil (anti-corpos anti-espermáticos)
  • Estenose cervical pós-conização, cirurgia

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Causas de infertilidade masculina

O fator masculino está presente em ~40% dos casos de infertilidade do casal. Avaliação pelo espermograma é obrigatória no início da investigação.

Parâmetros Normais do Espermograma (OMS 2021)

Parâmetro Valor de Referência
Volume≥ 1,4 mL
Concentração de espermatozoides≥ 16 milhões/mL
Motilidade progressiva≥ 30%
Morfologia normal (Kruger)≥ 4%
Vitalidade≥ 54% vivos

Causas do fator masculino: varicocele (25%), criptorquidia, infecções genitais, fatores genéticos (Klinefelter, microdeleção do Y), distúrbios hormonais, toxinas ambientais, idiopática.

Investigação do casal infértil

Avaliação feminina

  • Reserva ovariana: FSH + LH + estradiol (2º–3º dia do ciclo), AMH (hormônio anti-Mülleriano), ultrassom com contagem de folículos antrais
  • Função ovulatória: progesterona na 2ª fase (D21), LH urinário, temperatura basal, ultrassom folicular seriado. Saiba mais sobre ovulação e período fértil e o ciclo menstrual.
  • Avaliação uterina e tubária: histerossalpingografia (HSG) — gold standard para permeabilidade tubária; histeroscopia diagnóstica; ultrassom 3D
  • Perfil hormonal: TSH, prolactina, testosterona total, DHEAS, SHBG, cortisol
  • Sorologias: toxoplasmose, rubéola, CMV, HIV, hepatites B e C, sífilis, varicela
  • Cariótipo: em casos de falha ovariana prematura ou abortos de repetição

Avaliação masculina

  • Espermograma com morfologia estrita (Kruger) — dois exames com intervalo de 60–90 dias
  • Culturas seminais (descartar infecção)
  • FSH, LH, testosterona (se espermograma alterado)
  • Cariótipo e pesquisa de microdeleção do Y (em azoospermia ou oligospermia grave)
  • Ultrassom de bolsa escrotal (varicocele, epidídimo)

Reserva ovariana baixa significa infertilidade?

Não necessariamente — e essa é uma das maiores confusões do tema. A reserva ovariana se refere à quantidade de óvulos que ainda restam nos ovários, estimada por exames como o AMH, a contagem de folículos antrais (no ultrassom transvaginal) e o FSH. Pontos-chave:

  • Reserva baixa = menos óvulos, não "óvulos ruins". Quem tem reserva reduzida pode, sim, engravidar naturalmente — basta um óvulo de boa qualidade.
  • A qualidade dos óvulos depende mais da idade do que da reserva. Uma mulher jovem com reserva baixa costuma ter óvulos de boa qualidade.
  • O AMH/folículos antrais predizem a resposta à estimulação na FIV (quantos óvulos serão captados) — não são um teste de "fertilidade natural".
  • O que a reserva baixa realmente indica é menos tempo: convém não adiar a tentativa e buscar avaliação.

Ou seja: reserva ovariana baixa é um sinal de alerta sobre a janela de tempo, e não um diagnóstico de infertilidade.

O que é o AMH (hormônio anti-Mülleriano)?

O AMH é um hormônio produzido pelos pequenos folículos dos ovários. Sua dosagem no sangue é um dos melhores marcadores da reserva ovariana (a quantidade de óvulos disponíveis):

  • Pode ser coletado em qualquer dia do ciclo — não depende da fase menstrual.
  • AMH mais alto = reserva maior; AMH baixo = reserva reduzida.
  • É muito usado para planejar a FIV (prever a resposta à estimulação) e para orientar quem pensa em congelar óvulos.

Importante: o AMH mede quantidade, não qualidade dos óvulos, e sozinho não diz se a mulher vai ou não engravidar naturalmente. Os valores de referência variam com a idade e entre laboratórios — a interpretação deve ser feita pelo médico.

