Ultrassonografia

Mioma no laudo de ultrassom: tipos, localizações e classificação FIGO

📅 Atualizado em agosto de 2026 ⏱ Leitura: 8 minutos 👩‍⚕️ Revisado por especialista em Ginecologia e Ultrassonografia

Como o mioma aparece ao ultrassom

O mioma uterino (leiomioma) é uma neoplasia benigna originada das células musculares lisas do miométrio. Ao ultrassom, apresenta características típicas que permitem o diagnóstico na maioria dos casos:

  • Ecotextura: variável — pode ser mais escuro (hipoecogênico), semelhante (isoecogênico) ou mais claro (hiperecogênico) que o miométrio, tornando-se heterogêneo quando há degeneração (consenso MUSA)
  • Formato: arredondado ou ovalado, bem delimitado, com pseudocápsula
  • Sombra acústica: frequente nos miomas e pode ocorrer mesmo sem calcificação (pela interface entre os feixes musculares e o tecido fibroso); quando há calcificações, a sombra posterior fica particularmente intensa
  • Vascularização ao Doppler: muitos miomas apresentam vascularização predominantemente circunferencial (periférica); vasos no interior da lesão (intralesionais) também podem ocorrer e, isoladamente, não indicam malignidade ou outro diagnóstico
  • Efeito de massa: pode deslocar, comprimir ou distorcer a cavidade endometrial e o contorno uterino
Importante: Miomas muito grandes ou com degeneração (hialina, cística, hemorrágica, calcificada) podem ter aparência atípica ao ultrassom. Nesses casos, a ressonância magnética ajuda na caracterização e no diagnóstico diferencial (por exemplo, com a adenomiose) e pode aumentar ou reduzir a suspeita de sarcoma. Nenhum exame de imagem, porém, exclui um leiomiossarcoma com certeza absoluta antes da análise do tecido.

Classificação FIGO: de 0 a 8

A classificação FIGO (Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia) padroniza a descrição dos miomas de acordo com a relação com a cavidade uterina e a parede do útero. É a nomenclatura mais utilizada atualmente e deve constar no laudo ultrassonográfico.

Tipo FIGO Localização Descrição Principal impacto clínico
0 Submucoso pediculado Inteiramente dentro da cavidade uterina, preso por pedículo Sangramento intenso, infertilidade, histeroscopia indicada
1 Submucoso < 50% intramural Mais da metade do nódulo projeta-se para dentro da cavidade uterina Sangramento, distorção da cavidade
2 Submucoso ≥ 50% intramural Menos da metade na cavidade; a maior parte do nódulo está no miométrio Sangramento, pode ser tratado por histeroscopia
3 Intramural (contato endometrial) Inteiramente no miométrio, mas em contato com o endométrio Sangramento, pode impactar implantação
4 Intramural puro Inteiramente no miométrio, sem contato com cavidade ou serosa Dor pélvica, aumento do útero; menor impacto na fertilidade
5 Subseroso ≥ 50% intramural A maior parte do nódulo está no miométrio; menos da metade projeta-se para fora (serosa) Compressão de órgãos adjacentes
6 Subseroso < 50% intramural A maior parte do nódulo projeta-se para fora do útero; menos de 50% no miométrio Aumento do volume uterino, compressão
7 Subseroso pediculado Subseroso ligado ao útero por um pedículo estreito (≤10% do diâmetro do nódulo) Raramente pode torcer o pedículo — dor aguda
8 Outros Outras localizações/configurações, como miomas cervicais, parasitários ou em ligamentos pélvicos Variável conforme localização

Miomas híbridos: quando um mesmo nódulo atinge ao mesmo tempo o endométrio e a serosa (atravessa a parede), a FIGO usa dois números separados por hífen — o primeiro indica a relação com a cavidade e o segundo com a serosa. O exemplo mais comum é o FIGO 2–5.

