Ginecologia

Dismenorreia: tipos, fisiopatologia, diagnóstico e tratamento baseado em evidências

📅 Atualizado em agosto de 2026 ⏱ Leitura: 9 minutos 👩‍⚕️ Revisado por especialista em ginecologia

Dismenorreia é o termo médico para dor pélvica cíclica associada à menstruação — afeta 45–95% das mulheres em idade reprodutiva e é uma das principais causas de absenteísmo escolar e laboral feminino. Apesar de prevalente, permanece subestimada e subtratada. Compreender sua fisiopatologia é essencial para um tratamento eficaz e para identificar casos que escondem doenças subjacentes.

🧭 Este é o artigo técnico sobre dismenorreia — fisiopatologia, classificação e tratamento baseado em evidências. Se você quer entender de forma simples se a sua cólica é normal ou merece investigação, veja o guia sobre cólica menstrual.

📋 Classificação Essencial

  • Dismenorreia primária: dor sem patologia pélvica identificável — mediada por prostaglandinas; início 6–24 meses após a menarca
  • Dismenorreia secundária: dor com causa orgânica (endometriose, adenomiose, mioma, DIP, estenose cervical) — início ou piora em mulheres com ciclos previamente indolores
  • Prevalência: primária predomina em adolescentes; secundária aumenta com a idade
  • Diagnóstico diferencial: tempo de início, progressão, associação com outros sintomas (dispareunia, disquezia, infertilidade)

Fisiopatologia da dismenorreia primária

A dor na dismenorreia primária é gerada principalmente pela produção excessiva de prostaglandinas endometriais — especialmente PGF2α e PGE2 — durante a fase luteínica tardia e o início da menstruação. Essas substâncias provocam:

  • Contrações uterinas hiperativas: a pressão intrauterina pode exceder 150–180 mmHg em mulheres com dismenorreia intensa (pressão sistólica aórtica é ~120 mmHg)
  • Vasoconstrição arteriolar: reduz o fluxo sanguíneo miometrial, gerando isquemia e dor similar à angina
  • Hipersensibilização nociceptiva: as prostaglandinas sensibilizam fibras nervosas tipo C e Aδ no útero
  • Sintomas sistêmicos: passagem de PGF2α para a corrente sanguínea — náusea, vômito, diarreia, cefaleia, fadiga

O gatilho é a queda da progesterona: após a regressão do corpo lúteo, a redução da progesterona desestabiliza os lisossomos endometriais, libera fosfolipase A2 e ácido araquidônico e aumenta a síntese de prostaglandinas (PGF2α e PGE2) durante a menstruação. A produção/liberação de prostaglandinas é maior nas mulheres com dismenorreia.

Avaliação clínica da dismenorreia

A anamnese é o pilar diagnóstico. Elementos essenciais:

  • Idade de início: primária surge 6–24 meses após a menarca (com ovulação); secundária — geralmente após anos de ciclos normais
  • Padrão temporal: primária — começa poucas horas antes ou com o início do fluxo, dura 48–72h e melhora progressivamente; secundária — pode começar dias antes, durar mais que a menstruação
  • Localização e irradiação: suprapúbica, com irradiação para lombar e coxas na primária; dor profunda persistente na secundária
  • Sintomas associados: dispareunia profunda, disquezia menstrual, disúria cíclica, infertilidade → endometriose; fluxo abundante + útero aumentado → adenomiose
  • Resposta a AINEs: ajuda a orientar, mas não é teste diagnóstico — uma paciente com endometriose pode melhorar com AINE/hormônio, e uma primária pode responder mal (dose inadequada, início tardio, não respondedora). A resposta insuficiente pede rever adesão, dose e a possibilidade de causa secundária;
  • Impacto funcional: a escala de dor (0–10) mede a necessidade de tratamento e o impacto na vida — mas a intensidade isolada não distingue primária de secundária (a dismenorreia primária pode ser intensa e incapacitante).

Exame físico

O exame pélvico bimanual pode revelar: nódulos nos ligamentos uterossacros (endometriose profunda), útero aumentado e amolecido (adenomiose), miomas palpáveis, sensibilidade dos anexos, mobilidade uterina reduzida (aderências). Na dismenorreia primária, o exame é normal.

Quando são necessários exames?

Em uma apresentação típica de dismenorreia primária, o diagnóstico é clínico e o tratamento pode ser iniciado sem exames. A investigação por imagem entra quando há suspeita de causa secundária, sintomas persistentes ou resposta inadequada ao tratamento.