Opções de tratamento

Escalonamento dos Tratamentos de Reprodução Assistida

Técnica Indicação Principal Taxa de Sucesso (por ciclo)
Indução da ovulação + coito programadoAnovulação (SOP), fator leve10–20%
Inseminação intrauterina (IIU)Fator cervical, masculino leve/moderado, inexplicada15–25%
FIV convencionalFator tubário, masculino moderado, endometriose, falha de IIU35–50% (varia com idade)
ICSI (injeção intracitoplasmática)Fator masculino grave, azoospermia, falha de FIV35–50%
FIV com doação de óvulosInsuficiência ovariana prematura, baixa reserva, ≥43 anos50–60%

Indução da ovulação e coito programado

Indicado para mulheres anovulatórias (principalmente SOP). Principais medicamentos:

  • Citrato de clomifeno (Clomid): antiestrogênio — estimula FSH endógeno; 50–150 mg/dia do 2º ao 6º dia do ciclo; eficaz em 70–80% para ovulação; risco de gestação gemelar ~8%
  • Letrozol (inibidor de aromatase): 2,5–7,5 mg/dia D3–D7; taxa de ovulação similar ao clomifeno com menor risco de gestação múltipla; preferido na SOP com sobrepeso
  • Gonadotrofinas (FSH recombinante/HMG): injeções SC — monitorização rigorosa com ultrassom para evitar síndrome de hiperestimulação ovariana (SHO)

Inseminação Intrauterina (IIU)

Espermatozoides capacitados em laboratório são depositados diretamente na cavidade uterina próximo ao período ovulatório. Realizada sob leve estimulação ovariana. Indicação: fator cervical, fator masculino leve a moderado (concentração ≥5 milhões/mL após capacitação), infertilidade inexplicada, doadora de sêmen. Geralmente tenta-se 3–4 ciclos antes de escalar para FIV.

Fertilização In Vitro (FIV)

Processo que envolve:

  • Estimulação ovariana controlada: injeções de FSH/LH por 10–14 dias com monitorização por ultrassom e dosagens hormonais
  • Punção folicular: coleta dos óvulos guiada por ultrassom transvaginal — procedimento ambulatorial com sedação leve
  • Fertilização: convencional (FIV) ou por microinjeção do espermatozoide no óvulo (ICSI)
  • Cultivo embrionário: por 3 (clivagem) ou 5 dias (blastocisto) em laboratório especializado
  • Transferência embrionária: 1–2 embriões transferidos para o útero; excedentes vitrificados
  • Suporte de fase lútea: progesterona vaginal

Diagnóstico Genético Pré-implantacional (PGT)

Biópsia de células do embrião antes da transferência para análise cromossômica (PGT-A) ou de doenças genéticas específicas (PGT-M). Indicado em: abortos recorrentes, falhas repetidas de FIV, portadores de doenças genéticas, mulheres ≥38 anos.

Preservação da fertilidade

Opções para mulheres que desejam adiar a maternidade ou que enfrentarão tratamentos que comprometem a fertilidade (quimio/radioterapia):

  • Vitrificação de óvulos: congelamento de ovócitos maduros — taxa de sobrevivência após descongelamento: 80–90%; taxa de gravidez varia com a idade ao congelar (melhor antes dos 35 anos)
  • Vitrificação de embriões: mais eficiente que óvulos — requer parceiro ou doador
  • Congelamento de tecido ovariano: ainda experimental no Brasil, indicado para crianças pré-púberes em tratamento oncológico

Fatores que influenciam a fertilidade

Estilo de vida e fertilidade

  • Peso corporal: obesidade e baixo peso comprometem a ovulação — IMC ideal entre 18,5–25 kg/m²
  • Tabagismo: reduz reserva ovariana, piora qualidade dos óvulos, aumenta risco de aborto
  • Álcool: mesmo consumo moderado reduz chance de gestação — abstinência recomendada
  • Exercício: moderado é benéfico; exercício extenuante (>60 min/dia) pode causar anovulação
  • Estresse: contribui para irregularidade menstrual; técnicas de mindfulness têm evidência positiva
  • Ácido fólico: 400 mcg/dia 3 meses antes da concepção; 5 mg/dia em histórico de defeito do tubo neural
⚠️ A idade é o fator mais importante: a reserva ovariana e a qualidade dos óvulos diminuem progressivamente com a idade. Após os 35 anos, a queda é mais acentuada; após os 40, a chance de gestação espontânea é <5% ao mês. Não existe tratamento que reverta o envelhecimento ovariano — por isso, a investigação precoce é fundamental.

Qual a chance de engravidar naturalmente aos 35, 38 e 40 anos?

A fertilidade natural diminui com a idade — sobretudo a partir dos 35 anos —, mas continua existindo. De forma aproximada, a chance de engravidar por mês (em casais sem problemas de fertilidade) é:

  • 25–30 anos: cerca de 20–25% por ciclo
  • 35 anos: cerca de 15% por ciclo
  • 38 anos: cerca de 10% por ciclo
  • 40 anos: cerca de 5% por ciclo (e abaixo de 5% após os 42)

Ou seja: com o avanço da idade, é normal demorar mais para engravidar — o que não significa que seja impossível. O que muda é o tempo até a gestação e a chance acumulada ao longo dos meses. Por isso, a partir dos 35 anos recomenda-se investigar após 6 meses de tentativa (e não 12). Vale lembrar ainda que a idade materna mais avançada aumenta o risco de alterações cromossômicas — tornando o rastreamento pré-natal, como o NIPT, ainda mais relevante depois que a gravidez acontece.