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Os três tipos principais: submucoso, intramural e subseroso

Mioma submucoso (FIGO 0, 1 e 2)

É o tipo de maior relevância clínica, mesmo quando pequeno. Ao crescer em direção à cavidade uterina, distorce o endométrio e causa sangramento uterino anormal — frequentemente com fluxo intenso e cólica. Entre os tipos de mioma, os submucosos e os que distorcem a cavidade são os que têm associação mais bem estabelecida com redução das chances reprodutivas.

Ao ultrassom transvaginal, o laudo deve informar a porcentagem do nódulo dentro da cavidade e a distância entre o nódulo e a serosa — dados essenciais para planejar a histeroscopia.

Mioma intramural (FIGO 3 e 4)

O mais comum. Localizado dentro da parede muscular do útero, pode aumentar muito o volume uterino sem invadir a cavidade. Miomas intramurais grandes (≥ 4–5 cm) podem causar compressão, dor pélvica, sensação de peso, compressão vesical (polaciúria) e dificuldade intestinal.

Miomas intramurais próximos à cavidade (tipo 3) podem impactar a fertilidade mesmo sem distorção franca — esse é um ponto de debate na literatura, e cada caso deve ser avaliado individualmente.

Mioma subseroso (FIGO 5, 6 e 7)

Cresce para fora do útero, em direção à cavidade abdominal. É menos associado a sangramento, pois não distorce diretamente o endométrio; os sintomas predominantes são compressão de órgãos vizinhos (bexiga, reto) e aumento do volume abdominal. (O FIGO 5 pertence a este grupo dos subserosos, com ≥50% de componente dentro da parede.)

O mioma subseroso pediculado (tipo 7) pode, raramente, sofrer torção do pedículo — situação de dor pélvica aguda intensa que exige avaliação de urgência.

Qual classificação FIGO costuma precisar de cirurgia?

Importante: não é o número FIGO isolado que indica cirurgia — a decisão depende dos sintomas. Mas a classificação ajuda a prever quais tipos costumam ser tratados e por qual via:

  • FIGO 0, 1 e 2 (submucosos): são os que mais causam sangramento e impacto na fertilidade. Quando há indicação de remoção, a histeroscopia (sem cortes) é frequentemente a via preferida — desde que o tamanho, a extensão intramural e a espessura da parede permitam um tratamento seguro.
  • FIGO 3 e 4 (intramurais): operados quando são grandes, sintomáticos (dor, compressão) ou quando impactam a fertilidade — geralmente por miomectomia laparoscópica ou laparotômica.
  • FIGO 5 e 6 (subserosos): cirurgia indicada principalmente por compressão de órgãos ou aumento importante do volume.
  • FIGO 7 (subseroso pediculado): a torção do pedículo é rara — a presença do pedículo, isoladamente, não obriga cirurgia. A remoção de um FIGO 7 assintomático é individualizada.
  • Qualquer tipo assintomático: em geral, apenas acompanhamento — não se opera mioma só porque ele existe.

O tamanho, sozinho, não determina a cirurgia, mas é um dos fatores considerados — junto com sintomas, localização, número de nódulos, desejo reprodutivo e impacto sobre os órgãos vizinhos —, além de influenciar a via cirúrgica (histeroscopia, laparoscopia ou laparotomia). Veja os detalhes no artigo principal sobre tratamento do mioma uterino.

Mioma FIGO 3 causa infertilidade?

O mioma FIGO 3 é intramural, mas encosta no endométrio sem invadir a cavidade uterina. Há evidência observacional de redução das taxas de implantação e de nascido vivo na fertilização in vitro em alguns miomas FIGO 3, sobretudo à medida que aumentam de tamanho. Ainda assim, o tema é controverso: não está demonstrado que retirar todo FIGO 3 melhore o resultado, e o impacto é menor do que o dos submucosos (FIGO 0–2), que distorcem a cavidade.

Na prática:

  • Como o FIGO 3 não distorce a cavidade, muitas mulheres engravidam normalmente.
  • A indicação de retirar o nódulo antes de tentar engravidar (inclusive antes de uma fertilização in vitro) é individualizada — considera o tamanho, os sintomas e o histórico reprodutivo.