  • Ultrassonografia transvaginal: exame inicial na suspeita de causa secundária — avalia ovários (endometriomas), miomas, adenomiose e sinais de endometriose profunda. O estudo especializado para endometriose (em alguns serviços, com preparo intestinal) depende de operador experiente. Importante: um ultrassom normal não exclui endometriose, sobretudo a superficial (NICE);
  • Ressonância magnética: complementar — especialmente útil quando o ultrassom é inconclusivo, em determinados sítios ou no planejamento de casos complexos (não é automaticamente "melhor" que o US especializado);
  • Laparoscopia: não é mais um passo obrigatório para o diagnóstico (ESHRE 2022, NICE 2024, ACOG 2026). O diagnóstico pode ser clínico + imagem; a cirurgia fica para situações selecionadas (sintomas persistentes apesar do tratamento, dúvida diagnóstica relevante ou indicação terapêutica cirúrgica);
  • CA-125: inespecífico — não é exame diagnóstico de rotina.

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Tratamento da dismenorreia primária

AINEs — primeira linha

Os anti-inflamatórios não esteroidais inibem a ciclooxigenase (COX-1 e COX-2), bloqueando a síntese de prostaglandinas. São significativamente superiores ao placebo com NNT (número necessário para tratar) de aproximadamente 3. A chave é a dose e o momento de início:

  • Iniciar 1–2 dias antes da menstruação (se ciclo regular) ou ao primeiro sinal de fluxo/dor, mantendo por horários nos primeiros dias (não aguardar a dor se instalar);
  • Opções: ibuprofeno, naproxeno, diclofenaco ou ácido mefenâmico — a dose depende do medicamento e da apresentação, respeitando a dose máxima e as contraindicações de cada um;
  • Escolhe-se UM AINE — ibuprofeno, naproxeno, diclofenaco e ácido mefenâmico não devem ser combinados entre si;
  • Cautela/evitar em: doença renal, úlcera/sangramento gastrointestinal, uso de anticoagulante, alergia/asma relacionada a AINE e doença cardiovascular relevante. Tomar com alimento pode reduzir o desconforto gástrico, mas não elimina o risco de úlcera, sangramento ou lesão renal.

Terapia hormonal — primeira linha

Suprime a ovulação e reduz o espessamento endometrial, diminuindo a produção de prostaglandinas. É opção de primeira linha, especialmente conveniente quando também se deseja contracepção — mas pode ser prescrita exclusivamente para tratar a dor (inclusive em adolescentes sem atividade sexual). Reduz significativamente a dor na maioria das pacientes que respondem.

  • ACO combinados — o regime contínuo pode reduzir ou suprimir os sangramentos e, em algumas pacientes, melhorar ainda mais a dor (não garante amenorreia nem dor zero; escape é comum);
  • DIU/SIU com levonorgestrel — particularmente o de 52 mg tem boa evidência para redução de sangramento e dismenorreia; pode levar à amenorreia em parte das usuárias;
  • Implante subdérmico e injeção trimestral — suprimem/reduzem o ciclo;
  • Anel vaginal e adesivo transdérmico: eficácia semelhante ao ACO oral.

Abordagens não farmacológicas

  • Calor local: tem boa evidência de alívio (em estudos, comparável ao ibuprofeno) e pode ser associado aos demais tratamentos — não é preciso seguir uma "prescrição" fixa de temperatura/horas;
  • Exercício regular: associado a redução clinicamente relevante da dor, embora o tamanho do benefício varie entre estudos e a certeza da evidência seja limitada (não é uma promessa fixa de "50% em 3 ciclos"). O mecanismo é multifatorial — evitamos atribuí-lo a uma única prostaglandina;
  • TENS e acupuntura/acupressão: podem ser consideradas como estratégias complementares, sobretudo quando a paciente prefere abordagens não medicamentosas (evidência heterogênea);
  • Suplementos (ômega-3, magnésio, vitamina D): há estudos pequenos sugerindo possível benefício em situações específicas (por exemplo, corrigir uma deficiência de vitamina D quando existe), mas a evidência é insuficiente para recomendá-los rotineiramente, com dose prescritiva, ao lado dos tratamentos de primeira linha.

Tratamento da dismenorreia secundária

O tratamento é dirigido à causa de base. Para as principais:

Causa Sintoma associado característico Exame de escolha
Endometriose Dispareunia profunda, disquezia, infertilidade USG transvaginal especializado (RM se inconclusivo); US normal não exclui
Adenomiose Menorragia, útero aumentado e amolecido USG transvaginal (critérios MUSA); RM se inconclusivo
Mioma submucoso Sangramento aumentado, cólica USG transvaginal; histerossonografia/histeroscopia p/ a cavidade
Doença inflamatória pélvica (DIP) Dor à mobilização do colo/anexos, corrimento (não é dor tipicamente cíclica) Clínico + NAAT p/ clamídia e gonorreia
Estenose cervical Dor intensa, fluxo muito escasso Histeroscopia (padrão diagnóstico/terapêutico)