Abortos de repetição

Definido como 2 ou mais perdas gestacionais espontâneas consecutivas. Causas:

  • Causas cromossômicas do embrião (~50%): aneuploidias — mais comuns com o avançar da idade materna
  • Síndrome do anticorpo antifosfolipídeo (SAF): causa tratável com AAS + heparina
  • Anomalias uterinas: septo uterino (corrigível por histeroscopia), miomas submucosos
  • Trombofilias hereditárias: Fator V Leiden, mutação da protrombina, deficiência de proteínas S e C (a pesquisa da mutação MTHFR não é mais recomendada — não é considerada causa de aborto recorrente)
  • Alterações hormonais: hipotireoidismo, hiperprolactinemia, diabetes descontrolado
  • Causas idiopáticas: ~50% dos casos permanecem sem causa identificada

Perguntas Frequentes

Quanto tempo devo tentar engravidar antes de buscar ajuda médica?

Para mulheres com menos de 35 anos, recomenda-se investigação após 12 meses de tentativas sem sucesso. A partir de 35 anos, o prazo cai para 6 meses. Ciclos irregulares, histórico de endometriose ou cirurgia pélvica são indicação de avaliação imediata, independentemente do tempo de tentativa.

A infertilidade é sempre problema da mulher?

Não. O fator masculino está presente em cerca de 40% dos casos de infertilidade conjugal. Por isso, o espermograma deve ser solicitado logo no início da investigação — investigar só a mulher atrasa o diagnóstico e o tratamento.

Quais os primeiros exames que o casal deve fazer?

Para a mulher: avaliação da reserva ovariana (AMH, FSH, ultrassom transvaginal), função ovulatória e histerossalpingografia para checar as trompas. Para o homem: espermograma com morfologia estrita (critério Kruger). Esses exames formam a base da investigação inicial.

FIV garante gravidez na primeira tentativa?

Não existe garantia. A taxa de sucesso da FIV por ciclo varia entre 35% e 50%, dependendo principalmente da idade da mulher ao fazer o tratamento. Muitas gestações bem-sucedidas ocorrem na segunda ou terceira transferência embrionária.

A endometriose sempre causa infertilidade?

Nem sempre, mas compromete a fertilidade em graus variados. Mesmo em estágios leves, o ambiente inflamatório pélvico afeta a qualidade dos óvulos e a receptividade endometrial. Mulheres com endometriose devem ser avaliadas precocemente caso desejem engravidar.

A idade influencia muito as chances com FIV?

Sim, de forma significativa. A qualidade e a quantidade dos óvulos diminuem progressivamente após os 35 anos. A FIV com óvulos próprios tem taxas mais altas antes dos 37 anos; após os 40, muitas mulheres consideram a doação de óvulos para aumentar as chances de sucesso.

O estresse pode causar infertilidade?

O estresse intenso e crônico pode causar irregularidade menstrual e anovulação, mas raramente é a causa isolada de infertilidade. Ainda assim, técnicas de manejo como mindfulness e psicoterapia são recomendadas como suporte, pois melhoram o bem-estar durante o tratamento.

Após um aborto espontâneo, quanto tempo esperar para tentar de novo?

Após um aborto sem complicações, a maioria dos especialistas recomenda aguardar 1 a 3 ciclos menstruais antes de nova tentativa. Não há evidência de que aguardar mais do que isso melhore os resultados — a decisão deve considerar também o estado emocional da mulher e do casal.

O caminho para a maternidade começa com a investigação correta

Cada casal tem sua própria história e causas específicas. A avaliação completa e individualizada é o que permite identificar o tratamento mais adequado para cada situação. A Dra. Gabriella Dourado oferece investigação do casal infértil e encaminhamento para centros de reprodução assistida especializados.

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Conteúdo informativo. Este artigo não substitui a consulta médica. Para avaliação individualizada, procure um ginecologista ou especialista em reprodução humana de sua confiança.

Referências: Sociedade Brasileira de Reprodução Humana (SBRH), American Society for Reproductive Medicine (ASRM), European Society of Human Reproduction and Embryology (ESHRE).