Ou seja: ter um FIGO 3 não significa infertilidade — significa que vale uma avaliação especializada quando há dificuldade para engravidar.

Mioma FIGO 4 é perigoso?

Não. O FIGO 4 é o mioma intramural puro — totalmente dentro da parede muscular, sem contato com a cavidade nem com a superfície externa. É um tumor benigno e, na maioria das vezes, de baixo impacto:

  • Costuma ser assintomático quando pequeno e não distorce a cavidade — seu efeito sobre a fertilidade é menor e menos bem estabelecido que o dos miomas que distorcem a cavidade.
  • Quando grande, pode causar sensação de peso, aumento do volume do útero, cólicas e compressão da bexiga ou do intestino.
  • Não vira câncer: o leiomiossarcoma é uma entidade rara e distinta, não a evolução de um mioma comum.

Em resumo, "perigoso" não é o termo certo: o FIGO 4 só requer tratamento se causar sintomas. Na ausência de sintomas ou sinais de alerta, geralmente se adota conduta expectante, com reavaliação clínica e repetição da imagem quando houver indicação individual — não há um intervalo fixo obrigatório de ultrassom para todo mioma.

O que o laudo ultrassonográfico deve descrever

Um laudo bem elaborado de útero com miomatose deve conter, para cada nódulo identificado:

Dado Por que é importante
Número de nódulos Importante para estimar a carga da doença e a complexidade do tratamento (não define, sozinho, o tipo de cirurgia)
Localização (tipo FIGO) Define impacto clínico e via de tratamento
Dimensões em três planos (mm) Essencial para acompanhamento evolutivo e planejamento cirúrgico
Ecotextura (hipo/iso/heterogêneo) Ajuda na caracterização; a heterogeneidade pode decorrer da composição ou de degeneração e deve ser lida com os demais achados
Calcificações Podem fazer parte de alterações degenerativas e produzem sombra acústica intensa
Distância da serosa e da cavidade Para miomas submucosos: define acesso histeroscópico vs. laparoscópico
Volume uterino total Útero aumentado modifica via de acesso cirúrgico e resposta ao tratamento hormonal

Degeneração do mioma: quando o laudo fica atípico

Miomas volumosos podem sofrer degeneração — alteração da sua composição interna por suprimento sanguíneo insuficiente. O tipo de degeneração modifica a aparência ao ultrassom:

  • Degeneração hialina: é a forma mais frequente, mas não tem um padrão ultrassonográfico único e específico
  • Degeneração cística: áreas anecoicas (escuras) dentro do nódulo, sem vascularização — não confundir com cisto ovariano
  • Degeneração hemorrágica (vermelha/carnosa): frequente na gestação; conteúdo heterogêneo, doloroso — manejo conservador na maioria dos casos
  • Degeneração calcificada: calcificações com sombra acústica, que fazem parte de alterações degenerativas — a conduta continua dependendo do quadro clínico

Importante: o sarcoma uterino não é um tipo de degeneração do mioma. Como já dito, o leiomiossarcoma é uma entidade rara e distinta — o mioma comum não "vira" sarcoma. As degenerações acima são todas alterações benignas.

Sinal de alerta: Uma massa uterina nova ou em crescimento após a menopausa — fase em que os miomas costumam estabilizar ou regredir — merece investigação mais cuidadosa. Vale saber, porém, que o crescimento rápido, isoladamente, não distingue um mioma de um sarcoma nem é marcador confiável de malignidade (ACOG). Quando há características atípicas, a ressonância magnética é o principal método complementar para caracterizar e estratificar a suspeita — mas não exclui o leiomiossarcoma com certeza absoluta antes da análise do tecido.

Mioma na gestação: o que o ultrassom monitora

O comportamento dos miomas na gestação é variável: alguns aumentam de tamanho — sobretudo no início da gravidez —, enquanto outros permanecem estáveis ou até diminuem depois. A maioria das gestações com miomas evolui sem complicações importantes. Quando ocorre, o principal problema é a degeneração vermelha (carnosa), que causa dor intensa mas costuma ser tratada de forma conservadora, com analgesia.