Endometriose

  • Progestágenos (dienogeste 2 mg/dia e outros) e ACO combinados — 1ª linha para a dor: suprimem a atividade cíclica da doença e reduzem os sintomas (o objetivo é controle sintomático, não "provocar amenorreia" nem provar regressão das lesões);
  • DIU/SIU com levonorgestrel — eficaz para dor e controle do fluxo;
  • Agonistas/antagonistas de GnRH: em geral 2ª linha, após falha das opções acima, com add-back quando apropriado — não se recomenda uso pré-operatório de rotina só para melhorar o resultado da cirurgia. Já existem antagonistas orais de GnRH;
  • Cirurgia: em pacientes selecionadas (dor refratária, dúvida diagnóstica, indicação própria).

Adenomiose

  • DIU/SIU com levonorgestrel (52 mg): uma das principais opções — pode reduzir de forma importante a dor e o sangramento em muitas pacientes;
  • Anticoncepcional combinado, dienogeste/outros progestágenos e GnRH também são opções (SOGC);
  • Histerectomia: tratamento definitivo quando não há desejo de preservar o útero — mas grande parte das pacientes obtém bom controle com tratamentos conservadores.

Miomas submucosos

Nem todo mioma sintomático caminha para procedimento: há opções clínicas (AINE, ácido tranexâmico para o sangramento, terapia hormonal, DIU hormonal) conforme sangramento, tamanho, localização e desejo reprodutivo. Quando indicada, a miomectomia histeroscópica trata os submucosos; a embolização é outra opção. Ver o artigo sobre miomas.

⚠️ Quando a dismenorreia exige investigação imediata

  • Dor progressiva que piora a cada ciclo
  • Resposta insuficiente a AINE/hormônio corretamente utilizados
  • Dispareunia profunda ou dor pélvica fora da menstruação
  • Sangramento muito intenso ou entre períodos
  • Dificuldade para engravidar
  • Início vários dias antes do fluxo ou que persiste além da menstruação

A intensidade da dor, por si só, não separa dismenorreia primária de secundária — a primária pode ser intensa. Dor incapacitante merece tratamento adequado; o que aponta causa secundária é o padrão atípico, a progressão, os sintomas associados ou a resposta insatisfatória.

Quando a cólica pode indicar endometriose?

Nem toda cólica é igual. Alguns padrões formam o perfil clássico da endometriose — e reconhecê-los cedo encurta o (longo) tempo até o diagnóstico. Suspeite de endometriose quando houver:

  • Dor progressiva: a cólica piora a cada ano, em vez de se manter estável
  • Dor na relação sexual (dispareunia profunda): dor no fundo da vagina durante ou após o sexo
  • Infertilidade: dificuldade para engravidar associada à dor
  • Dor ao evacuar durante a menstruação (disquezia cíclica): sugere acometimento intestinal
  • História familiar: mãe ou irmã com endometriose aumenta o risco

A presença de um ou mais desses sinais não confirma endometriose, mas indica que a dor merece investigação especializada — quanto antes, melhor o controle.

📊 Cólica normal ou que merece investigação?

Característica Provavelmente normal Investigar
Dor estável de um ciclo para o outro✓—
Responde bem ao AINE/hormônio✓—
Dor restrita aos primeiros dias do fluxo✓—
Falta ao trabalho ou à escola pela dor—⚠️
Dor que não cede a anti-inflamatórios—⚠️
Dor fora do período menstrual—⚠️
Dor na relação sexual (dispareunia)—⚠️
Piora progressiva a cada ciclo—⚠️

Um ou mais sinais na coluna "Investigar" merecem avaliação ginecológica — não significam necessariamente doença grave, mas indicam que a dor precisa ser melhor estudada.

Dismenorreia em adolescentes

É a queixa ginecológica mais comum na adolescência. Saiba mais sobre o desenvolvimento sexual no artigo sobre puberdade e menarca. Pontos importantes:

  • Dor intensa desde a menarca sugere anomalia obstrutiva do trato genital — hímen imperfurado, septo vaginal transverso, hemivagina obstruída ou corno uterino não comunicante com endométrio funcional (um útero bicorno simples, não obstrutivo, em geral não causa isso);
  • A conduta habitual é tratamento empírico (AINE e/ou hormônio, seguros na adolescência independentemente de vida sexual); se não houver melhora satisfatória em 3–6 meses (checando a adesão), investiga-se causa secundária, sobretudo endometriose;
  • Endometriose na adolescente é subdiagnosticada — o diagnóstico ainda pode atrasar vários anos. Suspeite quando AINE e hormônio falham; e lembre: um ultrassom normal não exclui endometriose;
  • Conversar com a adolescente privadamente — sem julgamento sobre vida sexual.