O ultrassom obstétrico deve registrar, sobretudo em miomas grandes, sintomáticos ou próximos da placenta/colo:

  • Localização do mioma em relação à placenta (mioma retroplacentário aumenta o risco de descolamento)
  • Miomas no segmento inferior: podem dificultar o parto quando efetivamente obstruem a apresentação ou o canal — mas a maioria das mulheres ainda pode ter parto vaginal, e a cesárea é decidida pelas indicações obstétricas habituais
  • Reavaliação do tamanho conforme o contexto obstétrico (não é preciso medir seriadamente todo mioma pequeno incidental)

💬 Da prática clínica

No laudo de ultrassom, a classificação FIGO do mioma costuma gerar dúvida. Explico que ela orienta a conduta — sobretudo a via de tratamento —, mas quem decide se trata são os sintomas, não o número no laudo. Um mioma "no exame" nem sempre precisa de intervenção. — Dra. Gabriella Dourado

Perguntas frequentes

O que significa mioma intramural no ultrassom?

Mioma intramural cresce predominantemente dentro da parede muscular do útero. É o tipo mais comum. Na classificação FIGO, o tipo 3 é totalmente intramural, mas encosta no endométrio; o tipo 4 é intramural sem contato com o endométrio nem com a serosa. Ao ultrassom aparece como nódulo no miométrio (de ecogenicidade variável), podendo distorcer o contorno uterino quando grande.

Qual a diferença entre mioma subseroso e submucoso?

O subseroso cresce para fora do útero (é menos associado a sangramento, mas pode comprimir órgãos e dar sensação de peso). O submucoso cresce para dentro e distorce a cavidade endometrial — é o tipo com associação mais consistente a sangramento intenso e a redução das chances reprodutivas, relevante mesmo quando pequeno.

O que é a classificação FIGO de miomas?

Sistema da Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia que numera os miomas de 0 a 8 conforme a relação com a cavidade uterina e a parede do útero. Define impacto clínico e orienta o tipo de tratamento mais adequado.

Mioma submucoso sempre causa sangramento?

Não necessariamente, mas é o tipo com maior potencial para isso. Mesmo miomas submucosos pequenos podem causar menorragia (fluxo intenso) por distorção e hipervascularização do endométrio.

Como o radiologista descreve o mioma no laudo?

O laudo deve conter: localização com classificação FIGO, número de nódulos, dimensões em três planos, ecotextura, presença de calcificações, distância da serosa e da cavidade endometrial, e volume uterino total.

Ultrassom transvaginal é melhor para avaliar mioma?

Sim, especialmente para miomas submucosos. O transdutor intracavitário tem melhor resolução para avaliar a relação com a cavidade endometrial — fundamental para a classificação FIGO e o planejamento de histeroscopia. Para miomas grandes ou úteros muito aumentados, o ultrassom abdominal complementa.

Mioma cresce na menopausa?

Geralmente não — miomas dependem de estrogênio e tendem a estabilizar ou regredir após a menopausa. Uma massa uterina nova ou que cresce nessa fase merece investigação mais cuidadosa. O crescimento rápido, porém, não distingue por si só um mioma de um sarcoma. Quando há características atípicas, a ressonância magnética ajuda a caracterizar e estratificar a suspeita, mas não exclui malignidade com certeza absoluta.

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Conteúdo informativo. Este artigo não substitui a consulta médica. Para avaliação individualizada, procure um especialista em ginecologia de sua confiança.

Referências: sistema de subclassificação de miomas da FIGO (Munro MG et al., 2011) e revisão de diagnóstico/classificação (Int J Gynecol Obstet, 2025); consenso MUSA (termos e medidas de lesões miometriais ao ultrassom); modelo brasileiro de relatório estruturado de miomas (Radiologia Brasileira); SOGC — diretriz de manejo dos leiomiomas uterinos (nº 461, 2025); ACOG (Committee Opinion nº 822, morcelamento e leiomiossarcoma); FEBRASGO.