Dismenorreia tem cura?

A dismenorreia primária costuma responder bem ao tratamento; os sintomas podem se modificar com a idade e, em algumas mulheres, após gestações — mas isso não ocorre de forma previsível, e gravidez não é tratamento para dismenorreia. Já a dismenorreia secundária por endometriose ou adenomiose não tem cura definitiva (a histerectomia é definitiva na adenomiose, quando não há desejo de preservar o útero) — mas há tratamentos muito eficazes que controlam a dor e preservam a qualidade de vida. Veja também o guia sobre cólica menstrual.

💬 Da prática clínica

A dismenorreia é uma das queixas mais comuns — e das mais subvalorizadas. Diferencio sempre a cólica primária (que melhora bem com anti-inflamatório e anticoncepcional) da secundária, que tem uma causa por trás. Dor que piora com os anos é um sinal de alerta. — Dra. Gabriella Dourado

Perguntas Frequentes

Cólica menstrual intensa é normal ou é sinal de doença?

A cólica dos primeiros dias da menstruação pode ser normal (dismenorreia primária) — e, importante, a primária também pode ser intensa: a intensidade sozinha não define a causa. O que merece investigação é a dor que piora a cada ciclo, começa vários dias antes do fluxo, aparece fora da menstruação, vem com dor na relação/ao evacuar, ou não responde bem ao tratamento — pode indicar endometriose, adenomiose ou mioma.

Qual o melhor remédio para cólica menstrual?

Os anti-inflamatórios (AINEs) como ibuprofeno, naproxeno, diclofenaco e ácido mefenâmico são os mais eficazes — bloqueiam as prostaglandinas que causam a dor. Escolhe-se um deles (não se combinam AINEs entre si). O segredo é iniciar 1 a 2 dias antes da menstruação (se o ciclo for regular) e manter de horário nos primeiros dias, sem esperar a dor piorar.

O anticoncepcional realmente ajuda na cólica?

Sim. Anticoncepcionais hormonais reduzem o espessamento do endométrio e a produção de prostaglandinas, diminuindo significativamente a dor na maioria das pacientes que respondem. Podem ser usados mesmo por adolescentes e mulheres sem vida sexual ativa — a indicação pode ser apenas para tratar a dor, não só contraceptiva.

Bolsa de água quente na barriga ajuda mesmo?

Sim, com evidência científica. O calor local no abdômen inferior provoca vasodilatação e relaxamento muscular uterino — estudos mostram alívio comparável ao ibuprofeno. Pode ser combinado com anti-inflamatórios para mais alívio.

Minha cólica piorou com o passar dos anos — pode ser endometriose?

Esse é um sinal de alerta importante. A dismenorreia progressiva — que piora a cada ciclo, especialmente com dor na relação, ao evacuar ou dificuldade para engravidar — é o perfil clássico da endometriose. Hoje o diagnóstico pode ser clínico e apoiado por ultrassom especializado (ou ressonância), sem necessidade obrigatória de cirurgia; e um ultrassom normal não exclui a doença. A laparoscopia fica para situações selecionadas.

Dismenorreia tem cura?

A dismenorreia primária costuma responder bem ao tratamento e os sintomas podem mudar com o tempo (em algumas mulheres, após gestações) — mas isso não é previsível, e gravidez não é tratamento. A dismenorreia secundária por endometriose ou adenomiose não tem cura definitiva (a histerectomia é definitiva na adenomiose, sem desejo de preservar o útero), mas tem tratamentos muito eficazes que controlam a dor e preservam a qualidade de vida.

Exercício físico realmente reduz a cólica?

Sim, ajuda. O exercício regular está associado a redução clinicamente relevante da intensidade da cólica, embora o tamanho do benefício varie entre os estudos. O mecanismo é multifatorial (modulação da dor, endorfinas, condicionamento), e a atividade física traz benefícios tanto preventivos quanto de bem-estar geral.

Dor menstrual que não passa — investigue

Dismenorreia resistente ao tratamento convencional pode ser sintoma de endometriose, adenomiose ou mioma. A Dra. Gabriella Dourado é especialista em ginecologia e pode realizar a investigação adequada e indicar o tratamento mais eficaz para o seu caso.

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Referências: ESHRE — Endometriosis Guideline (2022); NICE — Endometriosis: diagnosis and management (NG73, atualização 2024); ACOG — Clinical Practice Guideline No. 11, Diagnosis of Endometriosis (2026, substitui a Committee Opinion 760 e o PB 114); consenso MUSA (adenomiose) e SOGC; Cochrane (AINEs, contraceptivos, medidas não farmacológicas e suplementos); FEBRASGO. Conteúdo informativo — não substitui a consulta ginecológica.